Chotaro Kawasaki, o escritor japonês que escrevia à luz de uma vela sobre caixas de cerveja

Por Marta Ailouti




 
Autor periférico, referência fundamental do “romance intimista” no Japão do século XX, quando Chotaro Kawasaki tinha 40 anos passou a morar num barraco ao lado da casa dos pais na pequena cidade portuária de Odawara, antigo armazém que era usado para armazenar redes e outros instrumentos de pesca. Ali, sob a luz de uma grande vela e sobre alguns engradados de cerveja vazios, o escritor japonês dedicou horas e horas àquele trabalho pelo qual sacrificou toda a sua vida.
 
“Durante os dez últimos anos ele vive em um barraco de tábuas e telhado de zinco”, escreveu num de seus contos. “Nas noites de vento e chuva termina ensopado, apesar disso continua lendo e escrevendo sobre uma mesa feita de engradados de cerveja. Conta apenas com alguns pincéis e uma caneta para escrever, mas graças à inflação do pós-guerra ele consegue viver dos parcos lucros de sua escrita”.
 
Reivindicado por Kenzaburo Oē como um autor “irrepetível cuja obra não envelhece”, o Prêmio Nobel disse certa vez sobre ele que com sua escrita conseguiu o impossível para os outros: voltar repetidamente ao mesmo evento e fazer de cada vez uma nova história.
 
Praticamente desconhecido no Ocidente, onde permaneceu inédito até agora, a editora Fulgencio Pimentel, junto com os tradutores Yoko Ogihara e Fernando Cordobés, resgata sua obra em O bairro do incenso, título que compila os contos que o autor japonês escreveu entre 1925 e 1977.
 
Seu estilo está enquadrado no âmbito da ficção do eu japonesa, um tipo de literatura confessional e pessoal onde os acontecimentos da história que é narrada, por mais indizíveis que pareçam, correspondem aos acontecimentos vivenciados pelo autor, que narra abertamente e sem hesitações.
 
É nesse sentido que a vida e a determinação literária de Chotaro Kawasaki, que nasceu em 1901 numa família humilde de Odawara, ganham ainda mais força. Expulso do ensino médio por roubar um livro da biblioteca, o escritor dedicou-se por algum tempo a entregar peixes até que em 1922 decidiu deixar o emprego da família para se estabelecer na capital japonesa.
 
“Era o primogênito de uma família que mantinha uma humilde peixaria, um tipo incapaz de desistir do sonho de se tornar um escritor que mal havia saído da liteira onde carregava o peixe, havia deixado o quimono curto de trabalho sem lapelas e tinha ido para Tóquio”, recordou em 1925 em seu primeiro conto publicado.
 
“Sem título”, assim chamou, era a crônica da relação entre uma garçonete e um jovem com aspirações literárias. Como ele, Kawasaki renunciou ao legado da família e nunca mais considerou seu retorno, apesar do fato de que aquela aposta quase doentia na literatura raramente lhe devolveu um bilhete premiado.
 
Incapaz de desistir de seu sonho
 
Foi em 1929, diante de dificuldades financeiras, que ele precisou deixar Tóquio e voltar para sua casa em Odawara. Quatro anos depois, seu pai faleceu de um câncer de estômago, deixando seu irmão mais novo no comando dos negócios da família. Despediu-se dele com um belo episódio em “A morte de meu pai”: “Uma semana antes do fim, ele entrelaçou as mãos para contemplar um pedacinho de mar além do jardim, depois as colocou no peito e pediu que o colocassem de frente para o teto. Silenciosamente, estava se preparando para morrer. Não pronunciou uma única palavra de medo ou angústia diante de um mundo desconhecido.”
 
A essa altura, Kawasaki já carregava uma certa sensação de fracasso, um sentimento que, de alguma forma, acabaria por acompanhá-lo ao longo de sua escrita. “Fazia dez anos que eu saíra de minha cidade natal” — lamentou-se justamente neste texto sobre seu pai. “Em todo esse tempo, apesar de ter trilhado meu caminho, não consegui construir uma reputação, ganhar dignamente a vida, liderar uma existência estável, a última esperança de meus pais, afinal, para seu filho rebelde. Tinha mais de trinta anos e ainda era solteiro. Não tinha talento para ganhar dinheiro, e os tempos difíceis em que vivíamos me forçaram a retornar à minha cidade em mais de duas ocasiões, incapaz de pagar o aluguel do quarto que alugaram na casa de hóspedes de Tóquio onde me hospedava”.
 
Foi numa dessas viagens à sua cidade natal, possivelmente, que Kawasaki mostrou ao pai uma revista com um dos seus contos. “Quanto você ganha com isso?”, conta que o havia perguntado. “Para o bem ou para o mal, a literatura era a única coisa que eu tinha na vida. As pessoas de cultura muitas vezes desprezam os comerciantes por sua obsessão por dinheiro. Meus pais não eram diferentes. Eles entendiam minha vocação como uma maneira simples de ganhar a vida, sem muito significado. E acabei desenvolvendo um complexo de inferioridade em relação a eles, justamente por causa do meu modo de vida”, refletiu em seus escritos.
 
As dificuldades literárias e seu serviço na guerra
 
Em 1934 publicou seu primeiro livro e também começou a colaborar com uma agência de notícias. Finalista do Prêmio Akutagawa — o prêmio literário de maior prestígio no Japão — sua antologia Flores murchas, de 1936, onde descrevia o drama das prostitutas do bairro dos prazeres de Tamanoi, foi bem recebida.
 
