Boletim Letras 360º #377



DO EDITOR

1. Outra edição do Boletim Letras 360º realizada nos tempos difíceis que atravessamos: uma doença que grassa um país sem governo e vamos escapando pelas margens com um livro na mão — até quando, não sei. Obrigado pela companhia com o Letras! Abaixo está a cópia das notícias que fizeram a semana do blog na página do Facebook.

Cornélio Penna. Dois livros mostram trabalhos até desconhecidos do público.


LANÇAMENTOS

Dois livros publicados pela recente editora Faria e Silva recolam em cena a variedade criativa de Cornélio Penna.

1. Antes de sagrar-se escritor, Cornélio Penna mostrou-se ao mundo como artista plástico e foi tema da crítica da época por suas exposições e pelas ilustrações que assinava nos principais suplementos culturais do país. Como artista sentia-se aprisionado em grades que ele mesmo acreditava ter construído, mas das quais revelava não conseguir se libertar, e esse sentimento se espelha em seus desenhos e pinturas, como poderemos ver neste volume, e como ora se aproximam e ora se afastam o Cornélio pintor e o Cornélio escritor. Em Caderno de pinturas e desenhos estão organizadas as produções artísticas de Cornélio Penna constantes do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, bem como algumas impressões que ele próprio e a crítica da época tinham de sua arte pictórica.

2. Alma branca e outros escritos reúne além dos fragmentos do que viria a ser o quinto romance do escritor, outros textos de sua autoria, publicados em tempos diversos nos periódicos de então. O livro está dividido em três partes: na primeira, o romance inacabado e a coleção de textos (contos, crônicas, artigos de intervenção); na segunda, um conjunto de entrevistas realizadas por importantes figuras, como João Conde e Lêdo Ivo; e na terceira, um conjunto de textos críticos sobre a obra de Cornélio assinados por Mário de Andrade, Afrânio Coutinho, Augusto Frederico Schmidt, Antonio Carlos Villaça, Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso, Rachel de Queiroz, entre outros. A obra encerra com um rico levantamento bibliográfico sobre a obra do escritor.

Uma reunião de quarenta poemas que dialogam com essa matéria indefinida que todos compartilhamos e concordamos em chamar de vida presente.

“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem./ A vida apenas, sem mistificação”, escreve Carlos Drummond de Andrade em “Os ombros suportam o mundo”. Selecionados por sua surpreendente capacidade de refletir sobre os dias atuais, os poemas desta coletânea tratam de solidão, isolamento, luto, incerteza, crise econômica e medo. Mas há também uma nesga de esperança. Com extraordinário talento para pensar sobre a existência individual e coletiva, o autor de A rosa do povo convida o leitor a observar o presente com outros olhos. A antologia preparada por Joziane Perdigão e Pedro Augusto Graña Drummond, Parolagem da vida: E outros poemas para o tempo presente, sai pela coleção Breve da Companhia das Letras.

Antologia reúne cinco décadas da produção de Luis Fernando Verissimo como cronista, incluindo textos inéditos em livro, outros que estão há muitos anos fora de circulação e também aqueles que se tornaram clássicos.

Lemos as crônicas de Luis Fernando Verissimo desde os anos 1970, mais precisamente desde 19 de abril de 1969, quando ele estreou na coluna Informe “Especial” no Zero Hora. Desde então, não parou mais: escreveu para inúmeros jornais e revistas, como Veja, O Globo e O Estado de S. Paulo, e suas crônicas formaram — e continuam formando — gerações de brasileiros. Da estreia em plena ditadura militar, passou pela redemocratização, viveu a revolução digital e as polarizações ideológicas e culturais que dominam o cenário sociopolítico nos últimos anos — e sempre produzindo textos oportunos e relevantes pela precisão do olhar, capacidade de síntese e pioneirismo das ideias. Às crônicas reunidas neste volume foram acrescidos alguns contos, justamente porque na obra de Verissimo essa é uma fronteira por vezes difícil de demarcar. A divisão dos textos é cronológica, década a década, mas a leitura pode ser randômica, ao gosto do freguês. E quem optar por seguir as datas esperando encontrar um ainda “embrionário” cronista se surpreenderá. Luis Fernando Verissimo estreou “pronto”, e ao longo desses anos o exercício praticamente diário da escrita só consolidou e aprimorou seu talento. Celebrar esse formidável escritor, essa é a intenção de Verissimo antológico.

