Laços, de Domenico Starnone


Por Pedro Fernandes



A que ponto somos determinados pelo outro? Qual a força dos laços que casualmente se formam entre nós e os outros? Ao que nos submetemos para manutenção de uma ordem de dominação cujas linhas são apenas aparentemente inofensivas aos rumos de nossas vidas? Como seria nossas vidas se as relações que agora mantemos não fossem essas mas outras? Estas são perguntas que se formam ao longo da leitura de Laços, um romance que se filia a uma tradição em formação na prosa romanesca contemporânea, que poderíamos designar como literatura sobre os afetos.

Numa época quando a condição do amor foi institucionalizada pela mecânica da jurisprudência e seus desenlaces explicados de maneira diversa pela psicanálise este sentimento de natureza romântica que dominou vigorosamente a cena literária desde há muito, parece desvanecer. Claro que é o amor o elemento mobilizador dos imbróglios entre pessoas dentro e fora da ficção, mas este ganha agora outros tons que o distanciam da nobreza com que uma vez foi designado.

Esse designativo de uma literatura sobre os afetos encontra fôlego em algumas produções romanescas que passarão pela memória do leitor quando confrontado com o dilema principal do romance de Domenico Starnone. Divórcio, de Ricardo Lísias, O que deu para fazer em matéria de história de amor, de Elvira Vigna e, claro, por um título de Elena Ferrante, Dias de abandono. (Laços, aliás, trata sobre o mesmo drama da separação repentina, mas, ao invés do romance de Ferrante, que se refere apenas ao caos instaurado à mulher, busca uma compreensão total sobre suas consequências: à mulher, ao homem e aos filhos). Os romances das afetividades dispensam a gênese do encanto ou a coita amorosa para vislumbrar o derreamento dos sujeitos frente ao dilema de lidar racionalmente com um sentimento que aparentemente não encontra sentido na razão. Se o amor se desenvolve à mesma maneira com todos, o desenlace nunca é medido pelas mesmas determinações. E aí está um terreno extremamente fértil para exploração da pena dos escritores.

Agora, a relação desta obra do escritor italiano com a de sua contemporânea, reconhecidamente uma das mestras na renovação do fôlego realista num universo que se julgava em profunda crise e colapso devido às diversas possibilidades assumidas pela narrativa pós anos vinte, é ainda mais vigorosa que a imediata identificação temática. O estilo de narrar preenche em tudo por tudo, curiosamente, o esquema estilístico de Ferrante – tanto que se entregar este livro sem o nome do autor a um leitor que tenha passado pela literatura da autora da tetralogia napolitana este não hesitará em dizer que é um texto dela. A simplicidade e a objetividade da linguagem são alguns dos elementos enformadores do jeito de narrar de Starnone – e que em nada têm a ver com a comparação arbitrária que algum leitor mais incauto tenha feito com a fluência da narrativa policial. Claro, Laços em nada tem de policialesco assim como o romance policial pode, em nada, ter de fluente.

Domenico está, sim, bem integrado às transformações diversas propostas pela literatura de seu tempo, da qual a fluência do texto se apresenta como um dos elementos favoráveis à composição linguística da narração. Depois disso, a disposição estrutural do narrado, embora não seja algo desse tempo, se constitui em exercício recorrente no âmbito das modificações viáveis à prosa romanesca.



Entra-se no drama de Laços não pelo desenvolvimento de uma condição até alcançar seu favorecimento e sim pelas provas principais que o justificam: um conjunto de cartas de Vanda para Aldo. As missivas são do longo período em que ele sai de casa para viver o que então só lhe parecia um envolvimento sexual. Casados muito jovens por um impulso segundo o qual os dois deviam lutar juntos por uma condição de vida melhor, o ponto de esgarçamento do enlace se oferece quando são pais de dois filhos.

Levado pela transição dos sentimentos que variam da tentativa de compreensão sobre a atitude do novo relacionamento que ameaça a unidade familiar ao conjunto de impropérios que culminam com o uso dos filhos numa chantagem emocional e da tentativa de suicídio de Vanda, o leitor, apenas desse ponto discursivo, poderá formar pelo menos duas visões sobre o episódio da separação que será esclarecido num momento posterior da narrativa: a inaceitabilidade de Vanda pelo fim repentino de um convívio assumido desde quando a vida dos dois se encontra e se torna em possibilidade de oferecer melhor alternativa ao enfrentamento das dificuldades impostas pelas circunstâncias da existência; e a opinião de que Aldo preenche o comum requisito do homem que desenvolve a responsabilidade sobre seus atos porque é individualista e, dada as atribuições culturais do macho, não se vê movido pelas cobranças que naturalmente se impõem à mulher-mãe.

