Boletim Letras 360º #334


Uma semana que separa o fim de um mês e o início de outro. Um breve boletim recheado de dicas de leitura para a semana que começa e as listas que continuam. E, antes de tudo, duas recomendações semiurgentes: em breve, realizamos o sorteio de o nosso reino e Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe (nas novíssimas edições da Biblioteca Azul / Globo Livros) – saiba tudo aqui; nosso bazar continua com livros à procura de leitores – compre um livro e ajude às despesas de hospedagem do blog.

Um Machado de Assis praticamente desconhecido dos leitores contemporâneos volta a circular.

Segunda-feira, 29 de julho

Todo o Machado de Assis cronista da Semana reunido numa primorosa e inédita edição

Entre junho de 1869 e março de 1876 Machado de Assis publicou uma crônica semanal na revista que se declarava humorística chamada Semana Ilustrada, de circulação quase exclusiva, desde 1860, no Rio de Janeiro, então denominada a corte. De um total de cerca de 300 crônicas, com mais de 1.500 páginas, apenas uma pequena porção delas foi republicada. Um pouco, bem pouco, nas obras (ditas) completas de Machado de Assis, no final da década de 1930 pela Editora Jackson e outras poucas por Raimundo Magalhães Jr. nos anos 1950/60. O resto dormia no esquecimento quase completo nas velhas páginas da antiga revista, na Biblioteca Nacional, felizmente preservadas. A professora e pesquisadora Sílvia Maria Azevedo, da Unesp de Assis (SP), em longa e cuidadosa pesquisa, trouxe tudo à luz do dia, dando-lhes vida nova e ativa, uma verdadeira contribuição civilizatória para o Brasil atual. É esse material, em primorosa edição, com ortografia atualizada mas inteiramente fiel ao original que a Nankin Editorial põe agora ao alcance do público. Isso também dá continuidade ao trabalho de outros pesquisadores publicado por diferentes editoras e de diferentes crônicas machadianas. Tudo somado é um precioso acervo ainda mais enriquecido de nosso escritor maior.

A Coleção Listrada, editada pela Companhia das Letras, ganha mais um título de peso com o melhor da obra ensaística de Silviano Santiago reunido em um só volume.

A produção crítica de Silviano Santiago se espraia por uma miríade de artigos jornalísticos e entrevistas, publicados ao longo de mais de seis décadas de uma carreira intelectual diversificada e múltipla, e estende-se ainda aos livros que são um só ensaio. Todos ocupam lugar próprio como referência no panorama de nossa crítica moderna. Os textos reunidos por Italo Moriconi em 35 ensaios de Silviano Santiago foram escolhidos do corpus principal de sua obra ensaística. Vários deles estavam em livros já fora de circulação, embora procurados e lidos por sucessivas gerações, não só de estudantes e professores de literatura mas também de estudiosos ligados a outras áreas. A presente antologia inclui ainda ensaios recentes que se achavam esparsos em revistas e catálogos. Tendo exercido o papel de um autêntico “fundador de escola” na área de letras, Silviano Santiago vê agora o interesse por sua obra crescer nos campos da história, das ciências sociais, da educação, assim como em relações internacionais e formação de diplomatas. Tomada no seu conjunto, essa obra integra-se à tradição e aos cânones da “brasiliana” ― a biblioteca dos grandes textos de interpretação do Brasil, bibliografia básica de leituras formativas sobre assuntos brasileiros. Sua obra ensaística dialoga com uma família de que fazem parte nomes como Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Raymundo Faoro, entre tantos outros.

Terça-feira, 30 de julho

Obra de escritora italiana inédita no Brasil começa a ser publicada até o final do ano

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi uma das mais importantes vozes da literatura italiana do Novecento; filha de família socialista, foi educada num ambiente intelectual refinado. Sua obra transita entre a poesia e a prosa; deixará de ser uma desconhecida por aqui graças ao trabalho de editoração de sua obra completa planejada pela Editora Âyiné. Até o final de 2019 está prevista a publicação da poesia completa de Sapienza, em tradução de Valentina Cantori; a continuidade das edições segue com a publicação de L'arte della gioia, romance que trabalhou durante larga vida, terminado em 1976, mas só publicado parcialmente em 1994 depois de ser rejeitado pelas editoras por quase duas décadas.

Quarta-feira, 31 de julho

Todos os esforços para construir um lugar para Jorge Luis Borges em Buenos Aires

Na capital argentina várias placas recordam aos visitantes os lugares onde viveu o escritor: o prédio onde ficava seu apartamento na rua Maipú; a rua Serrano onde viveu e que hoje leva seu nome, no bairro Palermo. Buenos Aires respira, lucra e nomeia ruas e praças com o nome Borges, mas não possui um lugar onde os interessados por sua obra possam passar horas mais próximos de seus labirintos. E quase todo patrimônio simbólico que pertenceu ao escritor só não deixou integralmente seu país natal graças aos esforços de Alberto Manguel que mobilizou então um grupo de argentinos que em tempo recorde juntou dinheiro, interesses e soluções legais para impedir que o que ainda restava não fosse parar em mãos de colecionadores ou de instituições fora da Argentina. O legado que foi doado à Biblioteca Nacional deverá constituir o que se planeja no futuro como Centro Borges, a ser albergado num edifício da rua México, onde funcionou a antiga sede da BN aquando o escritor foi diretor entre 1955 e 1963. Está à frente da ideia o mesmo grupo que salvou o patrimônio de Adolfo Bioy Casares e de Silvina Ocampo. Resta agora que as idas e vindas da política argentina não sepultem o projeto.

