Boletim Letras 360º #678
DO EDITOR
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LANÇAMENTOS
Toda obra de Orides Fontela outra vez disponível para os leitores. Investimento da editora Hedra acompanha o anúncio da organização da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de que a poeta paulista é a homenageada na edição do evento de 2026. Projeto tem fixação dos textos por Ieda Lebensztayin.
1. A poesia breve e densa de Orides Fontela coincide com a sua obra, constituída por apenas cinco livros avessos aos modismos de seu tempo e por isso entre os mais singulares da poesia brasileira do século XX. Quando se mudou de São João da Boa Vista para São Paulo, para cursar Filosofia, a poeta levou consigo um conjunto de poemas que escreveu durante a adolescência e a juventude. O material organizado com a ajuda do crítico literário Davi Arrigucci Jr., seu conterrâneo, resultou no primeiro livro, Transposição, publicado em 1969. Os poemas combinam o pendor filosófico da poeta — de questionar a existência humana e seus limites, ante a face de integridade da natureza, em especial das aves — com sua capacidade de concisamente atingir símbolos de beleza transcendente. Reeditado agora sai com textos do próprio Arrigucci Jr., Nathaly F. F. Alves e Fabio Weintraub. Você pode comprar o livro aqui.
2. Orides Fontela volta a publicar um novo livro em 1973: Helianto. Estranho nome de flor que rima com canto. Entoada com olhos atentos ao movimento do sol, estrela dos cantos ao centro da página e da vida, é a poesia do girassol. Essa flor que acompanha o sentido do astro maior orienta também o olhar dos leitores. A partir desse movimento fundamental da natureza, a poeta aprofunda a experiência ao mesmo tempo telúrica e elevada que já explorara na obra de estreia. O livro já fora parte de uma primeira tentativa da Hedra de publicar, depois da poesia completa, a obra individual da poeta e sai agora com textos de Alcides Villaça e Marília Garcia. Você pode comprar o livro aqui.
3. O terceiro livro de Orides Fontela levou uma década para ser publicado. Alba saiu em 1983, e foi, no ano seguinte, vencedor do Prêmio Jabuti. Nos poemas aqui reunidos a poeta instaura poeticamente um sentido de vitalidade e de urgência, como o olhar da criança, capaz de configurar a cada passo um mundo diverso do nosso cotidiano. Nessa altura, a poeta já estabelecera seu lugar no gosto da crítica, com aprovações de figuras como Antonio Candido, para quem “Orides trabalha na base de uma parcimoniosa opulência ou, de maneira mais simples, que produz muito significado com pouca palavra. O seu repertório é limitado e parte dele corresponde ao de certa poesia que experimenta com a pureza. Por este lado não é nova, pois encontramos nela toda a panóplia dos espelhos, da água, do branco, do cisne, da estrela. O que há de novo é a maneira de usá-la e organizá-la, dando aos seus elementos uma surpreendente originalidade.” A nova edição agora publicada traz o texto de Antonio Candido do excerto antes referido e textos de Viviana Bosi e Edimilson de Almeida Pereira. Você pode comprar o livro aqui.
4. “A primeira impressão que nos assalta é a de um misto de júbilo e de espanto. Júbilo, porque não é sempre (ou melhor, é muito raro) que uma autora nos concede a dádiva do milagre da poesia; espanto, porque mais raro ainda quase não se chega a entender como pôde Orides extrair tanto de tão pouco, como pôde dizer tudo o que nos diz a partir de estruturas e recursos formais tão sucintos e singelos. Mas o segredo dessa altíssima poesia reside justamente aí, nessa linguagem de essencialidades, nesse discurso cuja limpidez dói até no próprio espírito, nessa dicção exata e cristalina na qual o quê e o como da expressão poética convivem num diálogo de harmonia e organicidade absolutas. Não há em Rosácea, como tampouco em Alba, um único poema de que se possa dizer seja sequer mediano. É tudo de extraordinária altura e dignidade literárias. E isso alegra. E desconcerta.”, escreveu Ivan Junqueira n’O Estado de S. Paulo, em 20 de julho de 1986 à volta de Rosácea, o quarto livro de Orides Fontela, então publicado. Na edição de agora, o livro inclui textos de Augusto Massi, Patrícia Lavelle e Verônica Stigger. Você pode comprar o livro aqui.
