As Eruditas, de Molière, e a encenação de Emma Dante

Por Amanda Fievet Marques


Foto: Christophe Raynaud de Lage/ La Comédie Française



As Eruditas (1672), de Molière, é uma comédia de costumes em cinco atos, que satiriza o pedantismo e a falsa erudição. A peça opõe fundamentalmente as irmãs Armande, que se diz filósofa e apregoa o primado do espírito sobre o corpo, e Henriette, que deseja se casar e constituir uma família com Clitandre. A posição de Armande é reiterada pela sua mãe, Philaminte — que, embora também se arrogue tão conhecedora da filosofia é incapaz de controlar seus humores contra o seu marido Chrysale, dominado por ela —, e por sua tia, Bélise, que crê lunaticamente ter todos os homens a seus pés. Já Henriette tem ao seu lado seu pai Chrysale que, para sua alegria, vai tentar casá-la com Clitandre — que a corteja e de quem ela gosta —, contra o desejo de Philaminte de casá-la com o falso poeta Trissotin. 

A sátira do pedantismo se acentua e gera o riso pelo exagero, por exemplo, quando Philaminte despede sua empregada, Martine, apenas por ela ter cometido erros gramaticais. O cômico deriva do aparente absurdo de tornar a gramática um instrumento de exclusão, e o saber decorre não de um exercício crítico, mas da pura autoridade. Observa-se também a hilária dissociação entre forma e sentido quando no salão de Philaminte as mulheres se reúnem para ouvir Trissotin declamar seu Soneto à princesa Urânia quando ela estava febril que, embora irrisório enquanto composição poética, arranca suspiros de admiração das supostas eruditas. 

Tais mecanismos encontram um prolongamento específico na encenação realizada pela diretora siciliana Emma Dante, em cartaz no Théâtre du Rond-Point com a trupe da Comédie-Française, de 14 de janeiro a 1º de março deste ano de 2026. Atriz, autora, dramaturga e diretora, Emma Dante se arriscou a trabalhar com uma companhia que não é a sua — a Sud Costa Occidentale fundada em Palermo, em 1999 —, com uma língua que não é a sua, a língua francesa e, além disso, com uma peça de seus maiores expoentes, Molière, um dos ourives do verso alexandrino. 

Foto: Christophe Raynaud de Lage/ La Comédie Française


A aposta da diretora em sua leitura de As Eruditas foi renovar a peça, misturando passado e presente. Na cena inaugural em que Armande (Jennifer Decker) e Henriette (Edith Proust) debatem sobre a instituição do casamento, o espectador vê as atrizes vestidas com roupas modernas, urbanas, tênis, e com smartphones pendurados ao pescoço. Subitamente caem no palco três sacos enormes, com roupas de época, enquanto os demais personagens, como Clitandre (Gaël Kamilindi) e Chrysale (Laurent Stocker), chegam dentro de baús, a caráter, esbranquiçados de poeira e são espanados com mini aspiradores de pó de mão. Gradualmente, as demais personagens femininas aparecem com roupas e caracterizações do século XVII, ainda que exageradas pelas cores e tons que marcam o estilo de Emma Dante. O belo trabalho de figurino é de Vanessa Sannino, igualmente responsável pela cenografia. 

A irrupção de cores também se nota após a entrada de Philaminte (Elsa Lepoivre) em cena, quando os lacaios passam a amontoar o palco com pilhas de livros. A um dado momento, sobre cada uma delas, eles abrem um livro pop-up do qual eclode um arranjo de flores colorido. A isso se acrescenta um fundo de cena móvel, que se supunha apenas em tecido seiscentista, mas do qual desabrocham, numa ocasião, flores. Tudo muito visualmente instigante, sem dúvidas, e um dos pontos altos da encenação.

Mas, a imbricação entre passado e presente nem sempre funciona, e o projeto de Emma Dante parece não se imiscuir bem ao texto de Molière. Frequentemente, o texto original e o princípio modernizador parecem ambos água e óleo. Em algumas cenas e nos entreatos, as escolhas musicais da diretora variam entre Lenny Kravitz, Billie Eilish, The Clash, Björk. Os smartphones e notebooks presentes em muitas das cenas estão deslocados e não acrescentam nada à força do texto, no mais das vezes, obliterado pelo afã de modernização. 

Em todo caso, a encenação arranca boas risadas da plateia, e grande parte delas se deve ao talento do ator Laurent Stocker — que interpreta Chrysale, o marido subjugado pela esposa —, capaz de fazer rir até sem abrir a boca, de tão expressivo. Também Éric Génovèse que faz o papel de Ariste está muito bem, e Stéphane Varupenne, engraçadíssimo como o afetado e pretenso poeta Trissotin.

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