Quinta-feira, 01 de agosto

Uma nova edição revista e ampliada dos Caligramas, de Appolinaire

Embora lembrem os primeiros passos da alfabetização, os caligramas de Appolinaire não simbolizam a volta a uma inocência perdida. Em vez disso, sua “escrita-imagem” indica mudanças no olhar, na experiência do tempo-espaço e na geopolítica mundial. Escritos durante a I Guerra Mundial, os poemas aqui reunidos foram traduzidos e comentados por Álvaro Faleiros. O grande mérito do livro é transportar o leitor ao contexto histórico em que o poeta francês viveu e aos bastidores da tradução. A edição é publicada pela Ateliê Editorial e pela Editora UnB.

Sexta-feira, 02 de agosto

Edição de luxo de As crônicas de Nárnia.

Viagens ao fim do mundo, criaturas fantásticas e batalhas épicas entre o bem e o mal. O livro que tem tudo isso é O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, escrito em 1949 por C. S. Lewis. Mas, o escritor não parou por aí. Seis outros livros vieram depois e, juntos, ficaram conhecidos como As crônicas de Nárnia. Cada um dos sete livros é uma obra-prima, atraindo o leitor para um mundo em que a magia encontra a realidade, e o resultado é um mundo ficcional que tem fascinado gerações. A WMF Martins Fontes publica uma nova edição da obra sempre lembrada de Lewis em capa dura e ricamente ilustrada.

DICAS DE LEITURA

Herman Melville tem sido lembrado sempre pelo romance Moby Dick. Não foi o que aconteceu aquando a obra foi publicada, quase integralmente sepultada pela crítica que, só muito mais tarde, começou a estabelecer a aura que ainda a circunda. Mas, o escritor cujo duocentenário é recuperado na edição deste boletim não é autor de uma obra só: escreveu poesia, da qual só encontramos em traduções portuguesas; literatura de viagem como Jaqueta branca ou o mundo em um navio de guerra, editado recentemente pela Carambaia; outros romances e contos como Bartleby que uma vez lida pelos pós-estruturalistas se tornou uma febre entre os editores, pelo menos por aqui. Circulam no mercado pelo menos quatro traduções diferentes. Nas Dicas de leitura da semana começamos por esse livro e por outros que situam Melville além do óbvio.

1. Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street ou Bartleby, o escrevente: uma história de Wall Street ou Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street ou simplesmente Bartleby, o escrivão. O leitor tem, obviamente, a autonomia nas suas escolhas, embora, particularmente nossa escolha seja pela tradução de Irene Hirsch editada num projeto primoroso da extinta Cosac Naify e recuperado pela Ubu Editora. A narrativa dessa novela é contada pelo sócio de um escritório de advocacia de Nova York, que se esforça para desvendar a misteriosa e impenetrável personalidade de Bartleby, um escrivão que se recusa resolutamente a realizar qualquer tarefa, sem apresentar nenhuma justificativa para tal. O fascínio pela postura do funcionário impede o advogado de tomar medidas enérgicas e, quando finalmente decide fazê-lo, é confrontado com a mesma negativa inabalável. Por que Bartebly age como age? Por que sua austera recusa tem tamanha força? Somos, nós, incapazes de lidar com aquilo que não oferece explicações? A cada resposta evasiva de Bartleby abre-se a fresta para a entrada do insólito no cotidiano do escritório de advocacia e até da vizinhança de Wall Street. Repleto de humor e jogos de linguagem e com estilo que não dá ao leitor possibilidade alguma de abandonar o livro. A edição da Ubu reúne posfácio do crítico Modesto Carone e projeto gráfico que faz com que o leitor tenha que descosturar a capa e cortar, uma a uma, as páginas não refiladas do livro para desvendar a novela de Melville. Como afirma a designer Elaine Ramos, a cada página o livro dirá "Acho melhor não", da mesma forma que o escrivão se recusa a atender aos pedidos de seu patrão.

