Boletim Letras 360º #398


DO EDITOR
 
1. Saudações, caro leitor! Esta é uma post semanal criada desde quando os algoritmos do Facebook passaram a trair nós todos. Reúnem-se aqui todas as notícias compiladas ao longo da semana naquela rede social. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras!

Dostoiévski. Um ano antes do bicentenário do escritor, sua obra ficcional é totalmente publicada no Brasil com tradução direta do russo. 


 
LANÇAMENTOS
 
Primeiro romance de uma das principais vozes da poesia brasileira contemporânea.
 
O ausente, de Edimilson Pereira de Almeida, traz uma narrativa que retrata os embates dos personagens entre as exigências do destino e a ânsia da liberdade. A vida rural é o cenário vivo e atemporal onde se desenrola a trama, cenário reconstruído também pela linguagem poética e potente do narrador. Como nos diz Carolina Anglada em seu texto de orelha: “Inocêncio, Inoc, Esse de Agora, antigo peregrino e morador da região do Ausente, é o narrador que às vezes ocupa aposição de espectador, variando as perspectivas para espreitar de diferentes ângulos os modos como nos tornamos aquilo que (nosso nome sustenta que) somos. Em uma espécie de contínuo tempo presente, a convocar memória e imaginação, o narrador questiona, ainda, o que advém de seu ofício de curandeiro na palavra e na escuta; se a agudeza do verbo é mesmo uma faca de dois gumes, na qual bendito e maldizer têm seus efeitos embaralhados. O que lhe ensina Dejanira, a professora, a respeito da vocação da língua, tem a ver, portanto, com essa tensão entre os extremos da experiência, a ser vivenciada no imponderável dos atos de nomeação ou no emprego de palavras de sentido indecidível.” O livro é publicado pela Relicário Edições.
 
Sair da sombra, ter voz.

A pequena outubrista, de Linda Boström Knausgård, é o primeiro livro da premiada autora sueca publicado no Brasil. Entre 2013 e 2017, a autora foi internada coercitivamente numa enfermaria psiquiátrica, onde foi submetida a uma série de sessões de ECT (eletroconvulsoterapia), na qual descargas elétricas são utilizadas para desencadear algo parecido com uma convulsão epiléptica. É uma terapia corriqueira e considerada estabelecida no tratamento de vários distúrbios psíquicos, apesar de ainda não haver unanimidade entre os pesquisadores quanto a sua eficácia e seus efeitos colaterais. No caso da autora, as vivências e lembranças começaram a desaparecer já durante o tratamento que ela recebia na “fábrica”. O terceiro romance de Linda Boström Knausgård é não apenas um acerto de contas furioso com a psiquiatria, mas também uma esforço memorialístico desesperado e uma luta iníqua com portas que se fecham definitivamente, na qual a infância, a juventude, o casamento, a maternidade e o divórcio despontam como vislumbres e cujos personagens e lugares despontam sob clarões de relâmpagos. Um livro atormentado e totalmente desarmado, uma narrativa que ao fim e ao cabo apenas quer existir. A tradução de Luciano Dutra é publicada pela Editora Rua do Sabão.
 
Com Escritos da casa morta, a Editora 34 conclui a publicação integral da prosa de ficção de Fiódor Dostoiévski no Brasil com tradução diretamente do russo.

Em 1849, Dostoiévski, então com 28 anos, foi preso e condenado à morte por sua participação no Círculo de Pietrachévski, um grupo de intelectuais críticos ao regime tsarista. Instantes antes do fuzilamento, sua pena foi comutada para quatro anos de trabalhos forçados no presídio de Omsk, seguidos de mais quatro anos servindo como soldado raso em Semipalátinsk. O período passado na Sibéria foi extremamente marcante para o escritor, que viu cair por terra sua imagem idealizada do povo russo, influenciada pelos socialistas utópicos, ao conviver com a dura realidade dos prisioneiros comuns vindos de todas as regiões da Rússia. O resultado dessa experiência-limite é este livro, Escritos da casa morta (também conhecido como Recordações da casa dos mortos), publicado entre 1860 e 1862, em que o autor, ao fazer um registro antropológico da vida e dos costumes dos presos, acaba por empreender um verdadeiro mergulho na psicologia do ser humano — algo que servirá de matéria-prima para todos os seus romances de maturidade. A presente edição foi traduzida diretamente do russo por Paulo Bezerra, que também assina a apresentação do volume, e inclui três textos de época e um posfácio de Konstantin Motchulski, um dos principais biógrafos de Dostoiévski — todos inéditos em português —, além da série completa de 43 xilogravuras realizadas por Oswaldo Goeldi nos anos 1940. O livro é publicado pela Editora 34.
 
