O que aprendemos com o filme "Parasita"


Por Antonio Alves



Parasita se destacou no mundo da cinematografia não apenas por ser um filme sul-coreano e ainda assim ter conquistado várias categorias no Oscar, incluindo o prêmio de Melhor Filme (o primeiro gravado em linguagem não inglesa a conseguir a façanha), mas também por sua difícil identificação de gênero, transitando entre cenas de comédia, romance, suspense e terror. Por fim, o filme foi responsável por fazer severas e inteligentes críticas à frenética ascensão do capitalismo, abordando temas como a desigualdade social e a banalização das aparências, além de levantar reflexões sobre qual seria o verdadeiro papel e lugar de cada indivíduo na sociedade.

Apesar do filme tratar de questões particulares de cada família e personagem, podemos generalizar a questão em muitos aspectos. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt (1906 – 1975), durante o século XIX, países como Inglaterra e Estados Unidos adotaram a política do imperialismo, que basicamente consiste numa política de expansão ilimitada, onde entendia-se que os “limites do globo” eram sérios obstáculos para a evolução do capital. Eis que grandes potências partiram para o continente africano e para pequenos países orientais; a ideia era uma só: unir o “capital supérfluo e a mão de obra supérflua”. Esses locais, segundo Arendt em Origens do totalitarismo, tornaram-se um “paraíso de parasitas” (p. 223). O motivo é bastante claro: os países mais potentes encontraram ótimos hospedeiros para se dominar... exatamente o que acontece na ficção sul-coreana, no entanto, de forma invertida, já que no filme os parasitas são os pobres e não os ricos.

Segundo o historiador francês, Fustel de Coulanges (1830 – 1889), em A cidade antiga: “Em Atenas, os cidadãos que se sentavam à mesa sagrada ficavam momentaneamente revestidos de caráter sacerdotal e chamavam-se Parasitas; essa palavra que atualmente tem caráter pejorativo, começou por ser considerada um título sagrado” (p. 125). A história é simples: todos os dias banquetes públicos deveriam ser ofertados aos deuses. Os cidadãos que participavam dos banquetes eram como parasitas do ofertório ao deus em questão; sendo assim, na Grécia antiga, ser um parasita era motivo de honra e orgulho, era o mesmo que banquetear-se junto de um deus. Não é bem isso o que acontece no filme ganhador do Oscar de 2020, afinal, ninguém da família Kim sente orgulho em ser um parasita, pois ainda que fiquem momentaneamente felizes com as regalias que conquistam diante das oportunidades que vão lhes aparecendo, a trama desvenda nuances que nos dão a entender que ser um parasita não é apenas uma questão de escolha, mas também de necessidade.

Uma das cenas mais emblemáticas do filme, é o momento em que o filho do casal “hospedeiro” se decide por dormir em uma barraca no jardim: a chuva não lhe atrapalha, e sua condição de nobreza lhe protege mesmo estando do lado de fora e em meio ao temporal... Do outro lado da cidade e num bairro do subúrbio, vemos a família Kim afundada em lama e perdendo sua casa, suas roupas e todos os pertences.

É impossível assistir ao filme Parasita e não refletir minimamente sobre os problemas causados pelo capitalismo. Eis que admitir e dizer isso não é estampar ideologias ou firmar-se politicamente; devemos entender que criticar o capitalismo, não necessariamente implica em estar apto a soluções socialista ou anarquistas, mas sim que o puro exercício de reflexão diante da realidade que nos cerca é necessário, pois a ascensão desmedida do capital não promove apenas a riqueza material e a desigualdade social, mas também aquilo que mais incomoda: o colapso da solidariedade.

No final das contas, somos todos parasitas do mundo e tudo que nos cerca tem um valor de transformação. Visamos o crescimento pessoal, o aumento dos bens materiais, a felicidade etc., essas coisas sempre dependem do mundo — sempre acontecem dentro do mundo. Mas aí surge um grandíssimo problema: outras pessoas também fazem parte do mundo e competem conosco. A conclusão é que quando em prol da competitividade desmedida, perdemos o respeito e o carinho pelos outros, deixamos de ser humanos para sermos somente parasitas.  

De modo geral, a maior lição que tiramos do filme sul-coreano é que tanto ricos como pobres são parasitas do mundo, no entanto, os ricos são parasitas mais fortes, e por isso conseguem mais e vivem melhor, enquanto os pobres, parasitas mais fracos, conseguem menos, e então, o filme veio para genialmente mostrar que um pobre quando se utilizando de muita malandragem, pode fazer um rico comer em suas mãos... o que provavelmente só seja possível na ficção. 


Comentários

Excelente texto e reflexão. Desprovido de paixão ideológica cega, porem provido de humanidade e realidade na carne. Parabéns

Luciano Plínio Rocha

Postagens mais visitadas deste blog

A tradição da peste na literatura. Treze obras literárias

Aquela água toda, de João Anzanello Carrascoza

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Quinze mulheres da literatura brasileira

Boletim Letras 360º #366

As palavras interditas, de Eugénio de Andrade

Joker