Dois romances de Oscar Nakasato

Por Eduardo Galeno

Oscar Nakasato. Foto: Gilvam César Borges



No geral, o romance Ojiichan me pareceu dar uma certa continuidade ao aclamado vencedor do Jabuti de 2012. Não quero falar de saga porque cada livro é uma história, mas de buscar conter respostas satisfatórias sobre a escrita de Oscar Nakasato, incluindo na bolsa a sua invenção da arte de contar. Em qual sentido, resumidamente, ele chega? No modo onde a ação passa do exercício social ao existencial.

Para não ficarmos no clichê do fato de Satoshi ser idoso, quer dizer, na afirmação de um ídolo narrativo, verifiquei três posições que podem fugir da rotina na interpretação: 

A primeira é a sensibilidade com que o protagonista participa do mundo, que antecipa a sua autonomia frente a ele. O saber nasce da percepção imediata do ambiente, do corpo, das marcas sensuais sobre a matéria. Ojiichan apreende a realidade antes de qualquer reflexão, desse modo, pelo viés da presença. O conhecimento surge como impressão acumulada, ligada ao cotidiano e à repetição. Nakasato valoriza esse nível pré-conceitual do conhecer: o mundo se oferecendo em experiência sentida. A sensibilidade fornece a primeira canção ao noema, registrando o real tal como aparece, sem mediações profundas. 

Segundo: já com o entendimento, saber prático, organizado pela experiência, Satoshi fala porque reconhece regularidades: a hecceidade das coisas, o limite, a ordem da máquina. Ele não formula conceitos e age com correção. O que a sensibilidade captou se estabiliza em outros modos de ser. Esse entender orienta decisões concretas. Se trata de um conhecimento funcional, formado pelo convívio. O romance sugere que compreender não exige explicação abstrata, mas capacidade de vivenciar as pessoas e as situações. 

A capacidade de inferir uma razão entre os dois momentos é a nossa razão de leitura. Os intertextos que o autor traz no grupo da história, por exemplo, são de grande valor para a tentativa de conectar esses polos, assim deixando permanente o prazer em ler e, lendo, em investigar. A negação de Satoshi à aposentadoria, esta compulsória, não me deixou surpreso: tudo indica que o limite é o limite de perceber as aparições dos objetos em si. Mas o crucial é que, mesmo numa crise, ele jamais deixa de mão a leveza e a sobriedade. 

Sofrer talvez seja saber interagir com o gosto amargo quando for necessário. Satoshi interpelou seu costume não arrastando, e sim suspendendo. Sem a permissão, sem a consciência, ele diminui o atrito com a perspicácia: penso que a cultura da diáspora é exemplar na sua amplificação.   

Em Nihonjin, se fala abertamente sobre imigrações. Mas creio que de imigrações não só físicas, como também espirituais. Nakasato vai, através de um estilo sóbrio, numa prosa sintaticamente professoral (linear e realista por causa da sua nítida pesquisa antropológica), buscar o signo da ancestralidade, tão cara ao gênio japonês de que descende. O romance é um aceno à coletividade nipônica no Brasil.
  
Me finco aqui na leitura para com a natureza da hereditariedade familiar que o ritmo do livro atravessa. Nesse modo de enunciar as verdades de um deslocamento cultural, o que sucede é aceitar todas as suas contradições. Logo no início, já temos uma: a família que é recém-chegada não vê a negra com os olhos que qualquer boa civilidade enxergaria. Hideo não permite que a esposa faça amizade com a gente de baixo valor social, pondo as mazelas do racismo do sentimento étnico-nacional à baila. A construção da identidade é profundamente, apesar das páginas breves, debatida em níveis muito simples de situação.
 
Não posso responder de maneira exata como se pode concatenar a literatura de exílio de Nakasato e a imigração japonesa na era Meiji, mas com certeza posso afirmar que a primeira lança luz sobre os traços da confusa modernização da segunda. Arrisco a dizer que, fora o respeito pela gens, o zelo pelo trabalho suplanta as outras intenções. No trato com a questão, os personagens do livro estão em combate contra seu próprio estranhamento que repete os caracteres das modalidades pré-capitalistas, enquanto seu fracasso na busca pelo dinheiro, causo prometido por fidelidade ao imperador, ganha força como vínculo teleológico: eles fazem por dever a uma ideia central, mas sabem que só a desilusão venceu justamente por não perceberem antes a dificuldade que é estar em dispersão. 

Nas fazendas em que os japoneses chegaram, a marca indelével da neve não estava quando eles a procuraram no interior de São Paulo. Ausência. Como contraponto, isso diminuiria substancialmente no passar das gerações. Haruo, filho de Hideo, encarna essa via: se mostrando avesso aos costumes do pai, é assimilante da cultura brasileira. Haruo não quer chamado de japonês e é mais aberto à novidade e tem interesse pela mudança que o outro, o exterior traz à sua vida (que chancela o seu súbito assassinato na guerra de 1939-45).

Nihonjin representa a luta da identidade e diferença, hábito e modernidade no seio da diáspora do povo do Japão nas terras ocidentais.

O romance deve ser caracterizado no tecido da psicologia, da sociologia e da história. Específico (conta a história de imigrantes e seus descendentes), é também universal por ser tão humano.


Ojiichan
Oscar Nakasato
Fósforo, 2024
168p.


Nihonjin
Fósforo, 2025
144p.


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