5. Teia foi outro livro que levou uma década para ser publicado. Saiu em 1996 e foi vencedor do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA); é também o último livro de Orides Fontela publicado em vida. Se nos livros anteriores a poeta buscava a transcendência e a pureza do “pássaro”, aqui ela desce ao rés do chão para encarar o “antipássaro”: a matéria impura, o sangue e a aspereza do real. A metáfora central desloca-se do voo para a tecelagem. A aranha — figura do trabalho paciente, agressivo e silencioso — torna-se o emblema de uma escrita que não espera pela inspiração, mas arma ciladas para capturar o sentido. Com uma dicção enxuta, que tangencia o silêncio sem jamais perder a clareza, Orides urde poemas sobre a finitude, a memória e a dor de existir. Na nova edição, os textos de Marilena Chaui e de Ivan Marques. Você pode comprar o livro aqui.
Além da obra completa de Orides Fontela, a casa reedita a biografia da poeta escrita por Gustavo de Castro, O enigma Orides, que fora publicada em dezembro de 2015. Você pode comprar o livro aqui.
Uma das autoras centrais da literatura italiana do século XX, Alba de Céspedes acompanha o percurso de uma mulher que escolhe a independência em um mundo ainda regido por normas tradicionais, explorando os impactos emocionais, afetivos e existenciais dessa escolha.
Na Itália do pós-guerra, Irene construiu uma vida independente, marcada pelo trabalho, pela amizade e por relações amorosas fora das convenções tradicionais. Sua rotina, aparentemente estável, encontra equilíbrio na convivência com Erminia, a jovem que cuida de sua casa. Quando Erminia decide partir inesperadamente, para voltar a trabalhar com sua antiga patroa, Irene se vê diante de uma ruptura que transforma sua percepção de si mesma, do amor e da liberdade. A partir desse acontecimento, ela é levada a questionar a vida que construiu, redefinindo a própria ideia de autonomia. Antes e depois sai pela editora Bazar do Tempo; tradução de Francesca Cricelli e prefácio de Nadia Terranova. Você pode comprar o livro aqui.
Um dos romances marcantes de Joseph Roth.
Na cidadezinha russa de Iukhnov, no começo do século passado, vivia Mendel Singer, um judeu piedoso e temente a Deus. Professor dedicado, ensinava às crianças os preceitos da Bíblia e levava uma vida tranquila com a esposa e os três filhos. Tudo parecia seguir o curso calmo da fé e da rotina até o nascimento de seu quarto filho ― fraco, doente e destinado a marcar o início de uma longa sequência de tormentos. Para Mendel, aquele sofrimento representará um castigo enviado pelo próprio Deus, o Mesmo a quem sempre servira com devoção. Mas a guerra também se aproxima, trazendo novos infortúnios à família e pondo à prova a fé de um homem que havia acreditado na justiça divina. Jó: romance de um homem simples sai pela Sétimo Selo. Você pode comprar o livro aqui.
A antologia que apresenta a obra de Silvia Bre ao leitor brasileiro organizada e traduzida por Patricia Peterle.
São corpos deitados debaixo do mais antigo pé de oliveira os que Silvia Bre nomeia, como se fosse a primeira do mundo. Corpos imersos na natureza do verão que pouco a pouco, lentamente, recolhe da terra o próprio destino e recolhe a si mesma sob o próprio destino de acabar. Do mesmo modo, a poeta reúne, um por um, em sua obra, os mais significativos exemplares da nitidez necessária à palavra para traduzir os mundos, visíveis e invisíveis, que habitam aqueles que a pronunciam. Mas todos, não somente quem escreve, mas qualquer um que esteja vivo, porque o que Bre escreve para lembrar os soterrados na mina chilena de San José de Copiapó parece valer para todos os habitantes da vida “é como se o que dizemos / fosse o que roga para ser dito / para ficar ao redor / como uma estação”. Usar a palavra é, então, também satisfazer uma necessidade do mundo fora de nós e, talvez, fora do mundo ao qual estamos acostumados e que chamamos de mundo e nos conforta. Voz, canto e palavra são também um peso que impede a ideia, que por sorte e intuito interceptamos, de voar em sua substancial transparência. Porque precisamos de códigos e traduções para nos entendermos ¾ códigos que, de qualquer forma, são sempre insuficientes para traduzir tudo o que resta “algemado na garganta”, e Bre condensa na palavra “céu”. A bela seleção reunida em Existem coisas escondidas na terra move-se entre a leveza e o peso, entre a materialidade da abstração e a abstração da matéria. É um equilíbrio frágil, encantado, um ousar muito bonito, que pede confiança para quem lê, para continuarmos juntos lá onde o mundo não é mais mesmo mundo e, por isso, o é mais, porque está inteiro, finalmente, enquanto durar a companhia humana. (Maria Grazia Calandrone). Publicação das Edições Jabuticaba. Você pode comprar o livro aqui.
