Tudo em excesso é ridículo, o politicamente correto também

Por Pedro Fernandes


Nunca lembro quando foi a primeira vez que me irritei pela tendência mundial do politicamente correto. Mas, vou recuperar uma história que os que me conhecem já terão escutado eu falar a respeito: certa vez, não faz muito tempo, eu tomava meu banho ou fazia alguma coisa no computador, não sei precisar ao certo, ouvi de um grupo de três crianças que brincavam na piscina da casa vizinha onde moro a já conhecida musiquinha do “Atirei o pau no gato”. Uma delas cantou pela letra original – “Atirei o pau no ga-t-o-to/ mas o ga-t-o-to não morreu-reu-reu/ dona Chica-ca admirou-se-se/ do berrô do berrô que o gato deu: - Miau!” Logo em seguida, um dos meninos intervém dizendo que aquela forma de cantar era errada e foi a vez dele fazer a versão adaptada da canção na qual o pobre do animal é privado da surra da dona Chica. Eu fiquei com esse momento na cabeça enquanto pensava comigo mesmo que sempre cantei quando criança a canção pela forma original e nutro desde sempre um carinho inestimável pelos bichanos; também, se a modéstia me permite, desconheço de quando eu tenha usado de violência para com alguma pessoa.

Esse episódio se deu, agora me lembro melhor, muito próximo de uma discussão que assisti num desses congressos acadêmicos sobre a então polêmica desencadeada em torno do Monteiro Lobato a partir de uma passagem de As caçadas de Pedrinho acusada de racista. Esse debate me pareceu um tanto absurdo, ainda mais sabendo do lugar ele partiu e até onde chegou – a denúncia feita por um professor, até onde sei, foi parar no Supremo Tribunal Federal. A solução apresentada, antes disso, era proceder uma revisão integral na obra do Monteiro Lobato e introduzir notas explicativas em relação a essa e outras passagens duvidosas. Depois, porque Ministério da Educação não acatou o trololó, a coisa foi para na instância maior.

Mas, o assunto não morre aqui, volta e meia ele me aparece como se um fantasma que estivesse o tempo inteiro querendo zombar de minha paciência. E, se agora me meto a entrar nesse bê-a-bá é porque, na minha estranha consciência, a coisa foi longe o suficiente para me incomodar. O caso do Monteiro Lobato seria já muito. Mas, quem disse que é só isso? Custo ligar a TV e dia desses quando o faço dou com um programa na emissora do Senado em que a pauta de discussão era, adivinhem, o tal politicamente correto – agora, numa outra versão, sobre o humor. Mas, a certa altura, a coisa deu uma entrada na Literatura. A contragosto ouvi uma professora metida a poeta afirmar categoricamente que o Monteiro Lobato estava ultrapassado e que num leque de produções literárias contemporâneas (que, pela mostragem que ela deu, Deus nos livre de ser a dela), havia coisas mais interessantes de se tratar em sala de aula.  

Antes disso, na passagem do Dia Nacional do Livro Infantil, foi redigido pela equipe da página deste blog no Facebook, um banner com os dizeres do próprio Monteiro Lobato – “Um país se faz com homens e livros” – o que, caindo noutra página, conseguiu arrebatar, dentre a leva de comentários, um que dizia: “Nossa, mas que citação mais machista!” E, para findar nos exemplos, leio dia desses que nos Estados Unidos o já tantas vezes lido pelos alunos do secundário Diário de Anne Frank foi acusado de imoral e mães querem a retirada imediata do livro da lista de leituras; na Alemanha, a reedição de um clássico da literatura infantil, A pequena bruxa, de Otfried Preussler, escrito em 1957, depois de causar um celeuma pelos termos “negrinhos”, “índios”, “turcos” e “chineses” terá uma reedição “correta”, para não dizer censurada que seria o termo mais adequado para a situação, a sair agora em julho. Só um parêntesis a mais: é que no Brasil, este livro do Preussler ainda não sofreu nenhum ataque do gênero. Talvez porque não caiu ainda em mãos erradas ou em mãos de quem tem mais interesse em polemizar as situações para aparecer que de fato guarda profundo interesse pela literatura.