Se em parte essas duas visões se sustentam ao longo do romance, no seu percurso, elas alcançam outros desdobramentos em nada sustentados pela ideia simplista que elas representam. O contato com Aldo, décadas depois do doloroso episódio, que se confunde com o reencontro dessa personagem com esse passado, nos permitirá compreender que esta é a narrativa sobre um homem perdido, incapaz de administrar-se porque sempre foi administrado pelo outro; Laços é a narrativa de um homem enovelado numa condição forjada por ele próprio e pela qual não consegue esclarecer-se, nem ser-se, embora sua condição tenha sido uma tentativa de ruptura da mesmidade para a qual regressará ainda mais submisso e entregue à correnteza do tempo; e é, por fim, a narrativa sobre uma vingança, essa corre sorrateira por debaixo da superfície do que se mostra na aparência.

O retorno de Aldo para a antiga condição, justificado por ele como uma tentativa de reparar a grande quantidade de danos que sua atitude de sair de casa casou física e psicologicamente em todos que ficaram, reafirma a característica que o define, a de passividade. Com Lidia só encontra a liberdade e não o desdobramento dela para com ele, tal como Vanda lhe propicia. É Vanda quem, numa das cartas, ressalta que a Aldo só interessa as relações que o coloquem em passiva evidência. O poder feminino aqui reduz a força masculina ao que sempre foi, apesar de não aparecer publicamente: é sustentada apenas e somente pela conjuntura que o empurrou para o centro de domínio e isso foi conseguido graças às expensas delas porque eles a adestraram para tanto. Isto é, não há, por mais que esse casal se perceba diferente e à frente dos modelos instituídos, variação alguma nos papéis secularmente fossilizados e quando tal possibilidade se assume, um e outro não sabem como agir fora das convenções.

É claro que isso assinala uma crise favorável a um momento de viagem pressentido pela maneira como os filhos do casal administram suas vidas; deles, é preciso sublinhar que a mulher terá encontrado alguma alternativa frente aos modelos que ditaram seus modos de ser, já o homem, padece entregue ao mesmo turbilhão do sem-sentido para o qual Aldo foi catapultado quando se descobre sozinho – sem Vanda, os filhos e Lidia. O silenciamento e reclusão escolhidos por ele na chance que se dá interessado em reparar o que julga como estrago do núcleo familiar, mostra uma alternativa frente a um poder sobre o qual não desenvolve uma compreensão; não o resolve.

De modo que, se não havia mais quaisquer resquícios de amor quando por força de romper o tédio ele decide aventurar-se, agora, tudo são conveniências. Aldo reconhece temer Vanda, embora também não compreenda que tipo de medo é este e repara as condições que diariamente ela o impõe com a manutenção da vida nos casos escusos longe da vista da mulher. Parece então que o amor tem, sim, prazo de validade e que os casamentos só funcionam enquanto laço de conveniência em que um e outro tentam equilibrar seus próprios ódios um do outro. Se não existe envolvimento ao acaso destituído de uma nesga qualquer de afeto – a grande descoberta de Aldo quando se vê em amores com Lidia – também não existe amor eterno e sim uma convivência mais ou menos confortável em que ambos acreditam que é a melhor alternativa frente à solidão: “Da crise de tantos anos atrás ambos aprendemos que, para viver juntos, é preciso dizer bem menos do que calamos. Funcionou. O que Vanda diz ou faz é quase sempre o sinal daquilo que esconde. E minha concordância contínua encobre que há décadas não temos nenhum tipo, absolutamente nada, de sentimento em comum”.

A descoberta disso poderá parecer a maior das frustrações, entretanto, fora desses laços – e parece que nenhum de nós estamos livres deles – o que pode nos restar de acalanto? Nada. Que a vida, esse amontoado de referências que nos determina, tal como o próprio Aldo reflete ao reencontrar todas os registros sobre si entregues ao violento caos a que são reduzidos (eles e toda a casa) depois do que pensa ter sido uma invasão de possíveis interessados na força da anarquia (a melhor surpresa do romance – diga-se), é assim feita de pequenas e grandes ilusões que se enxergadas muito de perto são pequenos nadas que tenderão a desaparecer depois da morte. 

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