O romance de estreia da escritora cearense Cami di Malta.
O romance de estreia da escritora cearense Cami di Malta.
“Sou órfã há mais anos do que fui filha. Meu luto tirando carteira de motorista, votando e comprando bebida”, conta Lilá, narradora deste romance. Entre os silêncios da funerária onde trabalha maquiando mortos e da casa agora vazia, ela atravessa os dias às voltas com o peso da família e a ausência da mãe. Narrado por uma voz única, de humor afiado, Cor de defunto faz do cotidiano um espaço de invenção. Aqui, vida e morte se iluminam em aproximações inesperadas, entre o riso e o espanto, no compasso de quem segue adiante. O livro é publicado pela Autêntica Contemporânea.Você pode comprar o livro aqui.
Uma leitura da menopausa longe dos clichês em relatos breves e espontâneos.
Em Diário de uma mudança, a escritora e tradutora argentina Inés Garland faz de sua prosa ágil, inteligente e sutil uma ferramenta poderosa de autoanálise em reflexões sobre sua relação com o luto, a solidão, o feminismo e as inevitáveis transformações do climatério — no qual, muitas vezes, a mulher passa a não reconhecer o próprio corpo. A autora propõe, com sensibilidade, humor e um pouco de ficção, uma leitura da menopausa longe dos clichês. Em relatos breves e espontâneos, que tratam de preconceitos, pudores, silêncios e cegueiras históricas, Garland busca o sentido necessário para atravessar esse desafio, desconstruindo sua antiga identidade e propondo a si mesma, e a todas as mulheres, uma vida nova, inesperada e possivelmente feliz. Com tradução de Silvia Massimini Felix, o livro sai pela editora Instante. Você pode comprar o livro aqui.
Um livro essencial na obra de Emmanuel Carrère. Uma investigação de um crime brutal, à altura obras como A sangue frio, de Truman Capote.
Emmanuel Carrère acompanha a desconcertante vida dupla de um pai de família que mata todos ao seu redor para escapar de uma rede de mentiras. É uma obra que reafirma o autor como um dos intérpretes mais contundentes da condição humana. Em 9 de janeiro de 1993, Jean-Claude Romand matou a esposa, os dois filhos, os pais, o cachorro — e tentou fazer o mesmo com uma ex-amante. Por fim, encenou um incêndio na casa onde morava, planejando, sem sucesso, tirar também a própria vida. As investigações sobre essa tragédia, contudo, acabaram revelando muito mais: Romand não era quem dizia ser, um médico renomado que trabalhava para a Organização Mundial da Saúde. Por quase duas décadas, sustentou uma imensa mentira e, perto de ser descoberto, deu fim àqueles cujo olhar não suportaria. Impactado por essa história brutal, Emmanuel Carrère começou a corresponder-se com Romand antes, durante e depois de seu julgamento, na tentativa de entender suas motivações e como chegou a um ato tão extremo. O resultado é um livro inquietante e inesquecível, que se tornou um destaque da literatura contemporânea. O adversário sai pela Alfaguara; tradução de Mariana Delfini. Você pode comprar o livro aqui.
Uma obra irreverente que mescla o humor, a sátira e a crítica social, revelando uma história repleta de obsessões, estranhezas e questionamentos sobre a violência, o trauma e suas consequências.
Suíça foi apelido que Greta deu para ela. Greta pode vê-la agora: alta, loira, vestida toda de branco, os olhos azuis penetrantes. Bem, pelo menos é assim que a imagina; na verdade, elas nunca se viram pessoalmente. Não estão no mesmo cômodo, muito menos no mesmo prédio. Greta está a quilômetros de distância, sentada na mesa de casa, transcrevendo as sessões de terapia dessa mulher misteriosa. O que não sabe é que está prestes a esbarrar na Suíça no parque da cidade e que esse encontro dará início a um novo relacionamento ― um construído à base de mentiras e que irá transformar a vida das duas para sempre, de um jeito ou de outro… Ousado e irresistível, A Suíça, de Jen Beagin é publicado pela HarperCollins Brasil com tradução de Isadora Sinay. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
RAPIDINHAS
Ouriço 4. As editoras Macondo e Relicário publicam uma nova edição da revista dedicada a pensar as expressões literárias vigentes, desta vez, movida pelo mote “Respirar o ar sujo de tudo”, colhido de um poema de Sebastião Uchoa Leite.
