Fisionomia afetiva das estantes

Por Guilherme Mazzafera

Biblioteca de Antonio Candido. Foto: André Seiti


 
A estante é o homem: eis a máxima imperecível. Não se trata de apostasia pelas verdades transcendentes, mas daquela devassa ao material que nos define como seres históricos, enraizados nas palavras de romances que nos levam... às verdades transcendentes. Ou ao Japão feudal, à Samoa do tísico Stevenson, e, quem sabe, a algum lugar em La Mancha de cujo nome não me quero lembrar.    
 
Todo leitor se depara com aquele momento crucial de adquirir (ou mandar fazer) uma ou mais estantes. Quando perguntados sobre o sentido de estocar material já lido (falarei dos não lidos adiante), não há melhor resposta que a do cético George Costanza ― o mesmo que, perenemente corrompido pelos hábitos televisivos, não conseguiu encarar mais de duas páginas de Breakfast at Tiffany’s ― diante do esgar prático de seu amigo Jerry Seinfeld: it’s a book! Há todo um universo vocabular próprio para o armazenamento sentimental de livros. Estoque é coisa de livraria; nós, leitores, somos book hoarders, entesouramos nossos livros como herança, legado e, como sói ser com toda boa palavra, peso.
 
Parte do fascínio que temos ao adentrar a cornucópia de estantes chamada biblioteca é a multiplicidade ainda suspensa de rotas a traçar, só requerendo nosso tempo e desejo. O anseio pelo entesouramento de livros não lidos, que se multiplicam como praga e, em pouco tempo, almejam substituir as vigas e colunas da casa (como na bela imagem estrutural de O irmão alemão), decorre de um anseio mais profundo, o desejo de uma biblioteca particular, capaz de repor, ao mais curto alcance, as infinitas possiblidades de alumbramento. 
Um dos mais perspicazes leitores das últimas décadas e colecionador assumido, Umberto Eco nos diz que a biblioteca representa, mais do que um estoque de lembranças, uma vasta pletora de possiblidades de encontro com a “memória universal”:
 
“a biblioteca não é apenas o lugar da sua memória, onde mantém aquilo que leu, mas o lugar da memória universal, onde um dia, no momento fatal, poderá encontrar aqueles que outros leram antes de você. É um repositório onde no limite tudo se confunde e gera uma vertigem, um coquetel da memória erudita.”1
 
Cabe ressalvar, no entanto, que o acesso à “memória universal” que a biblioteca pessoal permite é sempre afetivo. Trata-se de um compósito complexo de afinidades eletivas, promoções da Amazon, encontros fortuitos no sebo da esquina, alguns regalos, indicações de amigos, lançamentos de conhecidos e, inevitavelmente, respeito e desrespeito ao cânone.
 
As estantes ofertam uma espécie de microcosmo pessoal de seu dono. Nesse âmbito, o peso dos livros lidos e não lidos se equivalem. É na mistura, na decantação entre o que se lê e o que se coloca como possibilidade ad eternum que a personalidade se gesta: prevaricar a leitura de um livro, por mais que se queira disfarçar, é gesto ativo, escolha. Ainda não subi A montanha mágica. Mas vaguei em duplo périplo linguístico por Dublin com Leopold Bloom.

Estantes são herança. Nascemos com uma, mesmo que imaterial. Parte de nossa formação de leitores é identificar essas leituras sem rastro que nos formam e, assim, decidir o que fazer com elas. Pode ser uma Bíblia sempre aberta nos Salmos na casa da avó, um Manifesto comunista oculto entre os travesseiros ou a proliferação invariável de hebdomadários (Seleções? Veja? Turma da Mônica?), sobejamente consumidos sem lastro.
 
Talvez a maior contribuição de Eco seja a da desculpa perfeita: quanto mais conhecemos, mais queremos conhecer, logo, mais acumulamos livros não lidos. Afinal, um repositório de livros não lidos é uma importante ferramenta de pesquisa. Mas no caso de alguém que mora em uma grande cidade, com fácil acesso a internet e boas bibliotecas e livrarias, faz sentido construir para si tal empreitada?2
 
Seja como for, subjacente a toda empresa bibliográfica que se preze, faz-se sentir seu inevitável senso agônico de incompletude: “toda biblioteca instalada em um lugar privado, formada por obras bem reais, dispostas para consulta e a leitura, não poderia ser, malgrado suas riquezas, nada mais que uma imagem truncada da totalidade do saber acumulável”.3
 
*
Eu sou daqueles que crê no tempo do livro. Não se trata de vida útil ou taxa de decomposição da celuloide, mas de um descompasso quase inevitável entre a compra e a fruição. Já tentei diversos métodos para me forçar a avançar no cipoal de páginas não viradas: manter os livros no plástico, como colecionadores de action figures (e digo que não vejo sentido em privá-las da primeira parte de seu nome); empilhá-los em lugar visível e obstrutivo; deslocá-los alguns centímetros à frente dos demais na estante, causando incômodo visual que me obrigaria a lê-los de pronto para manter minha sanidade organizacional. Mas meus caprichos de leitor, sôfrego e volúvel, espanam qualquer logística.
 