O primeiro livro publicado por Mário de Andrade.

Há uma gota de sangue em cada poema saiu com o pseudônimo de Mario Sobral no ano de 1917. Apesar da discutida influência da literatura francesa, alguns dos poemas mais impactantes deste livro podem ser lidos como gritos de liberdade transnacional, para tempos objetiva ou subjetivamente sombrios. A obra do autor, posterior à publicação deste livreto de poemas, voltou-se mais à busca por uma identidade cultural brasileira que, se não vemos nestes poemas, não os desmerecem no conjunto da obra de Mario de Andrade, mas certamente os destaca, fazendo com que somente agora, com o autor entrando em domínio público, sejam reeditados na íntegra visto que, até onde tenho notícia, não fora reeditada nos anos posteriores a sua primeira edição. O livro, que recupera em parte o projeto gráfico da edição original, é publicado pela editora Faria e Silva.

A história comovente e desconhecida das mulheres coreanas na Segunda Guerra Mundial ganha vida neste romance épico, profundo e sensível sobre duas irmãs e um amor capaz de atravessar gerações.

Quando Hana nasceu, a Coreia já estava sob ocupação japonesa, e por isso a garota sempre foi considerada uma cidadã de segunda classe, com direitos renegados. No entanto, nada diminui o orgulho que tem de sua origem. Assim como sua mãe, Hana é uma haenyeo, ou seja, uma mulher do mar, que trabalha por conta própria seguindo uma tradição secular. Na Ilha de Jeju, onde vivem, elas são as responsáveis pelo mergulho marinho — uma atividade tão perigosa quanto lucrativa, que garante o sustento de toda a comunidade. Como haenyeo, Hana tem independência e coragem, e não há ninguém no mundo que ela ame e proteja mais do que Emi, sua irmã sete anos mais nova. É justamente para salvar Emi de um destino cruel que Hana é capturada por um soldado japonês e enviada para a longínqua região da Manchúria. A Segunda Guerra Mundial estava em curso e, assim como outras centenas de milhares de adolescentes coreanas, Hana se torna uma “mulher de consolo”: com apenas dezesseis anos, ela é submetida a uma condição desumana em bordéis militares. Apesar de sofrer as mais inimagináveis atrocidades, Hana é resiliente e não vai desistir do sonho de reencontrar sua amada família caso sobreviva aos horrores da guerra. Em Herdeiras do mar, Mary Lynn Bracht lança mão de uma narrativa tocante e inesquecível para jogar luz sobre um doloroso capítulo da Segunda Guerra Mundial ainda ignorado por muitos. A tradução é de Julia de Souza. E o livro sai pelo selo Paralela / Companhia das Letras.

Revisitações a Sophia de Mello Breyner Andresen.

Uma das mais importantes poetas portuguesas e seu trabalho vem recebendo cada vez mais destaque no Brasil. Em comemoração ao centenário da poeta, que aconteceu no final de 2019, Paola Poma reúne textos de diversos autores sobre a obra de Andresen, numa coletânea variada: entre correspondências com outros poetas — como João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira —, uma entrevista com o fotógrafo Fernando Lemos (autor das belas fotos que ilustram este volume), o ensaio da poeta sobre Cecília Meireles e tantos outros materiais intrigantes, o tema da distância e da proximidade está sempre presente neste extraordinário Sophia: singular plural. Nas palavras de Carlito Azevedo: “A riqueza do volume está também […] nas contribuições inéditas. Alguns de nossos melhores e mais dedicados intelectuais dão prova de que o diálogo com Sophia, em vários níveis, não se interrompe.” O livro é publicado pela editora 7Letras.

Uma leitura atenta sobre os romances de Dalcídio Jurandir do Ciclo do Extremo Norte.

