Dois, de Oscar Nakasato

Por Pedro Fernandes



Há uma longa tradição que atravessa desde os mitos fundadores, passa pela antiguidade, à contemporaneidade, sobre o duplo na literatura. O tema ou motivo assume várias feições e o romance de Oscar Nakasato a ele se filia através da representação dos irmãos de natureza distinta. Nesta linha está títulos como Esaú e Jacó, de Machado de Assis e Dois irmãos, de Milton Hatoum, para citar dois que logo podem vir à memória imediata do leitor.

No caso de Dois, são os irmãos Zé Paulo e Zé Eduardo. Eles assumem as vozes do romance e recontam ora sua história pessoal, ora a história da família; nesta segunda variável, as narrativas oferecem muitas vezes pontos de vista distintos sobre uma mesma situação ou acontecimento. Propositalmente, Nakasato utiliza o lugar dos extremos desde a concepção original dessas duas personagens: o primeiro é o irmão mais velho e o segundo o mais novo de um grupo de quatro irmãos. Entre os dois estão o Zé Carlos e a Maria Luíza.

Claro, nenhum deles são iguais, como não é possível de acontecer ainda que se tratasse aqui de irmãos gêmeos. Essa diversidade de personas permite ao romancista construir um mural plurissignificativo sobre as relações fraternas, outro tema inerente ao do duplo quando nos situamos no âmbito das representações de irmãos na ficção, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão aguda sobre as linhas constitutivas da sociedade em que vivem.

As implicações entre interior e exterior não aparecem supostas e sim explícitas na maneira como Nakasato forja os extremos a partir da perspectiva dos dois irmãos. O primeiro, que abre o romance e quer assumir o tempo todo um ponto de vista original, imparcial e objetivo, é de personalidade racional e metódica. Afeito ao perfil do trabalhador honesto, fiel cumpridor dos seus direitos, respeitador da religião, integrado aos modelos pré-determinados pela estrutura da qual faz parte, seu grande discurso prima pela objeção das diferenças. Sua interpretação do mundo passa por uma diversidade de reducionismos gratuitos que o fazem figura representativa de um tipo cujas características têm sido ressuscitadas desde o advento das diversificações de vozes e lugares sociais: o conservador. Embora não pareça ser do feitio dessa personagem o imperativo fascista, nascido do radicalismo mais profundo dessa condição, não deixam de circular os elementos que, só por uma questão de tempo – e tempo algo do qual nem um e nem outro dispõem –, poderia eclodir no sectarismo mais absurdo.

Enquanto isso, a perspectiva de Zé Eduardo é toda outra. Inclinado a uma condição mais subjetiva desde a infância e por isso tem dos pais, ao menos na visão do irmão mais velho, um zelo desmesurado, esta personagem assumiu durante toda a vida a posição do inconformado, do questionador, do inclinado aos ventos da utopia. Sua posição no romance é a de relatar com tons mais sutis os acontecimentos; seu grau de abertura para a voz do outro se verifica desde a contínua interferência do diálogo, elemento escasso na narrativa de Zé Paulo destilada em tom monocórdico para o neto, à maneira como assume suas posições ante as situações históricas.

Assim, enquanto a contínua tarefa do conservador é acusar o irmão caçula de vagabundo, preguiçoso, mentiroso, aproveitador, marginal, a dele é a de não dar ouvidos a isso e apostar nos sentidos de sua intuição. Enquanto um se acovarda sob o discurso de que as coisas são o que são e a única possibilidade de alterá-las é individualmente através do trabalho duro e honesto, o outro vivifica a possibilidade de garantir outro estágio social mais justo a todos. Por isso, desde jovem envolve-se com o movimento estudantil de repúdio à ditadura, substitui o desejo do pai de concluir a faculdade de economia pelo seu sonho de ser desenhista, e, mais tarde, integra as facções de guerrilha contra o regime militar, fator que o conduzirá ao exílio, primeiro no Chile e depois, quando da derrubada de Salvador Allende, na França.