Um livro fundamental à reivindicação do papel feminino nos principais avanços da humanidade através da biografia de suas protagonistas.

Grandes e célebres figuras estão presentes, de Agatha Christie a Simone de Beauvoir. Mas não só. Mulheres menos conhecidas também são retratadas, como Mary Anning, primeira paleontóloga da História, e Juana Azurduy, que liderou exércitos contra os espanhóis. A tradução de Nós, mulheres, de Rosa Montero, é Josely Vianna Baptista e a edição da Todavia Livros.

Depois do caderno de desenhos de Cornélio Penna e do livro Alma branca e outros escritos (falamos aqui sobre a publicação), a Faria e Silva anuncia um clássico do escritor brasileiro.

Um quadro — que retratava a morte de uma menina, a sinhazinha querida, única alegria em um mundo lúgubre de injustiças — foi o que inspirou Cornélio Penna a desenvolver este romance. Vivido numa próspera fazenda de café do interior fluminense em meados do século XIX, A menina morta, ao narrar o trágico declínio desse lugar cuja grandeza se faz às custas do trabalho e da miséria dos escravos, é uma história de morte e loucura, de decadência e sofrimento, de almas angustiadas e de longos silêncios. A menina, na sua inocência, era quem amenizava o sofrimento dos escravos, quem os protegia e os livrava dos castigos. Depois da sua morte, só restou o horror da escravidão, o vazio e o desespero de almas perdidas. Morre a menina e com ela morrem a alegria e a esperança, e as infelicidades se sucedem num clima de densa tortura moral.
 
O primeiro romance de José Falero.

Com este seu primeiro romance, José Falero já se apresenta como um dos nomes mais relevantes da nova literatura brasileira. Ao criar um narrador culto e perspicaz — que contrasta com o dialeto a um só tempo urbano e filosófico da periferia —, o autor mostra seu talento incomum, fazendo uma verdadeira arqueologia da pobreza. Falero nos leva direto ao supermercado Fênix, na região central de Porto Alegre. É ali que trabalham Pedro e Marques, dupla que aos poucos veste a carapuça de um Dom Quixote e de um Sancho Pança amotinados. Moradores de “vila” (a favela no Sul), eles invertem o jogo mesmo que as consequências sejam graves. “Preciso dar um jeito de experimentar as coisa que faz a existência valer a pena, e não vai ser trabalhando que eu vou conseguir isso.” Os dois conhecem pessoas que traficam na periferia onde moram, por isso insistem em se manter na legalidade. Mas, diante de uma “seca” de maconha devido ao desinteresse dos traficantes em comercializá-la, e já cansados da exploração do trabalho, os dois amigos decidem entrar para o tráfico. É a única opção para melhorar de vida. E também uma recusa à desumanização do trabalho assalariado. Uma recusa a todo o processo de exploração. Os supridores é publicado pela Editora Todavia.

Duas edições para o mesmo clássico.

O Mágico de Oz encanta jovens e adultos há mais de um século. O livro é tão parte do nosso acervo cultural que até mesmo quem não leu ou viu o filme com Judy Garland conhece Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata, o Leão Covarde, o Mágico de Oz, as bruxas e, é claro, o cachorrinho Totó. Publicado em 1900, o livro de L. Frank Baum narra as peripécias de Dorothy que, após ter sua casa transportada pelos ares por um ciclone, aterrissa no encantado reino de Oz. Em busca de um caminho de volta ao lar, Dorothy enfrentará muitos obstáculos, mas com a ajuda de companheiros improváveis, encontrará sua própria força. Da atmosfera melancólica da fazenda onde Dorothy mora com os tios ao esplendor da Cidade de Esmeraldas, L. Frank Baum nos apresenta cenários e personagens inesquecíveis. Sua escrita sensível enaltece a coragem das mulheres e sua protagonista, considerada a primeira feminista da literatura infanto-juvenil, é também uma homenagem a sua esposa e sua sogra ― ambas engajadas na causa dos direitos das mulheres na alvorada do século XX. A Editora Darkside publica o livro em duas edições: a primeira para os leituras que buscam a experiência clássica. A First Edition (imagem) é inspirada na folha de rosto da primeira edição do livro, publicada em 1900. A segunda uma edição renovada. A Emerald Edition, com suas cores vibrantes, traz uma leitura moderna para o clássico. No miolo, ambas contam com as ilustrações originais de William Wallace Denslow, famoso por ter dado vida à Terra de Oz e seus habitantes. O livro é traduzido por Marcia Heloisa.

