O último a morrer que apague a luz

Por Toni García Ramón



O mais surpreendente das reações ao fabuloso O conto da aia (Handmaid’s tale em sua versão original) é a majoritária impressão de que nos encontramos ante uma distopia. “Estamos muito próximos”, dizem alguns/algumas, do regime de Gliead, essa ditadura cristã e teocrática, em que as mulheres são tratadas como meros objetos a serviço de um poder supostamente superior. Elas não podem possuir bens, ler ou escrever. Ou pelo menos algumas delas. As mulheres dos altos gerenciadores vivem num mundo distinto, igualmente obscuro mas com um elemento mais permissivo.

E a reação é surpreendente porque Somália, Síria, Arábia Saudita ou Irã já colocaram em prática muitas das políticas que nos parecem meio ficção científica quando vemos a série, mas que não nos provocam nem uma lembrança, ainda que cintilante, no dia a dia do mundo atual. Essa é provavelmente a parte mais terrível do horror que desenha esta série produzida por Hulu a partir do romance de mesmo título da escritora Margaret Atwood: o fato de que existem no mundo milhões de escravas sexuais, algumas reclusas em países com acordos comerciais com o nosso país; outras submetidas a torturas diárias em territórios sem lei na África ou no Oriente Médio.

A República de Gilead existe e respira em rincões que não são remotos, nem distantes (no tempo e no espaço) como gostaríamos de pensar. Sem dúvidas, e seguramente como método de autoproteção ou à maneira de arma que dispara frases de autoajuda, nos refugiamos nas linhas paralelas da ficção e preferimos pensar que esta sorte de coisas não acontece em nosso mundo. Mulheres obrigadas a cobrir o corpo e o rosto com um tipo de túnica e cuja sorte depende unicamente de seguir submissa às ordens de uma figura religiosa? Países sem nenhum tipo de respeito pelos direitos humanos e onde a justiça se exerce através da violência em espaços públicos? Não parece que a narrativa de O conto da aia tenha ido muito longe em suas previsões sobre um futuro negro como o em que um Deus vingativo diz o que se deve obedecer.

O romance foi escrito em 1985. Na época, vivia-se sob o regime de Margaret Thatcher, aquela primeira ministra britânica que transformou – para bem e para mal – o Reino Unido e que depreciava os sindicatos enquanto proclamava seu carinho por Augusto Pinochet. Como em V de Vingança, a magnífica HQ de Alan Moore e David Lloyd, a sociedade criada por Atwood estava regida por uma interpretação marcial da lei (sua lei) e uma singular forma de fanatismo religioso cujo núcleo conceitual era o dinheiro.

A adaptação para a televisão não é só impecável. Supera em muitos aspectos a própria trama literária original graças a um atrevimento formal que se mostra às vezes tão doloroso como a própria epopeia da protagonista: o rosário de primeiros planos da impressionante Elisabeth Moss (que coragem a da atriz, sem medo de voltar à fragilidade através de uma interpretação que beira ao suicida, aberta ante um espectador que sofre o indizível até possuir um mínimo de sensibilidade) é o perfeito retrato da vontade dos criadores de não renunciar o peso específico da crueldade do relato.

Essa crueldade explícita inclui momentos de uma dureza inconteste como essas penas de marionetes ou as “cerimônias” em que as donzelas são violadas com a conivência de outras mulheres e inclusive planos tão abrasivos como dessas escravas vestidas de vermelho sentadas num banco enquanto ao fundo se pode observar os cadáveres de quatro enforcados. Deve ainda custar uma dor de cabeça aos encarregados levar à televisão um livro seco e conciso, mas que é cruel e bárbaro.

O conto da aia é um relato de uma solidez grandiosa quando se interessa em esboçar um universo de cores apagadas onde o medo é o elemento principal de uma sociedade presa em suas próprias amarras. Além disso, o espectador permanece às cegas (exceto por alguns flashbacks) sobre o elemento que engatilha toda a condição em voga, isto é, a situação que conduziu até o ponto onde principia a narrativa. Na obra de Atwood sequer conhecemos o nome da protagonista e na série desconhecemos o que aconteceu com a democracia além do óbvio golpe de Estado que conduziu esta sociedade a um regime absolutista.

As incógnitas gigantescas de uma equação sem resolução contribuem para aguçar no imaginário de quem vê na narrativa uma sorte de terror irracional do mesmo tipo que sofre o leitor de A estrada de Cormac McCarthy a entrar de cheio num apocalipse de raízes invisíveis. O que logo resulta incompreensível multiplica seu efeito ao negarmos a causa da enfermidade. Isso sim, o livro da escritora canadense dedica um parágrafo (um apenas) para nos mantermos na vereda; a série prefere a venda nos olhos até que o silêncio se torne ensurdecedor.

Esse desejo, de ser enigmático, é chave para manter uma tensão quase insuportável. Tanto como a fotografia, despojada de cores vivas, cujas únicas exceções resultam ser – paradoxalmente – os vestidos vermelhos das servas (que fizeram as delícias dos puritanos da Nova Inglaterra do século XVII) e o imaculado branco das salas, ou o design de produção, com essa geografia de casas de pedras cheias de escadas e estâncias atemporais, como se aquilo onde elas habitam vivesse num passado que nunca existiu, um inferno artificial em que não há nada a se fazer para colocá-lo no fim. Sem rádio, televisão, internet ou jornais, e cuja única conexão com o presente é um painel de scrabble que o comandante utiliza como arma de sedução de sua serva.

Poderia se dizer que O conto da aia elege sempre o caminho correto, a melhor opção para chegar ao seu desenlace e pouco lhe importa que esse caminho seja impraticável. Por isso, às vezes,  esta série se parece mais a um filme de terror de corte clássico que a um drama pesado sem nenhum tipo de âncoras, o que deixa o espectador cair livremente. A atmosfera em torno dessa casa (onde vive Offred), em que todos parecem ter uma agenda própria e os escrúpulos extirpados ao nascer, é uma das mansões encantadas, aquelas com forças malévolas que tiram do protagonista até acabar com ele e nas quais não sobrevive ninguém.

O pior (talvez o melhor) é essa sensação de que esse espaço cheio de homens que consideram as mulheres inimigas cuja utilidade se limita às suas capacidades reprodutivas e a mulheres que são piores que esses homens (a tia Lidia, a terrível personagem interpretada pela maravilhosa Ann Dowd ou a complexíssima esposa que é realizada pela espetacular Yvonne Strahovski) e uma tonelada de servos que vivem sob o jugo de uma ditadura feroz com a mesma atitude que a ovelha que deixa o lobo vigilar seu refúgio, é um espaço onde já vivemos. Esse futuro que nos asfixia vendo a série já está aqui e não esconde seu rosto. Talvez não vista vermelho, nem arranque os olhos dos opositores, mas é tão real como demarcado rosto de Moss, uma atriz que conta melhor que ninguém o que significa morrer sem poder fechar os olhos: o retrato mais verdadeiro dessa miragem chamada esperança.

Ligações a esta post:

* Este texto é uma tradução de "El último en morrir que apague la luz", publicado em Jot Down.

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