Boletim Letras 360º #324

Amiga e amigo leitor, estas foram as notícias que passaram pelo mural do blog Letras in.verso e re.verso no Facebook durante a semana. Em destaque, a grata surpresa do Prêmio Camões atribuído a Chico Buarque. Boas leituras!



Segunda-feira, 20 de maio

Terror e modernidade, de Donatella Di Cesare, o novo livro do catálogo da Editora Âyiné

Somos propensos a ver os ataques terroristas como uma aberração, uma incursão violenta em nossas vidas que não teriam relação intrínseca com as características fundamentais das sociedades modernas. Mas seria essa visão uma interpretação errônea da relação entre o terror e a modernidade? Neste livro, a filósofa Donatella Di Cesare adotando uma abordagem histórica argumenta que o terror não é um fenômeno novo, mas sim parte fundante da modernidade. Em seu nível mais básico, o terrorismo é sobre a luta pelo poder e pela soberania. A crescente concentração de poder nas mãos do Estado, elemento constitutivo das sociedades modernas, prepara o terreno para o terrorismo, que é utilizado como arma por aqueles que são expostos à violência do Estado e sentem que não possuem outra alternativa. Sob o pano de fundo de um conflito entre esquerda e jihad se ergue o terror do capitalismo global, emerge aquela insônia policialesca que sustenta a nova fobocracia.

O sexto volume dos Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov

A luva, ou KR-2 é o sexto e último volume dos Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov (1907-1982), obra em que o escritor russo dá testemunho dos 17 anos que passou como prisioneiro nos campos de trabalhos stalinistas e que constitui um verdadeiro monumento contra a barbárie e pela vida. Os 21 textos aqui reunidos trazem, além da denúncia dos horrores do gulag, também um pouco de leveza e esperança, já que cobrem os últimos anos de sua pena e a transição para a liberdade, como no belíssimo conto “Viagem a Ola”. Completam o volume um texto ficcional sobre a morte de Chalámov escrito por Gustaw Herling (autor de uma das mais importantes obras da literatura do gulag, Um mundo à parte), e dois poemas do próprio Chalámov traduzidos diretamente do russo. A tradução de Nivaldo dos Santos e Francisco de Araújo sai pela Editora 34.

Terça-feira, 21 de maio

Chico Buarque vence o Prêmio Camões, o principal da literatura em língua portuguesa.

É um autor de obra vasta e diversa que inclui, além da canção, criações no teatro e na prosa. Nos últimos anos, desde a publicação de Estorvo, em 1991, Chico Buarque tem se destacado no romance. Além deste título, publicou O irmão alemão, Leite derramado, Budapeste Benjamim. O multiartista é agora o 13º vencedor do Brasil no prêmio. O mais recente tinha sido Raduan Nassar, autor de Lavoura arcaica e de Um copo de cólera, reconhecido em 2016.

Quarta-feira, 22 de maio

A edição especial de Água viva, de Clarice Lispector.

O trabalho dá continuidade ao projeto de edições especiais reproduzindo os manuscritos e datiloscritos originais de Clarice Lispector, iniciado com A hora da estrela e que será continuado com Um sopro de vida. Obedecendo ao conceito geral da coleção, este volume reúne importantes textos de referência, assim como a carta do filósofo José Américo Pessanha que teve influência decisiva na transformação de Objeto gritante em Água viva, obra que é ao mesmo tempo a mais autobiográfica e a mais misteriosa da bibliografia clariceana. Igualmente importantes são os ensaios de Alexandrino Severino, Sônia Roncador, Ana Claudia Abrantes e Teresa Montero, que lançam luz sobre diferentes aspectos de Água viva, o único livro que, reconhecidamente, Clarice Lispector hesitou em editar em virtude de seu caráter revelador, experimental e "antiliterário".

Quinta-feira, 23 de maio

Reedição de Duas damas bem-comportadas, de Jane Bowles.

Tennessee Williams dizia que este era seu "livro favorito. Não consigo pensar em outro romance moderno com mais chance de se tornar um clássico." Frieda Copperfield e Christina Goering são amigas de longa data. Mulheres respeitáveis por fora, mas frustradas por dentro. Cada qual toma um caminho não convencional para aplacar essa situação: Frieda, em uma viagem ao Panamá, abandona o marido e se envolve com uma jovem prostituta; já Christina, uma mulher solteira, se entrega a aventuras carnais com os homens mais vis. Tudo pela libertação e pela felicidade. Com diálogos vivazes e irreverentes, este livro – seu único romance – se tornou cult entre intelectuais e escritores, e sua verdade ressoa até hoje. Como afirmava Truman Capote no texto de apresentação reproduzido nesta edição: à obra de Jane Bowles faltava quantidade, não qualidade. A tradução de Lya Luft sai pela L&PM Editores.

Eis o segundo volume da edição da obra poética de António Ramos Rosa no Brasil.

