A utopia burocrática de Máximo Modesto, de Dionisio Jacob
Por Henrique Ruy S. Santos
No apagar das luzes do ano de 2018, mais precisamente no dia 27 de dezembro, foi aprovada a 3ª edição do Manual de Redação da Presidência da República, documento redigido com o fim de normatizar e orientar a elaboração de documentos oficiais no serviço público. Entre as principais inovações trazidas pela nova versão, estava a adoção irrestrita do chamado padrão ofício — já introduzido de maneira incipiente na edição anterior — e a consequente extinção do memorando. É preciso recorrer, portanto, à segunda edição do Manual para encontrar uma definição precisa do gênero textual memorando:
“O memorando oficial é uma modalidade de comunicação entre unidades administrativas de um mesmo órgão, que estão hierarquicamente em mesmo nível ou em níveis diferentes. Logo, trata-se de uma forma de comunicação interna. Pode ser utilizado em uma série de situações para tratar de assuntos administrativos, exposição de projetos, ideias, diretrizes e inovações de serviço, entre outras” (2ª edição do Manual de Redação Oficial da Presidência, 2002, p. 18).
É por meio de memorandos, ou seja, uma forma de comunicação em teoria interna e formal, que se elabora a narrativa de A utopia burocrática de Máximo Modesto, livro de Dionisio Jacob lançado em 2001 pela Companhia das Letras. Todos os documentos que compõem o livro são memorandos enviados por um Máximo Modesto, recém-empossado no cargo de Gerente de Assuntos Relacionados no departamento de Serviços Interinos de um fórum judicial, ao seu chefe imediato.
O problema é que Máximo Modesto não faz a mínima ideia do que faz um gerente de Assuntos Relacionados, muito menos do que se trata o tal departamento de Assuntos Interinos, e demonstra seu embaraço já no primeiro memorando enviado:
“MEMORANDO 000949
Caro Senhor,
Venho por meio deste informar que eu, Máximo Modesto, fui empossado no cargo de Gerente de Assuntos Relacionados, nesta repartição, com publicação no Diário Oficial de segunda-feira. [...] Como estou há três dias aqui e ainda não recebi nenhuma posição da parte de Vossa Senhoria, gostaria de saber o que exatamente faz um Gerente de Assuntos Relacionados para que, uma vez inteirado, possa fazê-lo com maior presteza. Obrigado.” (Jacob, 2001, p. 7)
Após mais algumas tentativas sem resposta, Máximo Modesto nota que os memorandos que envia a seu superior são designados por uma numeração que começou em 000949, o que o leva a deduzir que muitos outros documentos do tipo já foram expedidos por seus antecessores, sem que haja, porém, qualquer registro dessas comunicações. O personagem passa a questionar seu superior se, por acaso, algum desses gerentes anteriores não teria cometido algum desagravo ou incorrido em alguma espécie de má conduta que justifique o silêncio agora dispensado pelo superior. “Desabafe! Guardar ressentimento pode fazer mal à saúde” (p. 13), diz Modesto no Memorando nº 000956. É já desolado que arremata o documento: “Por favor, responda qualquer coisa” (p. 13).
Esses são só alguns dos primeiros documentos de uma série de comunicações enviadas pelo recém-empossado gerente ao seu superior hierárquico, que jamais lhe responde. Em poucas páginas, o romance logra criar uma atmosfera de palpável exasperação, promovida pelo isolamento físico e comunicativo em que o protagonista se encontra. Além da falta de respostas da parte do chefe, os únicos outros funcionários com quem Modesto convive, a secretária Janice e o porteiro Éliton, de apelido Cabeça, tampouco sabem lhe explicar quais são, afinal, as funções exercidas pela repartição.
Confusão e desespero, elevados pelo absurdo da situação, dão ao livro aquela tonalidade kafkiana de certa forma já prenunciada pelo próprio título, mas com uma dose de humor que remonta às crônicas de Luís Fernando Veríssimo. Essa inclinação ao jocoso conduz o absurdo dos episódios muito mais ao terreno da crítica social apimentada do que à retratação de um estado de mal-estar civilizacional crônico, de modo que Máximo Modesto não chega a ser nenhum Josef K. à brasileira.
O protagonista do romance de Dionisio Jacob, em face da total anomia do serviço público, tenta a qualquer custo atribuir significado ao que faz. Num mundo onde não há regras bem definidas nem mesmo supervisão aparente, resta-lhe caminhar por conta própria pelas veredas da indecisão e criar, por si próprio, as funções do cargo de gerente de Assuntos Relacionados, assim como o sentido do Departamento de Assuntos Interinos.
Na tentativa de colocar o departamento para funcionar (seja lá o que isso significa), a primeira descoberta de Máximo Modesto¹ é a de que existem mais três funcionários lotados no departamento de Serviços Interinos e que simplesmente não dão as caras no serviço. O protagonista parte, então, em uma busca por Cícero, o office boy da repartição; Xavier Ibañez, conhecido como o Gringo e responsável pela manutenção estrutural do departamento; e Ebenezer, vulgo Bigode, o adjuntor da Serviços Interinos, cargo cuja designação se junta ao rol de enigmas que Máximo Modesto tem de encarar.
À medida que assistimos à gradual dissolução das forças de resistência do protagonista, observar a sua inconsciente assimilação dos valores invertidos da esfinge burocrática (a ociosidade despreocupada, o nepotismo, a apropriação privada do patrimônio público etc.) é das coisas mais divertidas que o livro proporciona ao leitor. Não é exatamente pela sutileza da análise social que o romance fisga, afinal o leitor um pouco mais experiente já percebe de cara o encaminhamento que será dado à crítica, mas não é isso que importa. Interessa e entretém muito mais o bom humor com que Jacob conduz a narrativa e o modo como o faz sem receio de colocar os dois pés no absurdo.
A possibilidade de que essa inclinação ao absurdo ocorra sem que o livro recaia exageradamente em um humor escrachado — e que talvez esvaziasse a crítica — só se dá pelas escolhas formais certeiras do autor. Tome-se como exemplo o gênero textual emprestado para a condução da narrativa, o memorando. Talvez não haja mesmo forma pronta mais adequada para a expressão da insânia burocrática que acomete qualquer um que tenha a experiência de transitar por certos ambientes do serviço público, seja como usuário, seja como funcionário. Trata-se da expressão de uma necessidade implacável de formalização que alcança as vias do ridículo quando passa a codificar em seu jargão específico até mesmo a mais banal e corriqueira das interações. O memorando é, portanto, essa forma ambígua que tem a capacidade de, tomada por si só, introduzir o caráter insólito da obra, ao mesmo tempo que a mantém firmada em uma realidade de características rígidas, na medida em que expressa a reificação das relações.
O livro chegou a ser agraciado com o Jabuti de 2002 na categoria romance, mas não costuma ser tão lembrado por aí. Entretanto, escolhas formais apuradas e uma ironia divertidíssima fazem da obra uma leitura provocante e que certamente merece a atenção de mais leitores.
Notas:
1 Não deixo de notar como a repetição do nome do protagonista do livro de Jacob remete à estranheza e ao sentimento de despropósito do nome de Tertuliano Máximo Afonso de O homem duplicado, de José Saramago. Os livros foram publicados com apenas um ano de diferença entre si.
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A utopia burocrática de Máximo Modesto
Dionisio Jacob
Dionisio Jacob
Companhia das Letras, 2001
176p.

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