Ao meu ver, todas as ações aqui descritas, com exceção do caso dos dois meninos e do comentário à frase de Monteiro Lobato que deixarei para falar mais no fim do texto, são desastrosas. E num país que vez ou outra tem uma mídia que insiste em ressuscitar o espírito da censura – digo insiste, porque em ocasiões como a que vivemos nunca se houve tanta abertura para se dizer o que se quer dizer – tais situações se constituem em pleno ato de atentado ao direito de voz e a impetração do silenciamento. Tenho essa discussão como falida e produto – primeiro de um tipo de sociedade cuja nascente está na antiga burguesia que sempre teve na hipocrisia seu maior afeto e forjou uma geração convalescente e incapaz de distinguir seu lugar e o lugar do outro no mundo e segundo, a mesma geração, incapaz de uma leitura polivalente da história e do que se passa ao redor de si. 

Fomos acostumados – e temos insistido, não sei o que é pior – a não estarmos preparados para que se diga um a fora do lugar e sob o risco do fogo cruzado da reação de reprovação e rejeição; e nos casos mais gritantes a coisa beira à violência. Ou você acha que o garotinho da zona sul quando mata, com o mesmo nível ou mais crueldade até que os bandidos comuns, são eles produtos de uma deturpação genética? São produtos dessa mesma sociedade que não soube dizer o que deve ser dito e prefere esconder ou escamotear o problema, tal como acontece nos casos principais em que o politicamente correto se manifesta. Falta-nos o limite adequado para coisas porque tiramos ele de onde deve está para colocar onde não deve. No texto literário, por exemplo, é natural que se questione determinados termos, determinadas ações, isso faz parte do processo de leitura e interpretação de qualquer texto, afinal este é um produto marcado pelas circunstâncias de quando foi publicado e um produto ideológico. Mas, é preciso dizer que todo texto opera numa zona variada de funções sociais. Não podemos querer que um texto de natureza ficcional constitua no modos operandi comportamental. Enquanto expressão seu lugar pode ser, entre outros, o de incomodar e o provocar, nunca do de propiciar que sejamos aquilo que se mostra no texto. Logo, o que está escrito, racismo ou não, deveria intuir discussão, oferecendo-se as múltiplas interpretações possíveis, porque só desse confronto se é possível alcançar uma compreensão mais ou menos assente sobre a questão. Tapear ou negar como tem sido feito e não enfrentar o problema é sim ampliar a profundidade de suas raízes. Agora, é evidente que, tapear e negar é, à primeira vista, o mais cômodo. E como temos a estranha mania de pensar no imediato e temos perdido dia após dia a capacidade de pensar além do imediato, não damos conta do que esse tapear ou negar poderá significará mais tarde.

Pena também é que vamos – cada vez mais – perdendo a capacidade de diálogo e nos preocupando em ouvir apenas o queremos ouvir, sem aceitar, em hipótese alguma a opinião contrária, sem colocar a questão em pauta. E no que tornaremos depois disso? A resposta pertence ao futuro, mas é possível adiantar já pelo comportamento daqueles dois meninos na piscina, cuja repressão o que apenas lhe fez foi introduzir a capacidade de pensar diretamente no assassinato do gato pela dona Chica; não lhe deu a chance de ser inocente como fui e sempre cantei a cantiga original sem nunca atentar para o espírito criminoso da ação. Ou ainda, no caso do comentário insosso à frase do Monteiro Lobato, a incapacidade de pensar que o termo “homem” está ali empregado totalmente destituído de sexismo e que se correlaciona, no seu contexto, com “humanidade”. Veja as duas possibilidades: nos despertam cada vez mais cedo para o domínio sobre a vida do outro que nunca deveríamos ter, mas que é comum descobrirmos quando adultos e vamos condicionando o comportamento e a própria fala num artificialismo arcaico e, no fim de contas, estamos a meu ver, só mais reforçando e menos resolvendo determinados preconceitos, além, é claro, de encolher cada vez a capacidade mental humana já há muito um tanto reduzida.


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