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João Cabral de Melo Neto em Barcelona

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Por Ernesto Hernández Busto No verão de 1947, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto chegou a Barcelona para servir como vice-cônsul de seu país. Nesse mesmo ano, ele se tornou amigo do pintor Joan Miró e, nos meses seguintes, se relaciona com vários representantes do grupo de vanguarda catalão que, no ano seguinte, em setembro, se uniria à revista Dau al Set (Modest Cuixart, Antoni Tapiès, Joan Brossa Joan-Josep Tharrats, Joan Ponç). Até essa data, Cabral já havia publicado três de seus livros de poesia – Pedra do sono (1942), Os três mal-amados (1943) e, especialmente, O engenheiro (1945) – consumando o trânsito entre suas primeiras preocupações surrealistas e uma posterior revolução formal da linguagem poética brasileira, onde poderá incorporar as mais radicais conquistas estéticas do século XX. Apenas durante os primeiros anos em Barcelona, ​​ele publicará duas outras obras fundamentais: Psicologia da composição com a fábula de Anfião e Antíodo (1947) e o ex...

Nadja, de André Breton

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Por Pedro Fernandes André Breton. Foto: Gisèle Freund Nadja parece que foi escrito em 1927. A probabilidade contraria a afirmativa recorrente na história literária que registra o ano seguinte como a data verdadeira da existência desse livro se justifica pela voz do próprio autor. Não é o caso de uma afirmativa sobre, mas algumas das notas acrescentadas ao texto primeiro trazem a data de 1962; além disso, ele diz no texto acrescido depois de concluir uma revisão do romance que o retoque do material se dá trinta e cinco anos depois. Sim, a obra foi publicada em 1928; a versão revisada, em 1964. Um ano a mais ou a menos, a incongruência não será nem a primeira nem a única de uma obra literária. Mas, em se tratando da vanguarda a qual se filia, esse tratamento não deixa de fornecer algo de interessante. Suspensa a possibilidade autêntica do registro factual do seu aparecimento, o livro se apresenta, qual a história que relata , enquanto um objeto autônomo ou um acontecim...

A viúva, de Pierre Granier-Deferre

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Por Maria Louzada Simone Signoret tinha 50 anos na época. Alain Delon estava com 36. Duas lendas do cinema francês se encontram em La Veuve Couderc , de 1971, filme baseado em livro de uma lenda literária: Georges Simenon. Simone vinha de outro sucesso,  também  baseado em Simenon, Le chat , ao lado de Jean Gabin, dirigida pelo mesmo Pierre Granier-Deferre deste aqui. La Veuve Couderc  foi escrito por Georges Simenon, aos 35 anos, em abril de 1940. Outro famoso escritor, o francês Andre Gide, considerava este livro de Simenon como o “ápice da arte”; achava que possuía semelhança com: L’étranger (O estrangeiro), de Albert Camus (publicado em 1942). Um canal, barcaças, uma ponte levadiça, um rio com altas e velhas casas de cada lado contracenam com Alain Delon e Simone Signoret. Ela é uma mulher do campo, amadurecida pela vida e sofrimentos passados, amarga, cabelos grisalhos à vista e um corpo longe dos dias de sua juventude. Mas ainda desejável...

Sobre duas narrativas de Thomas Bernhard

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Por Joaquim Serra Extinção: uma derrocada não é um livro para qualquer cabeça. Thomas Bernhard não é escritor para qualquer leitor. Cheio de repetições, divagações longas que parecem, por vezes, quase sem sentido. Parece, mas não é. O ritmo lento parece música, uma música truncada como o espírito que escolhe guiar, pelas desventuras do homem que acorda um dia e recebe um tal telegrama com notícia de morte (“Pais e Johannes mortos em acidente. Caecilia, Amalia”), uma tal metonímia que o força a reconstruir seu passado e os interesses materiais da família que sempre se reúne em uma sala escura, e que insiste em se comportar como aristocratas. Franz-Josef Murau agora é um professor, mora longe de casa, e tem um aluno preferido: o brilhante Gambetti. Um reflexo dele, interessado e inteligente. Wolfsegg vai ficar cravada na memória do leitor. Wolfsegg, onde ele foi criado como filho de proprietários de terra ainda carrega fortes desejos – quase de vingança – pelos primeiros a...

O teatro do mundo (Parte 2)

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Por Felipe de Moraes Como explicitado na primeira parte deste texto , essa “categoria histórica”, externada como forma de práticas elocutivas das sociedades de cultura, formulou padrões que foram assimilados por uma nobreza que reagia aos avanços da burguesia ascendente (que também desenvolveria e imprimiria essa nova velocidade à literatura, desaguando no romance como gênero moderno) 1 e de uma série de movimentos religiosos que se impunham contra os dogmas do catolicismo; dogmas estes que eram completamente alicerçados pela retórica e pelo cultismo. Claro fica que esse bom falar é prática dos homens dos grandes salões, distantes que estão dos plebeus e da sua linguagem mais vulgar (aqui no sentido lato da palavra): “Mas não somente pela virtude desta divina Pito, o falar dos Homens Engenhosos tanto se diferencia daqueles da Plebe , quanto a fala dos Anjos se diferencia da dos Homens; mas por milagre dele [o falar dos Homens Engenhosos] a coisa Muda fala, o não sent...

Boletim Letras 360º #371

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DO EDITOR 1. Ao que se avista de outros países, estamos apenas no princípio de um longo tempo de dificuldades. E parece que, para nós tudo poderá se estender por mais tempo e com consequências dolorosas muito piores, devido ao empenho descoordenado entre governo e população. Enquanto pudermos, cuidemos de nós e dos que estão próximos – é um reforço ao pedido oferecido na edição anterior deste Boletim. 2. Nesse tempo, é impossível segurar uma verdade: o mercado editorial brasileiro entrará em colapso. Assim, na já longa lista de ajudas aos próximos, sempre que possível devemos incluir, nas compras de livros (e divulgação) as editoras independentes e as pequenas livrarias. Não é apenas o caso de, em grande parte, estas constituírem a única fonte de renda de uma família, é o caso de não deixar perecer o esforço, a dedicação e um trabalho que, em tempos de isolamento, se torna ainda mais necessário. 3. A seguir as boas notícias que nos chegaram nesta primeira semana de isol...