2. Billy Budd. Jonh Updike disse certa vez que, com esse romance, Melville empregou na construção da personagem que dá título ao livro toda sua experiência de juventude como marinheiro. Mas, o escritor que já havia publicado Moby Dick foi além de uma literatura simplista e marcada apenas pelo tom confessional; Billy Budd se constitui numa crônica naval com tintas bíblicas e contornos trágicos que propiciam ao leitor uma reflexão sobre a tensão entre Bem e Mal, Natureza e Civilização. Quer dizer, transforma-se o vivido numa espécie de parábola que, nos dizeres de Bernardo Carvalho, quem escreveu a apresentação da obra na edição da extinta Cosac Naify, “faz o elogio da natureza, que é direta, forte, bela e boa, mas também brutal. Neste romance também toda a ação se passa no mar e mais uma vez o ambiente do navio funciona como uma reprodução do mundo em miniatura. Billy, jovem marinheiro que encanta a todos com sua beleza e simpatia, é injustamente acusado de incitar um motim a bordo. Sem querer, ele precipita uma série de acontecimentos que conduzirão a um final trágico. A partir dessa perspectiva este romance é geralmente visto como uma narrativa sobre a fragilidade da inocência em um mundo corrompido e sobre o poder das palavras. Apesar da tradução de Alexandre Hubner está fora de circulação, o leitor encontra outras traduções disponíveis como a editada pela L&PM Editores. Para os interessados em se aproximar mais da relação mais autobiográfica que Melville imprimiu à sua escrita, podem encontrar Mares do sul.

3. Benito Cereno. No ano de 1799, o capitão estadunidense Amasa Delano está com seu navio caça-focas ancorado na Ilha de Santa Maria, na costa sul do Chile. Certa manhã, aponta no horizonte tomado pela neblina um navio que aparenta estar em dificuldades. Amasa Delano oferece-se para ajudar e vai a bordo da nau à deriva, que descobre ser uma embarcação espanhola que levava grande número de negros escravizados da África ao Peru. Seu capitão, Benito Cereno, que está debilitado e é sempre amparado por seu escravo Babbo, descreve as tempestades e longos períodos de calmaria que se sucederam, as doenças e falta de provisões que haviam dizimado parte da tripulação e passageiros. A sucessão de impressões inexatas que o ambiente do navio depauperado cheio de escravos provoca, assim como as variações de humor de Benito Cereno, deixam Amasa Delano intrigado. A cada momento, entre desconforto e tensão, cresce sua sensação de estranheza. Na atmosfera sombria construída com esmero por Melville, ora o capitão americano se sente ameaçado, ora se sente culpado por desconfiar de seu bom e combalido anfitrião e de tudo que o cerca. Publicado pela primeira vez em 1855, essa novela é uma reconstrução ficcional do episódio que de fato ocorreu em 1805, e que foi descrito nas memórias do capitão americano Amasa. A tradução de Bruno Gambarotto foi apresentada recentemente na encantadora coleção “A arte da novela”, da Grua Livros.

4. Hawthorne e seus musgos. Este ensaio aparece em 17 e 24 de agosto de 1850 no The Literary World, prestigiado periódico da época. Trata-se de um texto sobre The Mosses from an Old Manse [Os musgos de um velho presbitério], livro de contos de Nathaniel Hawthorne. Através de uma análise profunda e apaixonada dessa obra, Melville expõe suas ideias fulgurantes a respeito da literatura, defendendo ardorosamente uma literatura estadunidense autônoma e original, livre de sua dependência da tradição inglesa. Alguns dias antes de ver publicado seu artigo, Melville havia se encontrado com Hawthorne num piquenique em Berkshire. Vizinhos um do outro a poucas milhas de distância, nasceria a partir daí uma forte amizade, como atesta a correspondência que o leitor terá a oportunidade de ler ao fim do ensaio, também inédita em português. Nela fica explícita a relação fraternal cultivada entre os dois escritores, a ideias de Melville a respeito da literatura, sobretudo a de seu país, o argumento para um conto, baseado em uma história real, oferecido a Hawthorne, assim como as curiosas informações sobre o desenvolvimento de um romance que ele elaborava à época e que mais tarde ficaria conhecido como Moby Dick. As cartas de Hawthorne se perderam, mas o conjunto que ora apresentamos não apenas dá ao leitor o ensejo de perscrutar as ideias e os sentimentos de um dos mais incensados escritores americanos como é testemunho intenso e iluminador do nascimento e ocaso de uma grande amizade. A tradução de Luiz Roberto Takayama foi publicada pela Editora Hedra.

VÍDEOS VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Aos leitores que ficaram curiosos por conhecer um pouco sobre a poesia de Herman Melville encontrada em língua portuguesa apenas na tradução de Mário Avelar em Poemas, antologia editada pela Assírio & Alvim em Portugal em 2009, nesta post, o blog da Revista 7faces apresenta dois desses poemas do autor de Moby Dick.

2. Outro autor de importância fundamental para a literatura e que o centenário de seu nascimento se passou na semana que finda é Primo Levi. Os 100 anos do escritor italiano foram celebrados no dia 31 de julho. Além de prosa, este também escreveu poesia, esta, aliás, trazida ao Brasil por Maurício Santana Dias numa antologia organizada e traduzida por ele sobre a qual falamos por aqui em várias outras ocasiões. Também já uma vez recordamos, mas não será demais repetir: neste link encontra alguns poemas de Mil sóis apresentados no blog da Revista 7faces.

BAÚ DE LETRAS

1. Neste endereço encontrarão algumas das principais publicações do Letras sobre Herman Melville e sua obra. E neste, sobre Primo Levi, incluindo uma lista de leituras com recomendação de seis livros para conhecer um pouco sobre a obra e o universo literário do escritor italiano.



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