O livro apresenta um panorama da história da Amazônia e analisa os romances de formação do Ciclo do Extremo Norte, do escritor Dalcídio Jurandir, obra que representa a desigualdade social e a exclusão inerentes à sociedade amazonense. Willi Bolle resgata a obra desse importante e pouco conhecido autor e ressalta sua contribuição para o conhecimento local por meio da descrição da cultura cotidiana dos que vivem na periferia da sociedade, da defesa enfática de uma educação de qualidade também para os pobres e da importância dada ao modo de falar dos habitantes da Amazônia, muito bem captado por Jurandir que constitui um documento da memória cultural da região. Boca do Amazonas. Sociedade e Cultura em Dalcídio Jurandir sai pela SESC-SP.

Neuras, traumas, obsessões, medos e amor desmesurado são os ingredientes desse livro hilariante sobre uma filha que vai virar mãe.

Aos trinta e cinco anos, Karine faz roteiros para prêmios como “Você Faz a Diferença no Setor Têxtil” ou “Prêmio Nacional de Saúde Bucal”. O emprego que não a satisfaz intelectualmente — seu sonho é escrever para o cinema — permitiu ao menos que ela saísse de seu bairro natal, o Belenzinho. Sua obsessão com sucesso financeiro é o caminho mais curto que encontrou na tentativa desesperada de se afastar da vida tacanha e neurótica de sua família. “Você nunca mais vai ficar sozinha” é a frase que ela ouve de sua mãe quando conta que está grávida de uma menina. Hipocondríaca, ela cumpre com rigor a rotina de exames pré-natais. Em intermináveis conversas com sua enfermeira predileta, Karine rememora episódios da turbulenta relação com a mãe, maldiz as agruras da gestação e antecipa o amor e os medos da maternidade. O novo livro de Tati Bernardi tem a química explosiva que só ela sabe produzir: altas doses de humor, neurose e cinismo, costuradas numa prosa ágil e inteligente que confere humanidade e empatia aos personagens mais improváveis. Neste romance intenso e hilariante, a ideia do fim da solidão que o nascimento de uma filha pode trazer parece ser ao mesmo tempo um bálsamo e uma danação.

Anfitrião, de Plauto é o novo título na coleção Clássica da editora Autêntica.

Anfitrião, de Plauto é uma comédia de mil faces: farsa mitológica sobre o nascimento de Hércules, paródia trágica, jogo de espelhos, provável influência do cogito cartesiano. Mas, acima de tudo, é uma das mais divertidas e atemporais comédias que a antiguidade nos deixou. Inspirado em modelos gregos que desconhecemos, Plauto (séc. III a.C.) nos legou uma pérola que foi alvo de imitação, reescrita, adaptação e recriação de autores como Camões, Molière, Kleist, Giraudoux, Guilherme Figueiredo, Ignacio Padilla, entre tantos outros. Nesta comédia, você verá um Júpiter morrendo de amores pela esposa de um general tebano, Alcmena, com quem ele conseguirá passar a noite mais longa de todas a fim de gerar o grande herói Hércules, usando um dos artifícios mais antigos dos mitos de nascimento de grandes heróis: transfigurar-se no marido ausente, Anfitrião. Mercúrio, faz-tudo divino, torna-se Sósia, o servo da casa, e arquiteta todo o engano. Aí está, em tradução poética magnífica de Leandro Dorval Cardoso, com sua força de riso e poesia intensos, seus padrões rítmicos recriados para os nossos ouvidos, seu vigor renovado no Brasil, um dos mais antigos e maravilhosos tratamentos do sempre atual tema do duplo.

Novo livro no catálogo do Selo Demônio Negro é o de estreia da poeta Liz Reis.

A poesia de Liz Reis só tem correspondência no surrealismo com a de poetas como Gisèle Prassinos, grega de origem e surrealista francesa a convite de André Breton. E como observou Claudio Willer, no prefácio de Sangue no candelabro, livro de estreia da autora, “a poesia de Liz Reis é escrita automática ou construção? Ambas.” Willer vê neste livro ecos de Peixe solúvel, de André Breton, e do lirismo de Benjamin Péret, em Amor sublime na poesia da autora. E como escreveu Breton: “La poésie se fait dans un lit comme l’amour.” Liz Reis sabe alternar dor e êxtase, a ambivalência do Amor e da Palavra como refinamento da criação poética, que é sempre relacionamento com outros poemas, com outros amores e mesmo com outras vidas. (Vanderley Mendonça)

Em seu novo romance, Santiago Nazarian mescla histórias do genocídio armênio a uma narrativa situada no Brasil contemporâneo para abordar com uma coragem incomum problemas de classe, etnia, gênero e orientação sexual.