Caderno de entomologia, livro de contos de Humberto Ballesteros, ganha edição no Brasil.

O que uma libélula, uma mariposa ou um vaga-lume podem representar? O livro traz dez contos intitulados com nomes de insetos. Ao mesmo tempo em que as histórias se unem pelos insetos, elas são díspares entre si, cada trama tem sua peculiaridade e sua complexidade. A beleza do mínimo é o que importa. Humberto Ballesteros é um romancista e contista colombiano. Entre seus livros estão Razones para destruir una ciudad (Prêmio de Novela Cidade de Bogotá), Juego de memoria (Finalista do Prêmio Biblioteca de Narrativa Colombiana), Diario de a bordo de un niño astronauta. Publicado pela Editora Moinhos, o livro tem tradução de Fernando Miranda.

Neste livro Woody Allen não se poupa de nenhum assunto. Em um relato destemido, cômico e profundo, o diretor, comediante, escritor e ator traz um olhar pessoal e completo sobre sua vida repleta de polêmicas e conquistas.

Woody Allen: a autobiografia parte de sua infância no Brooklyn passando pelo início da carreira como roteirista-assistente de grandes nomes da comédia televisiva norte-americana. O artista fala sobre as dificuldades desse processo, como quando fazia apresentações de stand-up em clubes obscuros, e relembra como migrou para o cinema com comédias pastelão que hoje se tornaram clássicos, como Um assaltante bem trapalhão. Enquanto revisita seus sessenta anos de carreira e suas produções que marcaram gerações, como Noivo neurótico, noiva nervosa, Manhattan e Annie e suas irmãs, até suas produções mais recentes (Meia-noite em Paris e Um dia de chuva em Nova York), Woody fala sobre seus casamentos, romances, amigos, sua relação com o jazz, seus livros e suas peças. De forma audaciosa, o cineasta não se poupa de nenhum assunto e avalia seus demônios, erros, sucessos e aqueles a quem amou e com quem trabalhou. Ele esmiúça sua conturbada relação com a ex-companheira Mia Farrow, estrela de vários de seus filmes, incluindo as acusações de abuso sexual contra Dylan, a filha adotiva do casal; o polêmico casamento com Soon-Yi; o rompimento da amizade com o banqueiro brasileiro Jacqui Safra, financiador de vários de seus filmes e como a política do cancelamento atingiu sua vida e obra. Traduzida por Santiago Nazarian, a autobiografia é publicada pela Globo Livros.

O segundo volume da trilogia Thomas Cromwell.

Estamos em 1535. Henrique VIII, o volúvel monarca da Inglaterra, ainda não tem um filho para legar a Coroa. Reis sem herdeiros jamais se sentem seguros em seus próprios tronos, e Henrique acaba por projetar a culpa pela crise sucessória em sua segunda esposa, Ana Bolena. O coração do monarca agora pertence a Jane Seymour. Ocorre que os parentes e amigos de Ana estão espalhados por altos cargos do reino, e os desejos do rei podem mergulhar a Inglaterra no caos político. Quem desataria esse nó? Mais uma vez, os rumos da Inglaterra serão traçados por Thomas Cromwell, ministro que arquitetou a separação entre a Inglaterra e a Igreja de Roma. Também foi ele quem alçou Ana Bolena ao trono inglês — e agora terá de levar sua antiga aliada ao cadafalso. Em Tragam os corpos — continuação de Wolf Hall —, Hilary Mantel retrata o lado mais implacável de seu fascinante protagonista, cujas contradições fazem deste livro uma extraordinária reflexão sobre as ambiguidades do poder — e o terrível custo a ser pago por aqueles que inscrevem seus nomes nas entrelinhas da História. A tradução de Heloísa Mourão é publicada pela Editora Todavia.

Clássico de Herman Melville é o novo título na coleção Arte da Novela, publicada pela Grua Livros.

