O espelho e a memória: Ida Vitale

Por José Homero

é a verdade vista no espelho, como uma fuga de Bach. Explorar o secretamente em comum de alguns elementos que muitas vezes são considerados contraditórios pode se tornar uma fonte de poesia, de revelação.
(Ida Vitale)

Ida Vitale. Foto: Daniel Mordzinski. 




Um dos versículos mais enigmáticos da Bíblia aparece em Coríntios: “Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido”.
 
A noção de nosso intelecto como um “espelho escuro” ― ou velado, como dizem outras traduções ― mexeu com a imaginação não apenas dos filósofos ― compare essa afirmação com a formulação platônica do mundo sublunar em que habitamos e do mundo das ideias ―, mas também de escritores, que ao longo da história se apropriaram da imagem para reformulá-la em suas obras: In a Glass Darkly de Sheridan Le Fanu, “O espelho de tinta” de Jorge Luis Borges... Talvez porque enquanto a humanidade comum e doente só vislumbre o prodígio em determinados momentos e descontínuos ― o espanto com certas maravilhas naturais, a embriaguez que provocam os sentimentos de amor e relação com o mundo, as catástrofes, sem prejuízo dos íntimos ― os artistas vislumbram essa dimensão graças ao êxtase; por isso, eles sabem, mesmo que seja por intuição, que existe uma realidade além de nossos sentidos.
 
Um aparente paradoxo rege a poética de Ida Vitale (Uruguai, 1923): a consciência de que os acontecimentos estáticos revelam a existência de outra ordem, a realidade fundamental e majestosa; e a consciência de que, para recuperar o êxtase, o poeta deve recorrer à linguagem, que é deficiente e limitada e, portanto, a perseguição inefável está fadada ao fracasso. Abrangendo gerações poéticas, a geração de 30 e a geração de 45, a obra de Vitale situa-se entre a busca de uma liberdade estética que permita uma abordagem maior da hierofania e o ceticismo de entender que o mundo é matéria verbal. Este é o paradoxo: a busca de milagres e maravilhas no cotidiano é confrontada com a ironia e a lucidez que nos permitem vislumbrar a coexistência da luz com as sombras. Daí talvez o simbolismo recorrente do labirinto e da escala ― com um movimento para cima e para baixo ―, para testemunhar que toda procura é acompanhada de enigmas.
 
Muitas vezes encontramos sinais dessa luta entre a celebração e a crítica, mas também a convicção de que os símbolos nos permitem expressar esse cosmos estranho e insular. Como corolário dessa grade irônica, para a poeta, a revelação ocorre apenas às vezes e de forma alguma uma espécie de utopia estética poderia ser estabelecida.
 
Por una estrepitosa duración
de silencio brevísimo
hacemos realidad la irreal granada.
 
[Por um estrepitoso período
de silêncio brevíssimo
tornamos realidade a irreal granada.]
 
Se toda poesia trama uma autobiografia oblíqua, cujas chaves são furtadas pelo poeta, mas que às vezes são visíveis se nos familiarizarmos com seu sistema de símbolos, o estágio de maior felicidade e realização foi para Vitale a infância. Em seus poemas altamente concentrados e sem concessões à confissão, mas principalmente naquele volume cativante que é Léxico de afinidades (1994), assimilamos a infância como um território de revelações e prodígios: as brincadeiras infantis, o jardim, as leituras... Notamos também o papel essa memória desempenha dentro dessa construção. Na entrada correspondente do referido dicionário pessoal, lemos que, de acordo com Platão e Plínio, a memória não é confiável. No entanto, essa desprezível tabuinha tem virtudes:
 
Quando alguém está disposto a afundar na agonia menor do desânimo, ela oferece a transmissão de fogos remotos que aquecem o lugar onde uma asa pode nascer. E quando se torna necessário invernar alguns momentos, buscar uma caverna materna para se refugiar, ela oferece uma ekphrasis... um novelo de sucessivas epifanias...
 
É desta qualidade evocativa, seu poder de recuperação, revertendo o tempo e estabelecendo, mesmo de forma fragmentada e débil, as ilhas de iluminação no deserto quotidiano, que faz da memória um instrumento de êxtase e não apenas de conhecimento. Vemos então que ocorre um processo dual. Em princípio, seja na infância ― principalmente na infância, período em que as brincadeiras e a agitação são cotidianas ―, ou por inspiração ou revelação, nos maravilhamos e nos apaixonamos pelo mundo. Vemos maravilhas que provocam certos momentos naturais: o vento soprando nas folhas, o fio da luz contra as miríades de gotas na grama, o tremeluzir da água... E esses momentos, esses instantes, só podem ser preservados por obra de poesia. Por isso que mesmo quando há certa crítica dos poderes da linguagem, ao mesmo tempo se confia nos poderes de preservação do signo:
 
Por el hueco del signo recorro
breves lenguas de luz,
una infinita noche.
 
[Pelo vazio do signo recorro
breves línguas de luz,
uma infinita noite.]
 
Poeta fiel aos seus princípios e limites, Vitale estabelece o milagre ou o prodígio como matéria-prima, sem desconsiderar que as sombras, símbolo da deterioração e talvez por último, da morte que ameaça toda a vida, sejam preponderantes. No entanto, como consequência de seu questionamento da linguagem, compreende que a única forma de forçá-la a se expressar e não apenas a se comunicar é indo além das palavras e de seu sentido imediato. A verdadeira linguagem, a poética, transcende, é preciso dizer, as gastas significações:
 
Cuadro es un grand poema
Tensamos un blanco campo
para que en él esplendan
las reverberaciones del pensamiento
en torno del ícono naciente.
 
[A tela é um grande poema
Estendemos um campo branco
para que nela espelhem
as reverberações do pensamento
em torno do ícone nascente.]
 
Poeta herdeira das derivas poéticas da geração dos 45 no Uruguai, dotada de grande capacidade analítica mas, sobretudo, crítica através da própria criação, o reconhecimento que Ida Vitale tem merecido nos últimos anos (Prêmio Alfonso Reyes 2015, Reina Sofia 2016, FIL de Literatura Línguas Românicas 2018, Cervantes 2019) é apenas o cumprimento de uma dívida. Frequentemente, na poesia castelhana, os autores de obras menores, mas de personalidade popular, foram privilegiados. Com Vitale, uma poeta que nunca desistiu de privilegiar a poesia como forma suprema de criação ou de associar a experiência poética a uma manifestação da religiosidade, a poesia reconhece que através da crítica da linguagem busca o questionamento cotidiano. Poesia, uma forma de mnemônica e uma pedra de toque para acessar essa visão sem ambiguidade e sem brilho:
 
De la memoria sólo sube
um polvo y un perfume.
¿Acaso sea la poesía?
 
[Da memória apenas sobe
um pó vago e um perfume.
Talvez seja a poesia?]


Ligações a esta post:
>>> Tentativas em torno da poesia de Ida Vitale.
 
 
* Este texto é a tradução de “El espejo y la memoria: Ida Vitale”, publicado aqui, em Confabulario.

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