De volta ao argumento de Eco, o cercar-se de livros como meio de afastar qualquer saciedade intelectual tem seu valor, mas e quanto aos livros já lidos, cabe mantê-los? O quanto a preservação de livros em nossas estantes não é apenas um ato reflexo de acumulação? Ou, pior, apenas um jeito de justificar nossos gastos? Enquanto permanece na estante, o livro é útil, paga seu investimento. Mas ao doá-lo, perdemos dinheiro.
 
Parte da tensão se deve a imbricação entre mercadoria e antimercadoria que o livro representa. Embora pressuponha, idealmente, o “desocupado leitor” instado por Cervantes em seu prólogo, o livro também pertence ao tempo do negócio. Se para roupas podemos adotar métodos bastante práticos, vinculados ao uso efetivo das peças (como o famoso método 333), com livros a coisa é um pouco diferente. Talvez eu não tenha usado nenhum DeLillo desde o último verão, mas certamente não quero abrir mão de sua companhia em eventuais serões de primavera.
 
Um método que já adotei foi o de expor meus livros trocáveis ao vilipêndio dos sebos. Nessa interação, 40 livros variados convertem-se em R$50-60,00 disponíveis para troca (na qual se inclui o lucro do sebista). Vali-me deste requinte de crueldade quando precisei mudar de apartamento, e, após algumas visitas, mais de 100 livros foram permutados por pouco mais de uma dezena, abrindo considerável espaço nas estantes para livros que efetivamente queria ler. Mas ainda permanece, em tal gesto, algo do homo economicus e seu anseio por não se sentir completamente lesado.
 
A solução seguinte, e que é por ora minha favorita, é o desapego direto. Se não consigo encontrar pessoas específicas a quem entregar os livros, posso ofertá-los a bibliotecas, embora algum entrave burocrático não seja raro. Meu método consistia em levar, após árdua seleção, um ou dois livros por vez (e eventualmente jornais e revistas) e deixá-los na estante de doação do Parque da Água Branca (SP), que possuía um incrível espaço de leitura ― uso verbos no passado tanto por uma mudança recente de cidade quando pela lamentável atitude da prefeitura de SP em decretar o fechamento, em plena pandemia, de um espaço tão vital. Para além qualquer meneio filantrópico, a idade e um espaço físico limitado têm me tornado um pouco mais criterioso com os livros que compro, leio e sobretudo guardo.
 
O esvaziamento das estantes, naturalmente, é sempre parcial e melindroso, e a construção de uma “antibiblioteca” que, a rigor, deveria ser composta apenas de livros não lidos, é uma utopia ― ou apocalipse, pois implicaria o apagamento da memória física do leitor. A solução conciliatória: let it be. O entremeio de livros lidos e não lidos traz uma imagem mais completa de quem somos, de nossos sucessos, anseios e fracassos. Estipula também uma visão de um futuro possível, não teleológico, em que a estante permanece mutável, mantendo algumas figuras-chave, mas sempre abrindo espaço a novos ocupantes.
 
*
Para Dante, como lembra Eco, Deus é a biblioteca das bibliotecas, o um-só-volume, fac-símile do Universo. Borges, em “A biblioteca de Babel”, especula sobre um “grande livro circular de lombada contínua. [...] Este livro cíclico é Deus”.4 Acho um pouco presunçoso clamar por direitos iguais para minhas brancas estantes em barafunda, mas creio que, para o observador certo, elas garatujam um incerto atlas de afetos e aflições, suspiros e saudades, conquistas e comiserações.
 
Recuperando um uso obsoleto, ‘estante’, enquanto adjetivo de dois gêneros, refere-se a alguém que “está ou esteve, que vive ou vivia, residente” (Houaiss) em determinado lugar. Dê-se a toda palavra o peso que lhe cabe. Símiles do rosto humano, estantes têm fisionomia, uma feição característica que as distingue, mas não as aparta da história. Reverberando o lema montaigniano, elas compõem um retrato não do ser, mas da passagem. Pois estantes são herança ativa, profusamente cultivadas à imagem e semelhança de seus donos.
 
Notas

1 Ver o documentário Sulla memoria, disponível no YouTube. O trecho encontra-se aqui
 
2 Penso aqui exclusivamente na acumulação de livros físicos. Os livros digitais, por sua aparente invisibilidade, constituem outro tipo de problema que merece ser analisado em um texto à parte.
 
3 CHARTIER, Roger.  “Bibliotecas sem muros”. In: A ordem dos livros: Leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução de Mary Del Priore. Brasília: Editora UnB, 1998, p. 87.
 
4 BORGES, Jorge Luis. “A biblioteca de Babel”. In: Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 70. Como bem lembra Roger Chartier, a pertinência da recorrente imagem do livro como representação de Deus, do cosmo ou mesmo do corpo humano depende intimamente da materialidade do livro enquanto códex, ou seja, um livro “composto de cadernos, formado de folhas e de páginas, protegido pelo encadernamento”. A emergência do livro digital e da textualidade eletrônica certamente terá impacto sobre essas representações imagéticas, afinal “Nenhuma ordem de discursos é, de fato, apartável da ordem dos livros que lhe é contemporânea.” CHARTIER, Roger.  “Post scriptum – Do códex à teça: as trajetórias do escrito”. In: A ordem dos livros, cit., p. 106.
 

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