Um rodapé dostoievskiano

Por Davi Lopes Villaça 




Das várias estranhezas que compõem as Memórias do subsolo (1864), de Dostoiévski, gostaríamos de chamar a atenção para aquela discreta, mas muito significativa, nota de rodapé, assinada pelo autor, logo no início da narrativa, na qual ele que nos assegura do caráter ficcional de sua novela:

“O autor das memórias e as próprias ‘memórias’, é claro, são inventados. No entanto, pessoas como o autor destas memórias não só podem como devem existir em nossa sociedade, levando em consideração as circunstâncias em que nossa sociedade, em geral, se desenvolveu. Eu queria apresentar ao público, com mais destaque do que o habitual, um dos tipos humanos de nosso passado recente. Trata-se de um dos representantes de uma geração que ainda vive. Nesta parte, intitulada ‘Subsolo’, essa pessoa apresenta a si mesma, seus pontos de vista e, de certa forma, quer esclarecer os motivos pelos quais ela surgiu, e tinha se surgir, em nosso meio. Na parte seguinte, virão as ‘memórias’, propriamente ditas, desta pessoa, acerca de certos acontecimentos de sua vida.” (2009, p. 14)

Parece que Dostoiévski julgou oportuno explicitar, logo de saída, algo que o leitor deveria entender por conta própria. Talvez temesse que sua narrativa não fosse devidamente compreendida. Aliás, não sem razão, se considerarmos a história da recepção da novela, repleta de dificuldades e divergências interpretativas, sobretudo no que diz respeito à relação entre autor e narrador. Mesmo hoje não há um consenso perfeito, por parte da crítica, sobre a posição que Dostoiévski assume em relação a seu anônimo herói-narrador, que se convencionou chamar de “homem do subsolo”. Mas para os primeiros intérpretes a situação era particularmente crítica: muitos sequer atentaram à existência de uma dissonância entre essas duas vozes, como se elas fossem, na verdade, uma só. O biógrafo Joseph Frank aponta que foi só em 1929 que um crítico russo de nome Aleksandr Skaftimov centralizou a questão de saber se em que medida o homem do subsolo era um porta-voz direto dos pontos de vista de seu criador — para chegar à conclusão de que Dostoiévski estava falando não apenas através de seu angustiado narrador, mas também sobre ele (2002, p. 431). 

Frank sustenta que a nota introdutória era justamente uma tentativa, por parte do autor, de distanciar sua pessoa da figura de seu anti-herói, mas resultou demasiado singela para cumprir tal objetivo. Podemos lhe dar razão, se bem que esse fracasso provavelmente tem menos a ver com a singeleza da nota do que com a complexidade do herói dostoievskiano: vertiginoso abismo de dúvidas, contradições e hesitações, esquivo a toda tentativa de definição, encarnado num discurso que ameaça afogar-nos em seu turbilhão negativo. Em suma, uma imagem bem acabada da desorientação que assombra o desenraizado homem moderno, e que ameaça privá-lo dos últimos parâmetros e limites pelos quais ele outrora teria se guiado.

O cristão Dostoiévski esperava poder superar esse caos pelo reenraizamento, seu e de toda a sociedade “instruída”, na fé e na moralidade do povo simples. Salvação essa, no entanto, da qual nem ele parece inteiramente convicto. Personagens “negadoras” como o homem do subsolo são sempre mais do que representações satíricas dos males provocados pelo “niilismo” e pelo ateísmo que Dostoiévski estava combatendo; são, também, criações pelas quais o autor se permite viver, com mais liberdade do que de costume, toda as dúvidas e toda a descrença que jamais deixaram de assombrá-lo, mesmo que ele nunca tenha se rendido a elas. E se achamos difícil precisar que atitude o autor assume em relação à personagem, é provavelmente porque nós mesmos, em primeiro lugar, não sabemos que posição assumir em relação a ela, de tal modo nos perdemos em seu labirinto, que, no final das contas, é também o nosso.  