"Com este Volante verde, o leitor brasileiro tem em mãos um dos mais importantes títulos de António Ramos Rosa, premiado poeta responsável pelos Cadernos do Meio-Dia e pela revista Árvore. Estruturado pela exatidão de seus 100 poemas de 15 ou 20 versos, este livro revela um desejo de unidade formal em sua concepção, sendo, portanto, fundamental seu entendimento como conjunto, fruto de uma mesma janela da extensa experiência poética de Ramos Rosa. [...] neste Volante verde somos apartados das problemáticas do mundo maquinal moderno para adentrarmos em uma harmônica melodia nascida da conciliação do autor consigo mesmo e com este poético mundo erigido a partir de uma experiência de regozijo." (Texto da orelha de Volante verde por Roberto Bezerra de Menezes que sai pela Editora Moinhos).

Sexta-feira, 24 de maio

Porvir. Romance francês crítico da sociedade heterossexual ganhará edição no Brasil.

Sai pela Editora Ubu As guerrilheiras, de Monique Wittig. Publicado no fim dos anos sessenta, o livro traz guerrilheiras que criam uma comunidade baseada em formas diferentes de relacionamentos. Monique Wittig, foi uma escritora e poeta francesa, deu aulas de Estudos de Gênero na Universidade do Arizona, Estados Unidos. Wittig é considerada uma precursora da Teoria Queer.

DICAS DE LEITURA

Ficamos felizes com a atribuição do Prêmio Camões, o mais importante galardão das literaturas de língua portuguesa, a Chico Buarque. Conhecido mais pelo seu trabalho com a canção, vasto e principal território de seu universo criativo, Chico é um múltiplo. Sua vivência com outras formas literárias não é mero exercício de passagem: teatro, conto e, mais recentemente, romance. Nas recomendações de leitura desta edição do Boletim Letras 360º achamos interessante sublinhar algumas de todas as faces do grande mestre.

1. Calabar, o elogio da traição. Apesar de Bárbara Heliodora descrever que a obra dramatúrgica de Chico Buarque é irrelevante porque conhecida mais pela recriação e pela montagem do espetáculo, ou ainda pelas canções ou pela escrita em parceria, suspeitamos que o contato com este universo é fundamental por razões diversas: conhecer o escritor em formação, a estreita relação da sua obra com o universo criativo da literatura universal e o contexto histórico de seu tempo e, o principal, os textos têm, passadas tantas décadas, integral relevância para uma compreensão sobre nós. Porque indicamos outra vez uma peça que é ponto alto da dramaturgia buarqueana – Gota d’água – recomendamos um trabalho perfeitamente ajustável entre os melhores do gênero. Escrita em 1973 em parceria com Ruy Guerra, a peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa, aquando da Insurreição Pernambucana. Este foi um dos vários textos censurados pela ditadura militar brasileira. A edição mais recente da peça é da Civilização Brasileira.

2. Fazenda modelo. Esta é a única novela até agora escrita por Chico Buarque. Data de um ano depois da escrita de Calabar. À maneira de A revolução dos bichos, de George Orwell, este texto prefigura uma alegoria do Brasil regido pela ditadura militar. A narrativa se vale de uma extrema força irônica e se vale de diversas figuras animalescas para uma leitura dos tipos e situações do país de então. A edição mais recente da novela é da Civilização Brasileira.

3. Budapeste. José Saramago disse sobre este romance, considerado o mais importante dentre os cinco já publicados pelo multiartista desde 1991 até agora: "Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro." Ao concluir a autobiografia romanceada O ginógrafo, a pedido de um bizarro executivo alemão que fez carreira no Rio de Janeiro, José Costa, um ghost-writer de talento fora do comum, se vê diante de um impasse criativo e existencial. Escriba exímio, "gênio", nas palavras do sócio, que o explora na “agência cultural" que dividem em Copacabana, Costa, meio sem querer, de mera escrita sob encomenda passa a praticar "alta literatura". Também meio sem querer, vai parar em Budapeste, onde buscará a redenção no idioma húngaro, "segundo as más línguas, a única língua que o diabo respeita". Narrado em primeira pessoa, combinando alta densidade narrativa com um senso de humor muito particular, Budapeste é a história de um homem exaurido por seu próprio talento, que se vê emparedado entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas e uma série de outros pares simétricos que conferem ao texto o caráter de espelhamento que permeia todo o romance. A edição de Budapeste é da Companhia das Letras.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

Em nossa galeria de vídeos no Facebook, três excertos com leituras de poesia realizadas por Chico Buarque: "Soneto de separação", de Vinicius de Moraes; "Dobrada à moda do Porto", de Álvaro de Campos; "Inocentes do Leblon", de Carlos Drummond de Andrade; e "O profissional da memória", de João Cabral de Melo Neto. Basta ir aqui e buscar por Chico Buarque.

BAÚ DE LETRAS

Em 2014, o Letras in.verso e re.verso dedicou uma semana de leituras sobre o vasto universo criativo de Chico Buarque. Na ocasião, celebrávamos seus 70 anos. Agora, por ocasião da atribuição do Prêmio Camões ao multiartista brasileiro, recordamos aqui o boletim com as sinopse e os links para acesso às matérias então publicadas.

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