Sophia de Mello Breyner Andresen, “um tumulto de clarão e sombra”

Por Eduardo Moga





A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen é objetiva e solar, celebrativa e áurea. Uma “exalação afirmativa” percorre desde seu primeiro livro, Poesia, publicado em 1944, até o último, Mar, aparecido em 2001. É uma característica singular, que a distingue do resto da lírica contemporânea, presa na introspecção elegíaca, no lamento do eu. A poesia de Sophia, como os romances de Mark Twain, transmite um sentimento de felicidade: é alegre e firme; parece encontrar gosto no mundo. 

Em seus primeiros livros – Poesia, Dia de mar, Coral – essa satisfação se apresentava com inequívocos tons românticos, que descreviam uma personalidade cristalina e fúlgida, ansiosa por se encaixar nos fractais do real. Mas esta realidade não é dolorosa e sim amável, angélica; e ela recorre à condição de poeta para ser: “Procurei-me na luz, no mar, no vento”. Este alexandrino ilustra alguns dos motivos aos quais recorre Sophia de Mello para representar seu abraço com o universo: a luz, signo do alto – onde também estão o céu, o sol, os pássaros – e, portanto, do vínculo com o superior e o puro; e o mar, uma metáfora chave de sua lírica, que, junto com outros tópicos relacionados – a espuma, as ondas, a praia – sugere sua íntima fusão coma totalidade.

O mar se irmana com o eu, ou é o eu: “Desde a orla do mar / Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim”; e na praia, “puro espaço e lúcida unidade”, se opera a libertação do tempo. Esta projeção reconciliadora encontra lugar simbólico na antiguidade clássica e, em especial, na mitologia grega. A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen aparece impregnada de helenismo e mediterraneidade: os lugares do Egeu – Creta, Olímpia, Delfos – e as personagens da história grega e do panteão olímpico – Eurídice, Antínoo, o Minotauro – vertem sua rugosa transparência nos poemas e dialogam inclusive com o Deus cristão, o que a poeta, educada no catolicismo, traz a seus versos, ainda que sem excessos fideístas. 

Mas esta encarnação mítica não contradiz o fato de que a poesia de Sophia é, antes de tudo, uma poesia do real. Num dos textos reveladores, “Sobre a poesia”, este apresentado em Livro sexto, a poeta escreve: “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre o círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.” Por isso o mundo é alimento, o ser das coisas é suficiente e arrebata a veemência do visível; por isso ama o geométrico e o concreto; e por isso sua poesia ganha no fôlego à medida que avança no tempo – superados os transes juvenis, fica a relação com o existente, incluindo suas incursões pelos dramas históricos e sociais.

O compromisso de Sophia de Mello Breyner Andresen com a esquerda e com a derrubada da ditadura em 1974 é evidente nos livros dessa década – O nome das coisas, Navegações – embora antes já houvesse passado pelas tramas da história de seu país. É peculiar, entretanto, que mesmo quando canta os descobrimentos dos navegadores portugueses, seu canto sirva como proclamação da pureza, renovação do júbilo que sente por novo nascer do mundo. O poema “Descobrimento”, por exemplo, diz: “Saudavam com alvoroço as coisas / Novas / O mundo parecia criado nessa mesma / Manhã”.

Diante esta dimensão harmoniosa e exultante, a poesia de Sophia de Mello Breyner oferece uma parte tenebrosa que sempre é a menos explorada. Porque seus versos abrigam também um insistente tatear no escuro: o vazio, o medo e a morte aparecem em cada passo. O belíssimo poema “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal” é um bom exemplo:

A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão. 

A prisão, também, aturde o poeta, como revelam estes versos de ecos dickinsonianos:

Depois da cinza morta destes dias, 
Quando o vazio branco destas noites 
Se gastar, quando a névoa deste instante 
Sem forma, sem imagem, sem caminhos, 
Se dissolver, cumprindo o seu tormento, 
A terra emergirá pura do mar 
De lágrimas sem fim onde me invento. 

Tudo, também o nada, forma parte da vida, e ambos estão em luta num combate eterno. No poema “O hospital e a praia” se contrapõem aquele, o símbolo da dor, e esta, emblema da plenitude. O sol vivifica, mas também mata: por seu peso ilimitado morre a poeta, “cega de brancura”.  