Qualquer que tenha sido, porém, o objetivo primeiro da nota de rodapé, faríamos mal em tomá-la como mera advertência ao leitor. Pois nela se faz ouvir também algo como um pequeno manifesto literário, um minitratado de verossimilhança. Trata-se, realmente, de uma explicação, porém não apenas da identidade ficcional do narrador, mas principalmente sobre o sentido e o valor que Dostoiévski atribui à literatura.

Para o tradutor Boris Schnaiderman, em seu prefácio à novela, tal nota, ao afirmar a obra como invenção, representa, ela mesma, um fato original, uma ruptura com o padrão: “pois, se nos escritos da época aparece às vezes um questionamento do princípio de verossimilhança, uma declaração tão peremptória e extremada punha em questão o próprio estatuto da literatura, em sua relação com o representado” (2009, p. 11). Realmente, não era muito comum para os autores do século XIX pôr em evidência a ficcionalidade das obras. Uma vez que se assumia que era objetivo da literatura assemelhar-se à realidade e produzir no leitor certa impressão de verdade, parecia sensato, para atingir esse efeito, disfarçar sua natureza ficcional, mesmo que sem negá-la.  

Exemplo disso é a novela Diário de um homem supérfluo (1859), de Turguêniev, um dos vários textos em que Dostoiévski se inspirou para a composição de Memórias do subsolo. Trata-se da confissão de Tchulkaturin, um jovem doente e moribundo, que dedica seus últimos dias a anotar a triste história de sua existência sem sentido e desnecessária (“supérflua”). Nas últimas linhas de seu relato, o narrador se julga prestes a morrer. Em seguida, deparamo-nos com uma “nota do editor”, dando-nos alguns detalhes sobre o manuscrito do diário do senhor Tchulkaturin e comunicando-nos que ele de fato veio a falecer no dia tal do mês tal. Trata-se, nem é preciso dizer, de uma moldura ficcional, que envolve, além da narrativa do herói, sua posterior publicação, bem como o próprio fato de agora a estarmos lendo. É claro que Turguêniev não pretende nos enganar, fazendo sua novela passar por uma história real. Ele simplesmente busca facilitar o processo pelo qual nós, também, tomamos parte no jogo ficcional. Sempre que lemos um romance, firmamos um pacto com seu autor: este se propõe a contar mentiras (isto é, ficções) como se fossem verdades, e nós nos dispomos a acreditar nelas.

Já o Dostoiévski de Memórias do subsolo parece tentado a rasgar esse contrato. E se de fato o faz, parece que é por levar a literatura a sério demais para tratá-la como simulacro da realidade. Para ele, a ficção aspira não à imitação de uma realidade objetivamente observável, mas à representação da verdade que subjaz à superfície dos fatos, às aparências do cotidiano. Sobre isso ele mesmo viria a escrever em diversas ocasiões, como em sua resposta a alguns críticos do romance O idiota, que julgaram seu herói inverossímil:
 
“Eu tenho minha concepção de real (em arte), e aquilo que a maioria chama quase de fantástico e excepcional para mim constitui, às vezes, a própria essência do real. O rotineiro dos fenômenos e a visão estereotipada dos mesmos, a meu ver, ainda não são realismo, são até o contrário… Porventura meu fantástico Idiota não é realidade, e ainda a mais rotineira!? Ora, é precisamente neste momento que deve haver semelhantes caracteres em nossos segmentos sociais desvinculados de sua terra, segmentos esses que, na realidade, se tornam fantásticos.” (apud BEZERRA, 2015a, p. 15) 

É necessário, mais do que mera atenção, verdadeira intuição artística, um talento criativo, para captar que o autor chama de “essência do real”, a que a literatura se empenha em dar forma. Sobre isto ele escreveria no seu artigo “Dois suicídios”, de 1876, no qual a ideia de observação parece se confundir com a de criação: 

“Investigue algum fato da vida real, mesmo que não seja o mais incrível à primeira vista, e se o senhor tiver olhos e forças, descobrirá neles uma profundidade que não existe em Shakespeare. Mas a questão consiste no seguinte: aos olhos de quem e com as forças de quem? Não apenas para criar e escrever obras literárias, mas para simplesmente notar o fato é preciso ser também como que um artista.” (2017, p. 354) 