Estamos numa época de minorias perseguidas, de nativos expulsos de suas próprias terras, da religião majoritária se impondo sobre um povo. Estamos no Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora; e estamos em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para Domingos, um senhor armênio, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, e na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar de que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo. Com Fé no inferno, Nazarian se firma como um exímio contador de histórias, mestre indiscutível do ritmo e da condução. Com duas linhas narrativas que se cruzam e se entrelaçam, e mesclando pesquisa histórica, folclore armênio e uma observação mordaz do Brasil contemporâneo, este romance mantém o leitor emocionado e absolutamente envolvido até seu desfecho surpreendente.

REEDIÇÕES

A Editora Nova Aguilar anuncia reedição da obra de Manuel Bandeira.

Uma caixa reúne dois volumes da Poesia completa e prosa seleta de Manuel Bandeira, considerado por muitos um dos maiores poetas que o Brasil teve e um dos escritores que mais influência exerceu no meio literário nas últimas décadas. Organizada pelo crítico literário e ensaísta André Seffrin, esta edição traz em seu primeiro volume todos os livros de poesia de Bandeira já publicados, ao lado de textos escritos em sua homenagem, uma alentada fortuna crítica sobre sua produção poética e um segmento bastante ampliado do teatro poético traduzido pelo autor, o qual havia sido parcialmente publicado na primeira edição da Aguilar, de 1958. No segundo volume, os leitores tem à sua disposição uma seleção bem representativa da inigualável prosa do escritor. Destacam-se aqui, além de importantes textos de fortuna crítica acerca da prosa de Bandeira, os livros de crônica mais célebres do escritor: Crônicas da província do Brasil, Flauta de papel e Andorinha, andorinha. Cumpre sublinhar ainda a presença neste volume de Itinerário de Pasárgada (reflexão autobiográfica de Bandeira), de seu famoso Guia de Ouro Preto e de uma compilação de seus principais escritos no campo da crítica literária e de artes.

Os lança-chamas, de Roberto Arlt é o segundo título do escritor argentino reeditado pela Iluminuras.

Romance perturbador, Os lança-chamas, se folheado ao acaso, poderia fazer alguma alma incauta pensar que está lendo uma peça de Nelson Rodrigues (1912-1980): a sexualidade inquieta, a tortura psíquica e a impossibilidade de caber em si mesmo caracterizam os personagens atormentados dos dois autores, isso para não falar na reconstrução da linguagem coloquial, sem purismos. Curiosamente, ambos os escritores se iniciaram como cronistas policiais, ainda bem jovens, e aprenderam com a violência criminosa algo sobre a natureza humana. Mas diferente do tragediógrafo brasileiro, que exterminava seus personagens monstruosos ao final das peças, Arlt é um escritor de um sadismo sem-par, capaz de sustentar por centenas de páginas o mundo em convulsão de seus personagens, inclusive transbordando-os de um livro para o outro. Assim, "Os lança-chamas" (1931), anunciado como a conclusão do romance Os sete loucos (1929), é menos uma continuação do que uma expansão da obra anterior: lá estão os mesmos personagens que, revisitados, são apresentados em mais matizes e contradições. O atormentado inventor Erdosain, que se iniciara no crime como uma forma de autoconhecimento, agora nos vai sendo reapresentado em cada vez mais aspectos: primeiro o vemos seduzido pela maldade, investigando os limites da degradação para si mesmo e para as mulheres que o cercam; logo em seguida, o narrador o reumaniza, mostrando-o em seu sofrimento psíquico, em sua infância conturbada, com gestos de grandeza e pequenez sem igual. A maestria de Arlt consiste, neste romance, em tornar impossível o julgamento por nós, leitores, de seu protagonista, que nos causa compaixão e repulsa página após página. Nem por isso estamos diante de um romance que poderia ser chamado psicológico; não falta ação no universo de Arlt: trata-se de pôr em prática um plano delirante de dominar o país a partir de um movimento liderado por um Astrólogo e bancado com dinheiro de prostituição. Escrito e ambientado em um momento político conturbado, o entreguerras, sob o contexto local do golpe militar que levou ao poder o general Uriburu na Argentina, a convulsão política está na medula do livro. Posições singulares sobre o fascismo, o comunismo, o anarquismo, a Klu Klux Klan, e discussões impagáveis sobre os melhores artefatos para um atentado terrorista (a bomba ou o gás), além da discussão sobre a atuação de figuras como Mussolini, Lênin e Al Capone, nos são apresentadas através de intensos debates dos personagens, em duelos verbais inesquecíveis. Ao entrar nas páginas de Os lança-chamas, somos convidados a nos despir de convicções políticas, preconceitos burgueses, ideias preconcebidas e nos movimentar por um território onírico onde nada, nem nossa autoimagem, se mantém intacto ao fim da travessia.