Em 1797, em Nore, ocorreu uma grave insurreição na armada britânica, que ficou conhecida como O Grande Motim. Mesmo sufocada a revolta, uma atmosfera apreensiva tomou conta dos conveses ingleses. É neste cenário que o navio H. M. S. Bellipotent, uma nau de guerra de 74 bocas de canhão, recruta forçadamente da embarcação Rigths o marinheiro Billy Budd, sob protestos de seu capitão: Tenente, o senhor vai levar o meu melhor homem, a joia da tripulação. Billy Budd, o Marinheiro Bonito, tem vinte e um anos, olhos azuis, e parece estar envolto em uma aura de pureza e paz que toca a todos que o cercam. No Bellipotent, comandado pelo experiente e respeitado capitão popularmente conhecido como Fulgurante Vere, ele entra na mira de John Claggart, o mestre-darmas, cujo apelido é Jemmy Legs. A sorte dos três homens do mar é decidida numa conversa entre eles, na cabine do capitão. Toda grande obra literária é composta de várias camadas a história em si, seus significados aparentes, as relações nem sempre claras entre as personagens, os meandros daquilo que não foi escrito, apenas vislumbrado. Muitas vezes, o leitor descobre camadas profundas e surpreendentes, mesmo depois de terminada há tempos a leitura. Considerado uma obra-prima, esse texto aparentemente simples de Melville é um convite a explorar as camadas de uma história que vem sendo debatida há quase 100 anos. A tradução é de Bruno Gambarotto.
 
Novo título na tradução e nova edição da obra de Salinger no Brasil.

Os leitores de J. D. Salinger estão familiarizados com os Glass. Figurando em algumas das histórias mais conhecidas do escritor, como “Um dia perfeito para peixes-banana” e Franny & Zooey, eles são uma família de prodígios juvenis agora às voltas com os dilemas e dissabores da vida adulta. Nessas duas histórias, narradas por Buddy Glass, finalmente vamos conhecer mais sobre a vida de Seymour, o grande mistério que paira sobre toda a família. Erguei bem alto a viga, carpinteiros & Seymour ― uma introdução é publicado pela Editora Todavia com tradução de Caetano W. Galindo.

Nove partes de um coração, da indiana Janice Pariat ganha edição no Brasil.

Nove personagens relembram seu relacionamento com uma jovem – a mesma mulher – que eles amaram ou que os amou. Nós a juntamos, assim como fazemos com outras pessoas em nossas vidas, em lascas incompletas, mas iluminadoras. Situado em cidades conhecidas e sem nome, movendo-se entre o leste e o oeste, Nove partes de um coração é um compêndio de perspectivas mutáveis ​​que acompanham a vida de uma mulher, tornando-a deslumbrantemente real em um momento e obscurecendo-a no momento seguinte. O novo romance, primorosamente escrito, de Janice Pariat, é sobre a natureza frágil e fragmentada da identidade – como os outros nos veem apenas em pedaços e como às vezes tendemos a nos tornar o que os outros nos percebem ser. A tradução de Camila Araujo é publicada pela Editora Moinhos.
 
Novos títulos integram “A Colecção”, publicação de poesia portuguesa pelas edições Macondo.
 
O ano dois da coleção traz quatro novos títulos de poetas portugueses contemporâneos, cada um com posfácios assinados por escritores brasileiros. O primeiro volume, O kit de sobrevivência do descobridor português no mundo anticolonial, de Patrícia Lino, traz texto de José Luiz Passos; o segundo, Fisioterapia, de F. S. Hill, assina o texto Carla Diacov. Esses dois títulos chegam aos leitores a partir do mês de novembro. Os outros dois são: Žižek vai ao ginásio, com posfácio de Anelise Freitas; e São Miguel da Desorientação, de Miguel Martins, apresentado por Ricardo Domeneck. Estes saem em dezembro.
 
REEDIÇÕES

Nova edição, ilustrada e em capa dura, de um clássico da poesia brasileira.