A paciência da água sobre cada pedra. É o título da antologia de contos que apresenta ao leitor brasileiro uma entrada na obra da escritora argentina Alejandra Kamiya. O livro tem tradução de Rafael Ginane Bezerra e sai pela Arte & Letra.
OBITUÁRIO
Morreu Cees Nooteboom
Cees Nooteboom nasceu no dia 31 de julho de 1933, em Haia, na Holanda. Autor de obra prolífica que o fez um dos mais lidos nas décadas subsequentes à Segunda Guerra Mundial, dentre e fora do seu país, sua carreira na literatura foi iniciada depois de abandonar o primeiro emprego num banco de Hilversum e quando já escrevia matérias de viagens para os jornais holandeses. Foi logo na estreia, em 1957, que se deu o primeiro reconhecimento com o Prêmio Anne Frank. Sua obra circunscrita a mais de meia centena de títulos transita por vários gêneros da prosa — crônica, conto, novela, romance, ensaio, livro de viagens —, além da poesia e do teatro. Da vasta produção, destacam-se, no nosso idioma, Dia de finados, Paraíso perdido, A seguinte história, Rituais e Caminhos para Santiago. Diversas vezes referido nas listas de apostas para o Nobel de Literatura, entre outros prêmios que Nooteboom recebeu estão o Formentor de las Letras, porque “ultrapassou, com incessante criatividade, o limite proposto pelos gêneros literários”, o Prêmio Europeu de Poesia e o Prêmio Nacional das Letras Neerlandesas. O escritor morreu no dia 11 de fevereiro de 2026, em Minorca, na Espanha.
DICAS DE LEITURA
1. O beijo do leproso, de François Mauriac (Trad. Ivone Benedetti, José Olympio, 112p.) Casado aos vinte três anos e logo rejeitado pela mulher, um homem procura encontrar o sentido dessa relação. Dos romances em que o escritor francês problematiza as imposições morais impostas pela ordem social. Você pode comprar o livro aqui.
2. Moscou feliz, de Andrei Platônov (Trad. Letícia Mei, Ubu, 496p.) Uma novela que registra o período em que todo uma geração de proletários acreditava na possibilidade de construir seu futuro com as próprias mãos. Você pode comprar o livro aqui.
3. Espécies de espaços, de Georges Perec (Trad. Daniel Lühmann, Editora 34, 216p.) Com o estilo inventivo, marca reconhecida do escritor francês, aqui, entre o ensaio, o poema e a obra de conceitual Perec aplica um olhar afiado e incomum para as diversas expressões artísticas do seu entorno. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
A Bonhams leiloa um conjunto de 148 objetos ligados a Oscar Wilde fruto da coleção do britânico Jeremy Mason e que mereceu pela mesma casa uma exposição em 2021; Mason é um reconhecido colecionador de memorabília do escritor há pelo menos seis décadas. Estão na vez primeiras edições de obras como Salomé (1893), com dedicatória do escritor em francês, ou o exemplar 6 dos 99 que assinou da Balada do Cárcere Reading (1898), cartas do período em que Wilde esteve preso por “indecência grave”, manuscritos, fotografias — como registro feito pelo famoso fotógrafo nova-iorquino Sarony, em 1882 — e itens pessoais.
O Estado português adquiriu um raro cancioneiro do século XVI. O arquivo que passará às obras depositadas na Torre do Tombo inclui poemas de Camões e textos de Gil Vicente, parte deles em versões inéditas. O cancioneiro reúne ainda composições de António Ferreira, Sá de Miranda, entre outros e é um importante documento da ampla variedade da literatura portuguesa produzida em seu tempo.
BAÚ DE LETRAS
Certamente devido ao anúncio da organização da Flip 2026, o texto “Orides Fontela, revisitações”, que Pedro Fernandes escreveu durante os preparativos da edição da revista 7faces dedicada à obra da poeta, esteve entre os mais acessados da semana. Recordamos o caminho por aqui.
DUAS PALAVRINHAS
As pessoas não podem viver sem sonhos perigosos e inesperados.
— Cees Nooteboom
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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.

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