Vingadores: Guerra Infinita, de Anthony Russo e Joe Russo

Por Wagner Silva Gomes



A Marvel Comics (1939) e a DC Comics (1934), as duas maiores editoras de quadrinhos, que se lançaram em outros ramos, dentre eles o cinema, por incrível que pareça têm ganhado destaque nas discussões políticas. Se há gente de direita detestando a inclinação ideológica progressista que se tornou visível com os filmes Mulher Maravilha (2018) e Pantera Negra (2018), muita gente de esquerda começa a se interessar e olhar com outros olhos para esse universo.

Pense no atual presidente do país que dízima populações imensas do Oriente Médio se achando o dono da terra. Não será difícil relacioná-lo a Thanos. Pense no sistema político-econômico que pós-Guerra Fria se enfraqueceu e se perdeu, dependendo de ações de três ou quatro países na resistência e de bravos companheiros engajados pelo ideal. Não será difícil relacioná-lo ao machado de Thor nem será difícil relacionar os bravos companheiros aos super-heróis da Marvel e da DC.

Um Capitão América que se veste de preto e é amigo do Pantera Negra mostra que assumiu lutar pelos oprimidos. Seja esse detalhe de figurino, em relação a etnia negra, seja o tratamento reverente e inclusivo ao ator Peter Dinklage, o Tyron de Games of Thornes, que tendo nanismo é filmado a todo o tempo em plano contra-plongée (de baixo para cima), só ele aparecendo gigante, já que perto dele os outros atores são filmados em plano plongée (de cima pra baixo). Quem olha para Peter Dinklage vê que ele é realmente um gigante digno de ser reverenciado. Bela sacada da direção jogar com a altura do personagem metaforicamente. Não fosse a não aceitação de um genocídio na Terra talvez os oprimidos não fossem percebidos como tais.

É visível que o filme segue a linha mitológica grega do confronto em que os titãs se rebelam contra os deuses, a exemplo de Cronos que decepa os órgãos genitais de Urano, afastando assim pai e mãe,  ou seja, o céu da terra.

No filme é Thanos, personagem da Marvel Comics, o imperador da Via Láctea e adorador da morte, quem aproveita o momento de fraqueza de Thor, Deus do céu, que está sem seu machado e consequentemente sem seus poderes, para descer à Terra e dizimar metade da população humana, que segundo ele era uma forma de manter o equilíbrio no planeta, já que a natalidade é alta e a mortalidade é baixa.

Thanos é o contrário do semideus Asclépio, filho de Apolo, que ao dominar a medicina e conseguir do sangue da veia esquerda da medusa ressuscitar a quem o tomasse, prolongou os anos de vida de muita gente na terra, se tornando o patrono da medicina. Asclépio tinha a possibilidade de usar o sangue da veia direita da Medusa, que tinha o poder de matar, para acelerar a morte. No entanto nunca o usou. Thanos como adorador da morte escolheria de cara usar o veneno ao invés da cura.

Thor acha a atitude de Thanos descabida, pois além de querer se vingar dele, que o tentou matar, não cabia a ele tirar a vida das pessoas, e sim as orientarem após a morte. Para impedi-lo o deus do céu tinha ao seu lado algo parecido com os semideuses, isto é, uma dezena de super-heróis.

Para executar seu plano Thanos precisa pegar os anéis do infinito, do espaço, do poder, da mente, e a anel da realidade. Do cajado de Thor ele consegue as pedras do infinito, do espaço e do poder. Da pedra de Lóki, irmão de Thor e, dentre outras coisas, deus da mentira, ele consegue a pedra da mente. Então só precisa pegar na Terra o anel do tempo, que está com o Doutor Estranho. Não fosse este o abridor de portais e manipulador da física um adversário à altura. 

Daí o melhor desafio ser entre o Doutor Estranho e o Thanos, pois a batalha mais forte é no plano das ilusões. Quem controlará melhor as leis da física a ponto de vencer o outro?

Não quero aqui contar o final, mas como o infinito é cíclico e no cosmo existem lugares que economicamente e populacionalmente conseguem atingir um equilíbrio em termos de distribuição de renda e bem-estar, deixo com esse pensamento um estímulo à curiosidade. 

Ah, tem cena secreta após os créditos e é uma chave para entender a projeção de futuros filmes.

Chave de resposta: cidade; início; mas há mais de uma cidade e só um início.

Ah vai, ficou fácil. Vai ver o filme!

***
Wagner Silva Gomes é praticante e amante do olhar periférico da molecagem que enxerga as coisas poeticamente. É licenciado em Letras-Português pela UFES com o trabalho de conclusão Objeto Palavra: um vagar entre matéria e pensamento na poesia de Casé Lontra Marques e pós-graduado em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Faculdade Estácio de Sá com o trabalho de conclusão A Condição Humana em Psicose. É poeta, romancista, professor e educador social. Publicou o romance Classe Média Baixa (Editora Pedregulho, 2014), o romance em formato digital Nix: Microfone por Tubos de Ensaio (Amazon 2017) e o livro infantil A Arrebolha na Boca da EDP Rainha, também em formato digital (Amazon 2017). Figura na décima edição da Revista Escala, nas coletâneas Osso de Escrever e Sabadufes, e em participações em saraus como o Poesia na Calçada e a Cachaçada Literária. Escreve frequentemente nas redes sociais poemas e magmas para possíveis assentamentos literários. Foi integrante do programa da rádio universitária Teatro dos Desoprimidos com o personagem Malcolm X.


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