Preencha o formulário para participar da promoção. Se você não chegou aqui pelo Facebook, não deixe de findar sua inscrição cumprindo o restante do regulamento desta promoção.

Miacontear - O adiado avô

Por Pedro Fernandes

 "Homem velho com a cabeça entre as mãos". Van Gogh


" - Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.

E ainda mais explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós." ¹
Esta é fala de Zedmundo, Zedmundo Constantino Constante, pai de Glória que acaba de ter um filho. Patriarca da família, Zedmundo se recusa a ir ao hospital conhecer o neto e se recusa a tê-lo dentro de casa. Novamente o espaço habitado em O avô adiado é o espaço da família marcado pela presença ativa do masculino que plenos poderes sobre a mulher. O silenciamento do feminino é expresso em dois momentos distintos nessa narrativa. Primeiro, quando da recusa de Dona Amadalena, mãe de Glória, ao pedido intercessão a Zedmundo, para que ele se convença em dar vistas ao neto. Segundo, pelo estágio constante de retomada por parte do narrador acerca da silêncio de Amadalena - "a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer".

Esse conto é o primeiro desse livro que toca na questão da colonização. Ela vem atravessada na história tantas vezes repetida de Zedmundo que rememora a relação de silenciamento e submissão padecida pelo próprio com o patrão português. É por através desse rememorar de Zedmundo que ficamos a entender como é o funcionamento do espaço doméstico. Em casa Zedmundo preza a mesma ordem que, no espaço externo, seu patrão lhe prezava. "- Eu tão calado que parecia vossa mãe, Dona Amadalena, com todo respeito..."

A castração da fala faz Dona Amadalena subverter a ordem ou o código do silenciamento por uma linguagem de resmungos, de suspiros. É uma palavra outra que vem pelas frestas do silêncio e converte-se em língua autônoma, que fere a ordem do código masculino. Esse estágio de resmungos será suficiente para ferventar-se pelos gases de saturação das mesmas histórias de Zedmundo e da sua indiferença para com o neto e tudo se tornar, enfim, no pedido de que ele desse atenção ao neto e mesmo a ameaça de sair de casa, caso a situação não fosse revertida. É aí que se dá o diálogo que epigrafa este post. É aí que nem Zedmundo arreda o pé de casa, nem Amadalena. É aí que se configura uma explicação para a insistência de negar o neto. Como Amadalena que não sai casa por medo e submissão ao marido, Zedmundo não aceita o neto por medo de aceitar própria existência como fato finito. Ou ainda por uma necessidade de preservar seu estado recente de libertação.

Daí para adiante a história caminha para um estágio de tragicidade: a família de Glória se muda para a capital, Amadalena volta ao seu silêncio. Em seguida, o genro morre, Glória, devido ao ocorrido entra numa depressão profunda que lhe leva à loucura e a impossibilidade de cuidar do neto. Resultado: o neto, tendo avós, voltará ao convívio da casa. Ironia do destino ou não. Inaugura-se aqui um percurso silencioso de descida da personagem Zedmundo, que atormentada por aquilo que ela mais tenta se livrar, sai de casa; esse percurso se dá por debaixo da próprio cerzir da narrativa. Seu retorno à casa e entregar-se ao choro, marca, primeiro, a ideia do quão ligada a esse espaço está a personagem que fora dele a vida não lhe constitui sentido, e, segundo, a ideia de arrependimento pela incapacidade de lidar, ela própria, com as linhas do tempo. O encontro, enfim, com o neto, como se "ambos fossem recém-nascidos", marca esse fundir-se do tempo ou a aceitação por parte de Zedmundo que a existência anda.
"'Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.'
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já se tinha esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho." ²


___________
¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.35.
² idem, p.37.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

11 Livros que são quase pornografia

Os muitos Eliot

Uma entrevista raríssima com Cora Coralina

Além de Haruki Murakami. Onze romances da literatura japonesa que você precisa conhecer

Boletim Letras 360º #308

As melhores leituras de 2018 na opinião dos leitores do Letras

Boletim Letras 360º #309

Os melhores de 2018: prosa

O excesso que vive: Mac e seu contratempo, de Enrique Vila-Matas