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Emily Dickinson, uma vida que se prolonga

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Foi o anjo da guarda das letras estadunidenses e está no centro da linha que vai de Anne Bradstreet a Sylvia Plath, a meio caminho entre o puritanismo e o suicídio. Mas amava a vida e aqueles eram tempos heroicos, com o estrondo da guerra civil ao fundo e o fragor dos baleeiros ou as emboscadas dos índios. Eram os dias de Moby Dick e O último dos Moicanos ; a época dourada de Folhas de relva e no centro daquele vendaval criativo uma menina se tranca em sua casa de Amherst, em Massachusetts, nos arredores de Boston, e se põe a escrever, se dedica a fazer literatura e conta a um papel o que lhe passa. Escreve alguns textos de corte intelectual, apesar de sua aparente sensibilidade. Repletos de uns traços que dão uma sensação de trêmula  cadência. Cria uma escrita difícil e exigente em que narra as pequenas tragédias da vida cotidiana, sem títulos, sem pretensões editoriais. Repetem-se as perguntas obsessivas, volta-se para a autocensura e a compaixão, numa indefinív...

Boletim Letras 360º #169

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Há um aviso fixado no topo do mural do nosso Facebook que convida leitores que escrevem e simpatizam com espaço do Letras para enviar contribuições com textos de natureza diversa; sobretudo resenhas sobre livros. Aproveitamos a ocasião para reforçar o convite tão essencial à subsistência de espaços como este. Para saber como preparar e enviar o seu texto, basta ir aqui . Aviso repassado, vamos às notícias que listamos, como já é de costume aos sábados, na página do blog no Facebook.  Anne Frank: em breve todos terão acesso virtual ao espaço onde se escondeu a menina judia autora de um dos textos sobre a memória do Holocausto dos mais lidos no mundo. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 09/05 >>> Holanda: A história da menina judia que compôs uma das obras mais lidas sobre o tema do holocausto ganhará forma através da realidade virtual (VR) O museu Casa de Anne Frank, localizado em Amsterdã, fará isso para ganhar o mundo. Um projeto prevê a d...

Quando defender a criticidade é ser subversivo

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Por Rafael Kafka Arte: Zeren Badar (detalhe) Em seu Verdade Tropical , no meio de tantos movimentos políticos e culturais importantes Caetano Veloso faz questão de citar o método Paulo Freire. Criado pelo pedagogo brasileiro, tal método consiste em utilizar aspectos do cotidiano dos estudantes para promover a alfabetização e o consequente letramento dos mesmos. Vale ressaltar, que letramento e alfabetização não são a mesma coisa: alfabetização condiz ao processo de aquisição da linguagem verbal e letramento é o uso social da língua. Todo letrado é alfabetizado, mas nem todo alfabetizado é letrado: muitas pessoas conseguem ler um texto, mas não consegue explicar o que entenderam do mesmo, ligando ao mundo concreto. Nesse sentido, o método de Paulo Freire se liga ao interacionismo de Vigotsky, importante teórico russo que desenvolveu a partir do construtivismo de Piaget a visão dos saberes humanos como algo socialmente construídos. Tanto o método quanto a forma de pensar...

Romances de Patrick Melrose, de Edward St. Aubyn

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Por Pedro Fernandes Sabe-se que St. Aubyn concluiu este ciclo de romances em 2012, quando as editoras resolveram publicá-lo num só volume; o projeto levou quase vinte anos para ser concluído: o primeiro volume foi publicado em 1992 e o último em 2011. No Brasil, talvez por uma razão mercadológica, a obra sai, provavelmente, em dois tomos: o primeiro com os títulos “Não importa”, “Más notícias” e “Alguma esperança”; o segundo deverá trazer “Mother’s milk” (O leite da mãe) e “At last” (O fim). Apesar de acompanhar toda uma vida – a da personagem que dá nome ao ciclo, projeção do próprio escritor – cada um dos romances zela pela objetividade e não se prende a ser um retrato pleno, se é que se pode falar em plenitude quando se fala sobre um, sobre essa figura capaz de despertar no leitor toda sorte de reações, sobretudo, as mais adversas. E foi, justamente por isso que, entre a alternativa de escrever três textos – um para cada livro – que poupei tempo para mergulhar na l...

‘Pawn Sacrifice’: outro olhar sobre a vida e a personalidade do prodígio norte-americano do xadrez

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Por Maria Vaz O cinema biográfico nunca é feito de forma linear: há sempre pequenas subtilezas deixadas à sensibilidade de quem assiste. Não poderia ter sido diferente na película que retrata a vida de um dos maiores prodígios norte-americanos do xadrez, Bobby Fischer. O filme começa na infância de Fischer, em uma festa dada pela mãe de Bobby aos seus amigos comunistas. A mãe de Fischer era uma mulher com vida política activa, bem como todo o envolvente gosto pelos convívios boémios que faziam com que ele se perdesse ensimesmado na solidão. Foi daí, do silêncio e da fuga às confusões sociais que se davam na sua casa, que germinou a paixão de Fischer pelo xadrez: encontrou um tabuleiro perdido no quarto e, rapidamente, começou a jogar sozinho. A partir de então, ganhava todos os jogos que disputava e se, por algum motivo excepcional, perdesse não poderia o jogo ficar por ali, havendo uma revidação de desforra. A sua mãe, inicialmente, resolveu levá-lo a um psiquiatr...

Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

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Por Emma Rodríguez Quando António Lobo Antunes participou da Guerra de Angola se dedicava a escrever cartas; cartas nas quais falava de muitas coisas e que nasciam de sua necessidade de comunicar que estava vivo. Para o escritor português os romances que escreve também partem desse desejo. O que faz é colocar-se junto do leitor e dizer-lhe: “estou aqui, contigo, diante deste mistério que não compreendemos, um mistério que nos ultrapassa e que, como dizia Lorca, nos faz viver”. Assim me contava numa conversa que mantivemos na época da publicação de O arquipélago da insónia . Agora, meu o retorno à sua obra se dá com Sôbolos rios que vão , um romance que seduz com aquela perseverança da memória, com os rumores de um passado que nunca desaparece, que se torna presente enquanto exista alguém que siga mantendo suas recordações. Já ao iniciar a nova viagem estive consciente de que as atmosferas do velho casarão desse “arquipélago”, um casarão cheio de quadros fotográ...