Ainda no rol dos paradoxos vale sublinhar a imagem noturno meio-dia, uma luta, sutil mas intensa, entre o solar e o negro – extraído de um verso que se repete em vários poemas da série “Delphica”, de Dual; ao inverso, mas com o mesmo sentido, lemos “noite diurna”, ou noites que brilham, ou claridades que conduzem à noite. Há, pois, “um tumulto de clarão e sombra” que reflete a permanente luta entre o bem e o mal, entre o prazer e a angústia, entre a construção e a destruição: “Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne / e esta é a dança do ser”.

Talvez essa gangorra freática explique não apenas os traços melancólicos da dicção poética de Sophia, ou mesmo certa frieza que por vezes aí se apresenta, mas também as repentinas descargas de violência que soltam alguns poemas; por mais sossegados que pareçam, há inesperados saltos da ordem ao caos, como neste aliterativo epifonema: “Ventos da Ásia em sua boca trazem / O estridente clamor da fúria tantra / Tudo vai rolar na violência do instante / Nenhuma coisa é construída em pedra”. 

A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen procura a realidade mas também encontra o escondido: “Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos / E reconhecem o abismo pedra a pedra anénoma a anémona flor a flor”. E é de se sublinhar como uma poesia de corte figurativo atenta às coisas e à sua expressão depurada, recorre a pequenos restos vanguardistas, como a omissão das vírgulas, para suavizar – e compactar – a enumeração.

Nesta proclamação e simultânea impugnação da vida, a poesia, isto é, o ato de escrever, o ato de nomear, desempenha um papel fundamental. A reflexão metaliterária é contínua, embora se intensifique à medida que a obra avança; e não é acaso que um de seus livros mais importantes, datado de 1977, se intitule O nome das coisas. Para Sophia, nomear é criar e a palavra se identifica com a coisa. Assim diz o poema “Alcácer do Sal”: “A sombra azul da palavra moira / O branco vivo da palavra sal”. O contrário também é certo: as coisas existem com independência de seu nome e não nos resta se não as interrogar para averiguar: “Ia e vinha / E a cada coisa perguntava / Que nome tinha”. 

Apesar destas higiênicas ambiguidades, que reproduzem o remoto debate do Crátilo, a poesia é abolição da morte. permite a permanência do espaço primeiro quando estávamos unidos ao cosmos e reconstrói o mundo. Mas, para escrevê-la é preciso atenção máxima às circunstâncias: o ar, as cores, a densidade dos objetos. “Olha fita escuta / Atenta para a caçada no quarto penumbroso”, escreve Sophia de Mello Breyner em seu poema “Arte poética”, parafraseando a imagem de um poeta muito querido por ela, Federico García Lorca, quando definia a poesia como “uma caçada noturna”. 

Esta atitude de receptividade total, desenvolvida num silêncio repleto de música, nasceu desde sua infância, como deixou escrito no poema: “Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.” E nessa fértil quietude permaneceu Sophia durante toda sua vida; por isso sua obra se move, agitada por claros-escuros e simetrias, e nos comove.


*

A seguir preparamos um catálogo com alguns poemas (alguns inéditos em livro) e fotografias de Sophia de Mello Breyner Andresen.



Ligações a esta post:
>>> Eu sei que nunca se dirá tudo que a poesia é


Comentários

LIGIA disse…
Simplesmente maravilhosa, eu diria: subiu ao alto, teve coragem de mergulhar nos abismos, mas conseguiu enviar seus poemas e suas mensagens, aprendeu muito... e se daremos à atenção devida aprenderemos e apreenderemos... esta vida...o que é essa vida..."Sem cessar se busca e se perde e se desune/ esta é a dança do ser."

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #298

Das mentiras que contamos sobre as vidas que não vivemos

João Cabral olha Joan Miró

O projeto é escrever. Um perfil de Mario Levrero

José Saramago, o ano de 1998

A vida e a arte de Sylvia Plath

As últimas testemunhas, de Svetlana Aleksiévitch

Poesia e desordem