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Abril, no Rio, em 1970

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Por Rubem Fonseca Tudo começou quando o cara que sentou perto de mim na grama disse, olha só o cuspe do Gérson. Na hora eu não dei importância, eu tinha feito misérias para chegar até ali, mas a minha cabeça estava no jogo de domingo e eu não ligava as coisas umas com as outras. O jogo de domingo ia ser assistido pelo Jair da Rosa Pinto, técnico do Madureira, que já foi cracão do escrete, e uma coisa lá dentro me dizia, Zé, vai ser a chance da sua vida.  Eu disse pra minha garota, que era datilógrafa da firma, não fico de contínuo nem mais um mês, disse também que o Jair da Rosa Pinto ia me ver no domingo, mas mulher é um bicho gozado, ela nem deu bola. Me larga, deixa eu te contar. Levantei da cama, expliquei, porra, se eu jogar bem e o Jair da Rosa Pinto me levar para o Madureira, estou feito, ninguém me segura, mas ela me puxou de novo pra cama e foi aquela loucura, minha garota é fogo. O cara se chamava Braguinha. Olha o cuspe do Gérson, ele disse, no ...

Dois tipos de atitude perante a angústia: Bernardo Soares x Jean-Paul Sartre

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Por Rafael Kafka             Dia desses estava escrevendo algo em meu diário que decidi parafrasear e transformar em meu texto da semana. Confesso que isso se deve muito à falta de inspiração, pois estou há mais de duas horas tentando produzir um texto e não consigo... Mas desabafos à parte, vamos ao que interessa. Nesse dia que cito acima, escrevi em meu diário a diferença entre uma mente metafísica e uma mente com perspectiva existencial. Inspirei-me para falar sobre isso muito provavelmente no Livro do desassossego , de Fernando Pessoa, cuja autoria é dada a Bernardo Soares, um dos muitos heterônimos do poeta português. O livro citado é de difícil classificação: parece demais com um diário pessoal, tendo passagens de pura narração ao mesmo tempo em que possui excertos de uma filosofia profundamente existencial e estoica e alguns momentos de um arroubo sentimental maior causado principalmente pela desesperança perante o ato de existir. O pró...

Joãozinho Malvadeza

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Por João Ubaldo Ribeiro Acho que a Copa enseja a confissão de um pecado longínquo, na minha carreira futebolística, defendendo as cores do Flamenguinho do Rio Vermelho, do São Lourenço de Itaparica e de outras agremiações menos renomadas. Zagueiro de recursos discutíveis, mas bom de carrinho, chutão e reclamação com o juiz, recebi do técnico Hélio Gaguinho a alcunha de Delegado, pelo meu “efi-ficaz po-policiamento da-da gran-grande área”. Deu-se que, com o outro time jogando pelo empate, estávamos disputando a final do campeonato do Rio Vermelho e o gol não saía. Aí pelos 30 minutos do segundo tempo, Gaguinho me instruiu para ir ao ataque e tentar aproveitar os cruzamentos de Toninho Seminarista. Cumpri a determinação, mas não achei a bola em nenhum dos cruzamentos. Gozila, o goleiro deles, que lembrava o Dida, só que maiorzinho, catava tudo. Gaguinho me chamou de novo e mandou que, quando o goleirão fosse subir, eu pisasse nos pés dele. Não discuti. E...

Pablo Neruda

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O poeta político. Há um fosso que nos separa da literatura produzida na América Latina – há muito que observamos isso – embora, vejam a contradição, se circule por aqui tanto de literatura estrangeira, mas vêm sempre aquelas de lugares longínquos. A obra de Pablo Neruda, embora seja um dos maiores poetas de língua espanhola, apesar de alguma circulação por aqui, por exemplo, não tem uma recepção devida. Isso tem seus resquícios ainda do período que no Brasil se impôs a cortina de ferro para circulação de nomes em que fosse comprovada sua relação com o comunismo. E durante largo tempo a crítica deteve-se em avaliá-lo, erroneamente, só por esse ângulo. Há exceções. No New York Times , por exemplo, John Leonard declarou que Neruda foi um Whitman da América do Sul. O nome Pablo Neruda veio do pseudônimo com que assinou seus primeiros poemas ainda no início da adolescência; depois de fazer sucesso com ele, passou a ser um substituto quase oficial. Sim, porque ninguém irá conhecê-...

O futebol e a matemática

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Por Moacyr Scliar O técnico reuniu o time dois dias antes da partida com o tradicional adversário. Tinha uma importante comunicação a fazer. – Meus amigos, hoje começa uma nova fase na vida do nosso clube. Até agora, cada um jogava o futebol que sabia. Eu ensinava alguma coisa, é verdade, mas a gente se guiava mesmo era pelo instinto. Isso acabou. Graças a um dos nossos diretores, que é um cara avançado e sabe das coisas, nós vamos jogar de maneira científica. Abriu uma pasta e de lá tirou uma série de tabelas e gráficos feitos em computador. – Sabem o que é isso? É o modelo matemático para o nosso jogo. Foi feito com base em todas as partidas que jogamos contra o nosso adversário, desde 1923. Está tudo aqui, cientificamente analisado. E está aqui também a previsão para a nossa partida. Eles provaram estatisticamente que o adversário vai marcar um gol aos 12 minutos do primeiro tempo. Nós vamos empatar aos 24 minutos do segundo tempo e vamos marcar o gol da vit...

Imre Kertész, o filho incorrigível das ditaduras

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Por Alfredo Monte Em Eu, um outro (1997), Imre Kertész deu a si mesmo uma veredito irrevogável: “Sou filho incorrigível de ditaduras, ser estigmatizado é minha particularidade”.  Vinte anos antes, em História policial , curto romance lançado agora no Brasil pela Tordesilhas, o Nobel de literatura de 2002 examinava de forma implacável a lógica das ditaduras (infelizmente, Direita e Esquerda, em suas contrafações, equivalendo-se no tocante aos resultados históricos): mesmo que calcadas, a princípio, em lutas pela justiça social, não passam de projetos de poder, tudo o mais se subordina à sua manutenção; para isso, tornam-se “estados policiais”, mantendo os cidadãos sob vigilância, apelando para o arbítrio, a tortura, a supressão de qualquer oposição. Numa passagem arrepiante, um torturador afirma: “O mundo seria diferente se nós, policiais, fôssemos unidos... Não apenas aqui em casa, mas no mundo todo”. O narrador, novato no ramo, replica: “Você quer dizer também...