Bugonia, uma soma de obsessões fílmicas
Por Ernesto Diezmartínez

Se algo fica claro após assistir a Bugonia (Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Canadá, Coreia do Sul, 2025), o décimo longa-metragem do cineasta grego Yorgos Lanthimos — desde sua estreia na direção individual com Kinetta (2005), até sua recente obra-prima, Tipos de gentileza (2024) —, é que, se o roteiro escrito por Will Tracy não fosse baseado no clássico cult coreano Save the Green Planet! (Jang, 2003), poderíamos jurar que esta delirante comédia de conspiração foi concebida pelo próprio diretor de Pobres criaturas (2023) e ninguém mais. É que Bugonia surge, de certa forma, como uma manifestação precoce de muitas das preocupações do mais famoso representante da emblemática Nova Onda Grega, a excêntrica corrente cinematográfico que nos ofereceu algumas das narrativas mais instigantes deste século até agora.
Embora a adaptação de um roteirista especializado em comédias satíricas permaneça bastante fiel à premissa do filme coreano dirigido e escrito por Joon-hwan Jang — um empresário irascível é sequestrado por um ex-funcionário ressentido, convencido de que o milionário insensível é um alienígena liderando uma invasão interplanetária invisível —, Lanthimos se apropriou da história original, impulsionando-a em direção a um de seus temas mais recorrentes: a criação e a representação ousadas de mundos distorcidos e autossuficientes, um fio condutor em seus filmes desde o já mencionado Kinetta.
Além disso, as pequenas, porém significativas, mudanças na trama situam Bugonia não apenas no presente, mas também no cerne do pessimista zeitgeist que domina o aqui e agora. Em outras palavras, se Eddington (Aster, 2025) pode ser visto como uma alegoria catastrófica velada dos Estados Unidos de Donald Trump e Uma batalha após a outra (Anderson, 2025) como sua esperançosa resposta revolucionária, o filme de Yanthimos se apresenta como o equivalente a uma devastadora risada negra à maneira Kubrick.
O filme coreano original apresentou o sequestro e a tortura do repulsivo empresário corrupto como uma espécie de ato frenético de justiça. Embora o sequestrador não fosse nenhum santo, era impossível sentir simpatia por um milionário que se recusa a pagar integralmente a taxa de estacionamento a um pobre empregado, que reclama que seu motorista não foi trabalhar naquele dia para comemorar o aniversário da mãe e que profere mais insultos classistas por segundo do que um empresário endividado com a Receita Federal.
Em Bugonia, Lanthimos mudou o gênero da vítima sequestrada — ela é uma mulher atraente com um olhar penetrante e não um homem comum acima do peso — e se comporta como qualquer CEO bem treinada por sua meticulosa equipe de relações públicas para fingir empatia, escuta ativa e até mesmo interesse genuíno no que os outros estão dizendo, neste caso, os dois infelizes que a sequestraram. Interpretada pela força da natureza que Emma Stone se torna nas mãos de Yorgos Lanthimos, a onipotente Michelle Fuller pode ser tão repulsiva quanto o empresário do filme original, mas, em contraste, exala carisma. Ela é um verdadeiro monstro, mas é impossível desviar o olhar. E como espectador, você não tem dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, ela prevalecerá sobre seus patéticos sequestradores, o paranoico Teddy (Jesse Plemons) e seu primo ingênuo e bem-intencionado, Don (Aidan Delbis).
Lanthimos é um mestre na direção de atores, tanto em planos gerais — como a sequência do sequestro de Fuller, com seu humor deliciosamente violento — quanto nas trocas verbais entre a empresária dominadora e seu messiânico sequestrador. Como é típico dos filmes do diretor, a comédia imediatamente descamba para o desconforto, de modo que para cada risada do espectador, há outro momento em que ele quer desviar o olhar do que está acontecendo na tela.
A misantropia de Lanthimos e Tracy em Bugonia não poupa ninguém, porque, embora certamente não haja nada de redimível na empresária compreensiva e socialmente responsável, também há pouco a que se apegar no delirante homem comum interpretado por Plemons. Aliás, a reviravolta (não tão) surpreendente no final — idêntica à do filme coreano — serve apenas para reforçar a visão sombria e fatalista que Kubrick certamente teria aplaudido em Dr. Fantástico (1964).
O título do filme, Bugonia, refere-se, aliás, ao mito grego da regeneração espontânea da vida através da morte e da destruição. Segundo Robert Graves em Os mitos gregos, um dos muitos filhos de Apolo, Aristeu, conseguiu reviver suas preciosas colmeias após realizar quatro sacrifícios de touros e quatro novilhas, com suas respectivas libações de sangue. Após deixar os corpos sem vida dos animais expostos às intempéries, a vida brotou nove dias depois, dando origem a uma vigorosa colônia de abelhas.
Ou seja, talvez tenhamos a salvação: para renascermos, primeiro precisamos morrer e destruir tudo ao nosso redor. Se isso for verdade, estamos pelo caminho certo.
* Este texto é a tradução livre de Bugonia, una suma de obsesiones fílmicas, publicado aqui, em Letras Libres.
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