A matéria-prima da obra de Vinicius de Moraes é a vida, “e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime”. O Livro de sonetos revela a naturalidade e o engenho com que o poeta é capaz de transpor pequenos e grandes momentos — das alegrias e asperezas mais cotidianas às emoções mais elevadas — para a forma metrificada e rimada. Lançado originalmente em 1957, o volume passaria a incluir, nas décadas seguintes, novas composições: aos 57 selecionados pelo próprio autor, somaram-se dezesseis poemas esparsos. Para Eucanaã Ferraz, que assina a organização e o prefácio desta edição, os sonetos de Vinicius “impressionam pela carga emotiva que encerram, mas também pela maleabilidade que a forma fixa adquire nas mãos do poeta”. Estão aqui verdadeiras joias da poesia brasileira, como “Soneto de fidelidade” e “Soneto de separação”, que seguem conquistando gerações de leitores com igual arrebatamento.
 
Nova edição de Um amor anarquista, de Miguel Sanches Neto.

Em março de 1890, o engenheiro agrônomo e médico veterinário Giovanni Rossi desembarca no porto de Paranaguá, acompanhado de cinco companheiros de luta e ideal anarquista com algo mais do que os simples sonhos de um imigrante italiano no Novo Mundo. Intelectual de posição própria dentro dos duros debates entre socialistas e anarquistas italianos acerca dos rumos da marcha revolucionária, Rossi chega ao Brasil com o intuito de colocar radicalmente à prova não só os conhecimentos que havia acumulado na organização de comunidades agrícolas autossustentadas, mas também o horizonte utópico de seus contemporâneos. Seu objetivo: a fundação de uma colônia rural guiada, de um lado, pela partilha igualitária do trabalho e dos recursos materiais e, de outro, pela crítica radical aos paradigmas morais, políticos e econômicos da sociedade liberal europeia. Valendo-se de experimentalismo científico e empenho revolucionário, Rossi almeja demonstrar, nos limites de um pequeno assentamento de imigrantes europeus em Palmeira (PR), a viabilidade do surgimento de uma nova sociedade. Para tanto, encontrará os obstáculos demasiado humanos do afeto e do desejo. Ficção histórica, Um amor anarquista percorre os caminhos e descaminhos de uma comunidade de indivíduos dispostos a abandonar as tradicionais concepções de amor, família, religiosidade e posse e enfrentar os próprios limites íntimos em nome da realização de um ideal de humanidade. A partir dos registros da curta existência da Colônia Socialista Cecília (1890-1894) e de um uso esmerado da técnica narrativa, Miguel Sanches Neto resgata a memória de uma experiência histórica singular mediante o interesse no drama humano universal que ela encerra. O livro é publicado pela Grua Livros.
 
EVENTOS

O DIA D 2020

Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de outubro de 1902. Para comemorar a data, que no Brasil é Dia Nacional da Poesia, o Instituto Moreira Salles criou em 2011 o Dia D – Dia Drummond. A data inspirada no reconhecido feriado literário irlandês (o 16 de junho com o Bloomsday). Em 2020, as atividades presenciais oferecidas pelo IMS são substituídas por programação inteiramente gratuita e online. São três momentos: a disponibilização de um curso com três aulas, ministrado por José Miguel Wisnik, “Drummond e a maquinação do mundo”; a publicação integral do longa-metragem Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade (2014) com roteiro e direção de Eucanaã Ferraz; e do longa-metragem Consideração do poema (2012) com direção de Flávio Moura, Gustavo Rosa Moura e Eucanaã Ferraz. Mais informações e, claro, para acompanhar essas novidades basta visitar aqui.

DICAS DE LEITURA
 
Depois de algumas andanças por longe das recomendações de livros aparecidos recentemente na nossa cena, voltamos outra vez a olhá-los para indicar três leituras que se mostram promissoras.
 
1. Desvio, de Juan Francisco Moretti. O trabalho editorial da Ponto Edita começou com a publicação de um livro de Willa Cather e desde então apenas o zelo com o leitor e com o objeto que estabelece união entre ele e o escritor (passando pela própria editora) tem sido um diferencial interessante nesse tempo de relações fátuas. E, por falar nessas relações, outra experiência interessante será o contato com este texto apresentado desde sua aparição em Buenos Aires como um abalo nas fronteiras criativas da literatura argentina. O romance (será mesmo um?) explora os vastos limites entre realidade e delírio e convoca um lirismo brutal outras formas de leitores se apropriarem da leitura. Segundo a informação oferecida pela editora, “Desvio surge como um remix de humor e drama que flerta com a nostalgia dos anos 90 para contar a epopeia mais trivial de uma geração em uma Buenos Aires que às vezes lembra uma versão industrializada, superpopulosa e gentrificada da cruel São Geraldo de Clarice Lispector (A cidade sitiada). É, acima de tudo, um romance de aventuras próprio de nossos tempos.”
 