Mas, qual o interesse de um romance em oferecer dois pontos de vista distintos? Há várias respostas para esta pergunta e nenhuma delas pode se reduzir apenas a que parecerá mais cômoda que é a de oferecer uma dupla visão sobre a natureza individual dos sujeitos. Não há maneira de educação igualitária conforme ingenuamente acreditam os pais. Ainda que os contextos sejam iguais, as diferenças estão mantidas por uma maneira de visão e compreensão do mundo que é diversa para cada sujeito, desde, por exemplo, sua identificação como pai ou a mãe, e sobre estas pouco se tem controle ou podem ser modificadas. Isso porque não são os indivíduos entidades separadas do mundo.

Agora, não é do interesse de Dois oferecer ao leitor um ponto de vista mais coerente e por isso algo que deva ser adotado pelo leitor; claro, porque nenhuma obra literária já cumpre esse propósito ultrapassado de uma pedagogia do sujeito e, porque sua tarefa é outra: problematizar. Neste caso, problematizar o mundo feito à imagem das dicotomias. A exposição do romance do autor de Nihonjin é de um mundo que não compreendeu o sentido do dicotômico e a interpretação adotada só tem contribuído ainda mais para a difícil tarefa de transformação coletiva ansiada por uns.

Não é a escolha de uma saída pela terceira via, como logo pensarão alguns. É a desconstrução dolorosa de um modelo social esgotado cujas bases foram instituídas sempre no impasse entre esta ou aquela posição. Novamente é o próprio romance que expõe isso ao demonstrar que os dois polos representados pelas visões extremas de Zé Paulo e Zé Eduardo, sobretudo daquele, contêm, cada qual, problemas sem soluções, isto é, não se oferecem saídas efetivas para as crises sociais.

Zé Eduardo, entretanto, porque viveu o calor da história – e eis o desafio proposto pelo romancista de quase uma obrigação individual de cada sujeito – desenvolve uma compreensão mais acurada sobre as coisas; isso porque adota para si o aperfeiçoamento de algo que há muito foi sua condição favorável à revolução, seguir as cordas do tempo e as incorrências do corpo. Ao que parece, nenhuma sociedade está preparada para isso, porque entramos num labirinto cuja saída é a inadiável catástrofe: adotamos sem ingerência a escravidão do relógio.

As duas visões também assumem a diversidade de mudanças estabelecidas na sociedade brasileira entre os tristes anos de chumbo e o período de redemocratização do país. O leitor nota a maneira como Zé Paulo se refere ao tempo atual: é o sempre em nome da recusa e do enaltecimento do passado. As tão marcadas expressões “naquele tempo” ou “no meu tempo” sempre empregadas na abertura de suas opiniões reafirmam que apenas as condições do passado são as mais corretas e a desordem que ele observa nessa nova era é produto de inversão de valores, o que, logo sabemos, não ser verdade. Fechado para as transformações contribuirá significativamente para o fim trágico da filha, sem nunca se dar conta sobre isso.

Cuidadosamente interessado em fazer das duas personagens livres de quaisquer estereótipos capazes de determiná-las enquanto exemplos mais coerentes, Nakasato despreza a perfeição e a imperfeição e constrói duas figuras capazes de despertar no leitor o sentimento mais variado. Isto é, antes de servirem à condição de uma tipologia são criaturas moldadas à imagem e semelhança do humano com seus pontos positivos e negativos, suas idiossincrasias. E são raros os romances contemporâneos da literatura brasileira que alcançam semelhante feito.

O que querem as duas visões distintas é uma estabilidade com a realidade da qual são parte; esquecem-se, entretanto, que a vida não se guia pelo liso porque é pulsão. E enquanto não formos capazes de reconhecermos que as diferenças, o que a define (e é possível que nunca), estaremos sempre condenados ao impasse. Efetivamente, talvez tudo isso seja existir. Portanto, não sairemos nunca da condição necessária que nos resta: a luta.

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