O mesmo aconteceu com seu título posterior, Árvore nua (1939), onde se inspirou no diretor de cinema Yasujirō Ozu para construir um de seus personagens. Com cineasta japonês, que o escritor conheceu em um spa, mantinha uma relação peculiar: ambos compartilharam, por quase uma década, a atração pela mesma gueixa, o que levou o escritor a compor uma série de histórias sob o título de Série de Ozu.
 
Mais tarde, narrou em À beira do caminho, “um de seus colegas ganhou o Prêmio Akutagawa e se tornou uma celebridade no mundo. Ele não teve tanta sorte. Perdeu o emprego, o abandonaram, afundou na escuridão. Mal recebia duas ou três encomendas de revistas literárias ao longo do ano e elas lhe pagavam muito pouco em dinheiro. A situação o obrigou a reconhecer a limitação de seu talento”.
 
Na década de 1940, durante a Guerra do Pacífico, foi recrutado para limpar valas e carregar caixotes. “Antes de receber a convocação, dedicava-se a escrever romances, mas, como não dava para comer, também colaborava com uma agência de notícias e mal se sustentava”, contou em “Soldado raso”. “Depois de viver um tempo Tóquio, havia retornado à sua cidade natal, onde se instalara em um barraco (...) De vez em quando recebia indenizações pelos direitos de seus romances e, mal bebendo álcool, submetido a uma pobreza persistente que acabou por se tornar uma condição existencial, ele passava seus dias”.
 
No entanto, naquela época, a precariedade econômica e a política de restrição do uso de papel imposta pelo governo japonês em todo o país fez com que a agência para a qual trabalhava começasse a rejeitar seus textos. “Foi quando ele foi recrutado. O que quer que acontecesse, pensou ele, pelo menos eles o alimentariam. Confundindo o alistamento com o auxílio-desemprego, se apresentou em Yokosuka depois de se despedir de alguns amigos.”
 
Os anos de sucesso, um autor de moda
 
A partir de 1950, as coisas melhoraram para Kawasaki, que chegou a se referir à sua vocação como “fanatismo literário”. Não em vão, seguir aquele sonho de juventude o levou a viver precariamente em mais de um período de sua vida. Mas com o fim da guerra e a prosperidade da indústria editorial, o vento mudou de rumo para o escritor, que finalmente alcançou a popularidade desejada, embora isso não o tenha feito mudar seus hábitos austeros.
 
“À noite, sob a luz de uma vela grossa, escrevia à mão sobre os pícaros, sobre suas aventuras noturnas, seus sentimentos, sua vida escondida à luz do dia, como se não tivessem outra escolha”, disse. “Perdi o contato de pele e voltei para Makocho, o bairro das prostitutas, onde comecei alguns relacionamentos passageiros. Escrevia suas reservas sobre meus dias de solteiro aos cinquenta anos pagando prostitutas e morando em um barraco miserável. Por algum motivo, meus escritos chamaram a atenção de alguns curiosos e fiz certo renome. Atrevo-me a dizer que estive até um pouco na moda.”
 
Aqueles eram os anos de Makocho (1950), um livro de contos ambientado no bairro de prazer de Odawara, baseados em seus próprios encontros com prostitutas. “Durante muito tempo Ogaea só fora um ser apartado num canto, mas enfim começava a desfrutar de certo reconhecimento ganhado graças à força de persistir”, contaria. “Beirava os cinquenta anos e ainda sobrava um pouco de dinheiro depois de comer seu chirashi don de sempre”.
 
Ele continuou, sim, morando em seu cantinho com telhado de zinco e escrevendo seus romances sob a luz de uma vela grossa, mas algo havia mudado. “Um mês de julho, já com mais de sessenta anos, parou de escrever sobre suas relações com mulheres e prostitutas. Casou-se com uma mulher trinta anos mais nova, alugaram dois quartos anexos a um ryokan, a dois quilômetros ao norte da estação Kamonomiya, e ali formou uma nova e crepuscular família. Para melhor e para pior, a realidade da vida das pessoas supera qualquer tentativa da imaginação”, refletiu.
 
Mais tarde, publicaria títulos de sucesso, como O casamento de um solteirão e A viúva de trinta anos (1962), relacionados à sua vida conjugal e familiar. Aos sessenta e cinco anos, o escritor sofreu um derrame que deixou a metade direita de seu corpo paralisada. “Não foi grave, no entanto. Foi internado inconsciente no hospital e permaneceu aí por dois meses. Antes de receber alta, já conseguia andar com a ajuda de uma bengala e não tinha dificuldades na fala. Apenas uma dor surda, como um choque elétrico no meu corpo que primeiro subia até a cabeça e depois descia até a ponta dos pés”, descreveu.
 
Apesar disso, não parou de escrever. “Quando não conseguia segurar a caneta com a mão direita paralisada de dor”, compartilhou, “agarrei-a com a esquerda e continuei”. Em seus últimos anos de vida obteve reconhecimento na forma de vários prêmios literários.
 
Preso pela vocação literária, foi no primeiro de seus contos, em “Sem título”, que Kawasaki escreveu uma das frases que, em parte, resumia toda a sua essência. “Quando estava em seu humilde quarto de três tatami na casa de hóspedes, se esquecia de Oyasu, pegava sua caneta sem pensar em mais nada e ficava animado com a possibilidade de escrever algo bom, como se fora uma vez”. Esse entusiasmo, para o bem ou para o mal, o acompanhou por toda a vida. E houve muitas vezes em que ele conseguiu. Morreu em 1985 de uma pneumonia.
 
* Este texto é a tradução livre para “Chotaro Kawasaki, el escritor japonés que escribía a la luz de una vela sobre cajas de cerveza”, publicado aqui, em El Cultural.

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