Percebe-se como ficção e verdade não são, para Dostoiévski, conceitos contraditórios, nem excludentes, como ele já dera a entender em sua nota a Memórias do subsolo. Se o autor, num primeiro momento, proclama que sua história é inventada, nos assegura, no instante seguinte, que ela é verdadeira — que pessoas como o homem do subsolo não só podem mas devem existir em sua sociedade. O que soa um pouco como o provérbio espanhol: no creo en las brujas, pero que las hay, las hay. Dostoiévski parece dizer: o homem do subsolo é invenção minha, mas que existe, existe. Essa existência lhe parece assegurada pela consideração ou, melhor dizendo, por uma artística intuição acerca das “circunstâncias em que nossa sociedade, em geral, se desenvolveu”.  

Vale lembrar que Memórias do subsolo é também uma sátira das teorias deterministas da época, que descreviam o ser humano como produto direto e inevitável do meio, destituído de qualquer vontade pessoal e de livre-arbítrio. Embora Dostoiévski fosse um ferrenho opositor dessas perspectivas reificantes, ele próprio estava sempre chamando a atenção para as raízes sociais e históricas dos dramas que estava representando. É o que ele faz em sua nota de rodapé, ao observar que, na primeira parte da novela, sua personagem “quer esclarecer os motivos pelos quais ela surgiu, e tinha de surgir, em nosso meio”. Tinha de surgir, entretanto, não como um produto ordinário da realidade, mas como uma extraordinária síntese de suas questões e contradições. 

As grandes personagens dostoievskianas nunca são apenas representações de certo tipo social. São, primeiramente, uma síntese daquilo que na sociedade existe tanto como realidade quanto como potencialidade — o que lhes confere, por vezes, certo caráter “profético”. São, nesse sentido, mais do que típicas, arquetípicas. Que pessoas como o homem do subsolo possam de fato ser encontradas andando na rua, isso, na verdade, não importa muito. O que importa é que, na sua forma, condensada, a personagem expressa parte significativa do drama que se encontra diluído por toda a sociedade (o “subsolo”, símbolo maior do isolamento e da alienação do indivíduo moderno, é, antes de mais nada, um lugar coletivo). Dostoiévski aprofundaria essa ideia no pequeno prefácio que escreveu a Os irmãos Karamázov, observando a propósito de seu “excêntrico” protagonista, Aliócha:

“Não só o excêntrico ‘nem sempre’ é uma particularidade e um caso isolado, como, ao contrário, vez por outra acontece de ser justo ele, talvez, que traz em si a medula do todo, enquanto os demais viventes de sua época — todos, movidos por algum vento estranho, dele estão temporariamente afastados sabe-se lá por que razão”. (2015a, p. 13) 

Esse é também o sentido da “excentricidade” de uma personagem como o homem do subsolo, como já aparece sugerido na nota de rodapé, e como o próprio narrador, por fim, explicita, investindo contra seu público: “no que se refere a mim, apenas levei até o extremo, em minha vida, aquilo que não ousastes levar até a metade sequer, e ainda tomastes vossa covardia por sensatez, e assim vos consolastes, enganando-vos a vós mesmos”. Percebe-se, assim, o nada modesto papel que Dostoiévski atribui à literatura e, de modo mais geral, à ficção, que, em seu compromisso com a verdade, trabalham para desanuviar a névoa produzida pelo “rotineiro dos fenômenos” e pela “visão estereotipada dos mesmos”, em que indolentemente nos deixamos enganar.  

Bibliografia citada

DOSTOIÉVSKI, F. M. “Dois suicídios”. In: Contos reunidos. Tradução de Priscila Marques. São Paulo: Editora 34, 2017. 
DOSTOIÉVSKI, F. M. O Idiota. Tradução e prefácio de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015a. 
DOSTOIÉVSKI, F. M. Os irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015b. 
DOSTOIÉVSKI, F. M. Memórias do subsolo. Tradução e prefácio de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009. 
FRANK, Joseph. Dostoiévski – Os Efeitos da Libertação (1860-1865). Tradução de Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Edusp, 2002. 

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