Na estrada, de Walter Salles

Por Pedro Fernandes



1. Demorou e muito para que o filme chegasse nas telas dos cinemas em Natal. Pelo menos um mês depois de quando já havia saído de circulação nos cinemas nacionais e da esperança dos telespectadores de cá para vê-lo. O caso foi motivo de verdadeiro rebuliço nas redes sociais, em alguns blogs e até jornais de grande circulação no Rio Grande do Norte sobre o descaso que as redes de exibição tem para com seus usuários. Foi o momento oportuno para se questionar as motivações que fazem determinadas produções serem anunciadas, seja nos trailers, seja nos cartazes de corredor e o filme não ter a estreia esperada. Enfim, numa tentativa de se corrigir, ou porque já estivesse fácil demais trazer a aclamada produção de Walter Salles, a coisa aconteceu: quando ninguém esperava lá estava na lista de estreias da semana Na estrada.

2. O retorno de Walter Salles às telas é muito bem acertado, porque fazer um filme com o tema do romance de Jack Kerouac é, de certa maneira, retornar a um ponto de sua carreira, quando compôs a mítica trajetória de Che Guevara pela América Latina em Diários de Motocicleta. Se olharmos de perto, a viagem do revolucionário cubano mantém, de certo modo, suas semelhanças com o perfil on the road, afinal são histórias construídas com uma dorsal principal, a viagem.

3. Apesar de até agora não ter lido o livro de Kerouac, parte da crítica aplaude o filme de Salles justamente pela capacidade de acompanhar de perto, com a mesma força vertiginosa da narrativa, os acontecimentos que dão forma à trama. Outra parte, o critica justamente por isso; o cineasta brasileiro teria não ouvido o conselho do próprio Beat sobre a liberdade de criação. Esse lado acusa o filme de ser repetitivo (apenas um esquema: sexo, drogas, jazz e estrada) o que o faz cansativo e enfadonho.

4. A mim fica a impressão de que, quem assim o acusa é porque esperava, numa produção de cunho pop, que o filme  fosse de natureza mais comercial que artística. Mesmo o diretor não tendo utilizado de nenhum elemento desestabilizador do modo de se fazer cinema contemporaneamente, este é uma produção que já nasceu Cult. A criatividade de Salles, tenho comigo, está em pequenas sutilezas: como o relevo que dá, por exemplo, às mulheres num contexto invadido pela presença masculina.



5. A necessidade pela aventura ou algo que os faça significar existencialmente e, consequente, historicamente, talvez seja o que está por traz do que foi a Beat Generation, movimento do qual o próprio Kerouac foi um dos precursores. Isso também está muito bem assimilado pela grafia da narrativa cinematográfica. Mais que repetir a sequência sexo-drogas-jazz-estrada, Salles experimenta expor aquilo que se passa no interior dessas personagens interessadas em romper com o comum, isto é, aquilo que a viagem produz nas suas vidas pessoais.

6. É possível que eu esteja fazendo uma leitura apressada do filme ou esteja fortemente influenciado pelo o que foram os Beat ou mesmo encantado com outros elementos: a atuação de alguns atores, a fotografia impecável ou mesmo o ritmo do jazz, um elemento há muito distante de minha formação cultural. É possível. Mas, vou na direção contrária de parte da crítica especializada para dizer que Na estrada soube passar através das imagens a intensidade do que foi esse acontecimento desencadeador da cena Beat. Não vejo disfarces de leitura, mas uma tentativa coerente e, ao meu ver, satisfatória, em fazer o romance saltar do livro à tela, sobretudo, daquele instante de sua criação, que nem mesmo o contexto de publicação de On the road já não conseguiu captar. A tentativa, e acertada, em colocar o ritmo de um texto como o Jack Kerouac para o cinema, já seria, também, antes de tudo, algo a ser lido com bons olhos pela crítica que, antes de fazer qualquer coisa, apenas busca limitações e, não raras vezes, reduz a apreciação ao juízo de valor dos defeitos.

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