Reimpressão da edição sem cortes de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

O retrato de Dorian Gray (1891) é um anúncio do século XX e da modernidade, pelo qual Oscar Wilde pagou um preço caro ― além de sofrer censura, viu sua obra-prima usada como “prova” contra si no processo de “flagrante indecência” que o levou à prisão. Nesta edição, Nicholas Frankel, organizador e autor das introduções e das notas, reconstitui o romance a partir do original datilografado ― ou seja, eliminando toda a censura que o livro sofreu até que chegasse ao público, e constrói pela primeira vez a versão que Wilde gostaria que estivéssemos lendo hoje. Essa espécie de mito de Fausto tornou-se um clássico da literatura mundial pelo refinamento da escrita e pela universalidade do tema. Com uma destreza de estilo ímpar, Wilde cria frases lapidares com um humor ácido e um olhar astuto, criticando ferrenhamente a hipocrisia de uma sociedade que passava por transformações muito rápidas. Publicado pela Biblioteca Azul / Globo Livros, a tradução de Jorio Dauster há algum tempo esgotada volta às livrarias.

OBITUÁRIO

Morreu a escritora Maria Velho da Costa.

Considerada uma das vozes renovadoras da literatura portuguesa desde a década de 1960, Maria Velho da Costa é autora de conto, teatro, mas sobretudo do romance como obras como Maina Mendes (1969), Casas pardas (1977) e Myra (2008). Foi uma das co-autoras, juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, de Novas cartas portuguesas (1972), uma obra literária que denunciava a repressão e a censura do regime do Estado Novo, que exaltava a condição feminina e a liberdade de valores para as mulheres, e que valeu às três autoras um processo judicial, suspenso depois da revolução de 25 de abril de 1974. Pela sua obra, recebeu inúmeros prêmios, entre eles, o Prêmio Camões em 2002. Nascida em Lisboa, em 1938, Maria Velho da Costa faria 82 anos no próximo dia 26 de junho. A escritora morreu neste 23 de maio de 2020 em Lisboa.

DICAS DE LEITURA

1. Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. A tradução de Flora Thomson-DeVeaux para o inglês ganha edição no mês de junho pela Penguin com textos da própria tradutora e de Dave Eggers. Na descrição oferecida pela casa editorial se diz que esta é a primeira vez que uma tradução para o inglês inclui um conjunto variado de notas esclarecendo para os leitores o contexto histórico-cultural da narrativa e preserva a organização dos capítulos conforme a edição original. Esse acontecimento ganhou o noticiário sobre livros aqui no Brasil ― é sempre bom saber que os gringos têm a chance de descobrir o que nomes como Susan Sontag, Allen Ginsberg, John Updike ou Philip Roth, para citar os estadunidenses, já haviam definido como uma das obras fundamentais da literatura universal. Em situações contrárias, sabemos, essa reação como registrada de nossa mídia não acontece. Mas, poderíamos pegar carona na repercussão para voltar (ou se ainda não conhece, ir) a este romance celebrizado pela maneira inusual, até então, como é narrado: é a voz de um narrador defunto que se dedica a recontar o legado da sua / nossa miséria. Ao contrário dos leitores em língua inglesa temos o privilégio de ler o romance no original e são muitas as edições aqui publicadas, das disponibilizadas gratuitamente no Domínio Público a uma publicada pelo selo Penguin / Companhia das Letras.