2. Tempos ásperos, de Mario Vargas Llosa. O escritor peruano volta à sua melhor forma, contar uma história que revela as reentrâncias do poder na América Latina. Este livro tem sido recebido pelos leitores dentro e fora da literatura de língua espanhola como dos melhores na extensa bibliografia de grandes romances do escritor. Desta vez, o plano histórico redivivo é o da Guatemala nos anos de 1950; aqui, um narrador à maneira de A festa do bode, infiltrado entre as disputas e os meandros da guerra fria relata como um golpe militar, financiado pelos poderes capitais à base de disputas, traições e mentiras, modificou o destino do país. Traduzido por Paulina Wacht e Ari Roitman, o romance é publicado no Brasil pela editora Alfaguara.
 
3. A lua e as fogueiras, de Cesare Pavese. Um dos romances mais bonitos da literatura italiana. Ao narrar o retorno de um homem de meia-idade às terras onde viveu sua infância e parte de sua juventude, no interior profundo da Itália, Pavese toca em várias questões que perpassam o ideal de pertença e os impasses entre a memória com o passado: a violência, a miséria e o prevalecimento dos resquícios mais danosos da ideologia. A estes podemos acrescentar a subserviência do homem aos poderes de mando, isto é, as explorações gratuitas do homem pelo homem, o fatalismo dos fixados à terra e incapazes de olhar para fora dos seus limites ou na via contrária dos que dela saem mas não encontram o desfazimento do fatalismo; o valor inestimável da amizade, possivelmente a alternativa mais viva que nos anima os sentimentos de à-vontade no mundo; o impasse entre o urbano e o rural, este percebido com todo parte de um sistema de leis em embate com aquele; os conflitos ideológicos que cindiram profundamente toda a Itália; e as aprendizagens que continuamente nos modificam para com o lugar de pertença para com os nossos convívios. A tradução de Liliana Laganá está publicada no Brasil pela Berlendis & Vertecchia Editores.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Os leitores têm ao alcance de um clique uma nova página para encontrar-se com o poeta do surrealismo português, Alexandre O'Neill. O “Site do O'Neill”, disponível a partir do portal da Biblioteca Nacional de Portugal reúne informações variadas, pelo ponto de vista do poeta lembrado e por outros; o leitor encontra detalhes sobre múltiplos aspectos da sua vida, do seu humor e da sua literatura. Há muito de material de espólio de O'Neill, como os autorretratos do poeta, a sua correspondência, um texto de Maria Antónia Oliveira, em que descreve o processo de escrever a biografia de O'Neill a partir dos testemunhos orais dos seus amigos, e um resumo desse arquivo do autor, escrito por Joana Meirim, sob o título “uma coisa assim em forma de espólio”, fotografias, poemas, manuscritos. O projeto coordenado por Joana Meirim é uma das linhas de trabalho de uma ideia maior intitulada “Lugares de O'Neill”, que se desenvolveu entre 2018-2019, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa. Para ver o site, basta visitar aqui.  

2. Um beabá nas redes sociais durante a semana envolveu o novo título atribuído pela nova tradução de Paulo Henriques Britto para o conhecido A revolução dos bichos, de George Orwell; sem se desfazer da edição com o título celebrizado por aqui, muita gente não conseguiu engolir calado uma A fazenda dos animais. Mas, tudo tem uma justificativa, não é mesmo? No Nexo Jornal se explica. Leia aqui.

BAÚ DE LETRAS
 
1. Pelo que desperta as seções anteriores... recordamos um breve perfil de Alexandre O'Neill publicado no blog, com direito a um pequeno catálogo com poemas do poeta português. 
 
2. Ainda não falamos sobre A fazenda dos animais / Revolução dos bichos por aqui, mas sobre vários outros livros de George Orwell, sim. Nesta semana, por exemplo, saiu texto de Pedro Fernandes sobre a reunião de passagens da obra do escritor britânico com um dos temas mais caros à sua literatura: a verdade. 

3. Você pode ler mais sobre A festa do bode, de Mario Vargas Llosa neste texto de Rafael Kafka. Sobre o escritor peruano também poderá encontrar uma variedade de entradas; na semana que finda chegamos a publicar uma lista com recomendação de alguns romances lidos e comentados por ele.
 

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