2. Dona Josefa, de Ana Luisa Escorel. Este é um romance breve, de linguagem livre e num maravilhoso tom de crônica que nos leva a 1842 pelo interior de uma rebelião contra a política do ministério conservador de Pedro II. Por cerca de dois meses os rebeldes mineiros influenciados pelos paulistas que deram início ao movimento enfrentaram o exército do barão de Caxias que veio a derrotá-los. Nas páginas da história, o episódio ficou conhecido como Revolução Liberal de 1842 e uma de suas figuras principais em Minas foi Josefa Carneiro de Mendonça, de família influente, dona de terras e de escravos, que assumiu a liderança da luta no Araxá e no oeste da Província aos 60 anos de idade, planejando golpes, aliciando, armando combatentes e dando todo o tipo de suporte aos revoltosos. Presa, passou quase três meses em uma solitária úmida e escura, foi julgada e inocentada graças à habilidade de seu defensor que fez convergir para um dos filhos – chefe revolucionário também – todas as acusações atribuídas a ela. Sobre Josefa pouco se conhece além das raízes familiares, da descendência numerosa e da mudança para Petrópolis com a família depois da derrota liberal em Minas. É essa história que o romance publicado pela editora Ouro Sobre Azul recria e reinventa valendo-se de toda a liberdade que a imaginação literária permite.

3. As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira. Este é o quarto livro do poeta e colunista do Letras; antes dele, vieram Distraído (Pinaúna, 2014), Debaixo do vazio (Córrego, 2016) e Contações (Patuá, 2018). Envolto pela memória do avô, a partir da impossibilidade de acompanhá-lo no fim de sua vida, o poeta revive situações, convívios, afetos, paisagens e supõe o trânsito para morte sempre situado entre o vazio e a solidão que fica ou é parte dos vivos. Esta antologia tem uma força própria; nasce no solo para o qual a ética do poeta é encontrar outras possibilidades de habitar o mundo pela palavra. E nos cobra a pensar que este mundo outro modifica silenciosamente o mundo vigente. O livro aqui recomendado foi publicado no início de 2019 pela Editora Patuá.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Materiais inéditos de Roberto Bolaño online. Desde a grande exposição realizada em 2013 que uma série de materiais ainda não conhecida do público e que forma parte do arquivo escritor chileno tem sido revelada e publicada. Deles, saíram dois livros e uma variedade de novos poemas que ampliaram a sua poesia reunida. A Alfaguara espanhola, em grande parte responsável pela mostra desse material, preparou um pequeno arquivo com reproduções de manuscritos do autor e suas respectivas transcrições (em espanhol): são poemas e excertos até então não conhecidos do público. O material fica disponível online por tempo limitado e para acessá-lo é preciso realizar um breve cadastro. 

2. A publicação, em 1972, das Novas cartas portuguesas, de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, entregou as autoras e o editor responsável pela obra a um longo processo pela ditadura militar que acusava o livro de ser pornográfico e atentar contra a moral dos portugueses. Esta entrevista ao jornalista Fialho Gouveia data de quando tudo começou. A absolvição viria dois anos mais tarde, quase um mês depois da queda do Estado Novo. (Arquivo RTP). 

BAÚ DE LETRAS

1. No blog, publicamos algumas notas para um perfil sobre Maria Velho da Costa. Publicado na segunda-feira, 25 de maio, nele, se ressalta a criatividade que ampliaria as inovações estéticas e formais da arte de narrar. Visite aqui

2. Em 2010, reproduzimos estas notas que assinalava a reedição das Novas cartas portuguesas. Então, as livrarias portuguesas recebiam um trabalho de longa data executado por Ana Luísa Amaral: a edição crítica do livro que marcou toda uma geração. 

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Comentários

Vinícius Gomes disse…
Muito boa a frase "tempos difíceis que atravessamos: uma doença que grassa um país sem governo. Vamos escapando pelas margens com um livro na mão".

Parabéns pelo blog e por manter o Boletim para aqueles que não querem estar nas redes sociais.

Abraços!

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