Dalton por Dalton

Por Marcelo Jungle



 
Terminar a leitura da Antologia Pessoal (Record, 2023. 448 p.) de Dalton Trevisan inevitavelmente nos leva a pensar sobre como o curso da vida dos escritores segue a obra.
 
Como se sabe, mesmo que já se tenha lido uma história, uma nova compreensão sempre poderá existir quando a relemos. A coletânea em questão é “pessoal” como só poderia ser, pois os contos foram escolhidos pelo próprio autor e devemos agradecer por isso aos ventos da longevidade. Assim, esse novo passo se mostra entusiasmante por motivações específicas: a escolha e consequente importância para o próprio autor e a cronologia que nos proporciona uma visão de sua evolução criativa. Para além, portanto, da função introdutória das antologias, mesmo os leitores experientes em Dalton e suas conquistas terão aqui uma boa oportunidade de seguir os movimentos que foram marcando sua carreira. O que não é pouco, para quem detesta seguidores.
 
No prefácio/ ensaio de Augusto Massi, que leva o sugestivo nome de “Antologia como método”, temos a significação da função das antologias em detalhes. Ele nos esclarece que “Entre 1979 e 2013, o escritor organizou sete antologias de sua própria obra. Essa experiência permitiu ao contista realizar, em diferentes etapas da vida, releituras de sua produção literária. Como toda antologia implica em balanços, recortes temáticos, escolhas e recusas, as antologias correspondem a uma série de autorretratos: Dalton Trevisan por Dalton Trevisan”. E nos fornece a ideia fundamental de que para montar uma é preciso “pinçar o que é realmente original, único, particular”; “o organizador precisa dominar a totalidade da matéria estudada, possuir vasta experiência de leituras, mostrar convívio e intimidade com a obra. Espião da memória. Nesse ponto, estamos em boas mãos. Dalton conhece Dalton como ninguém”.
 
Mais do que uma releitura (ou releituras), portanto, o fato dela encerrar 94 contos escolhidos já é suficiente para entendermos que temos em mãos um sumário a encabeçar um espólio. Com base nesta peculiaridade reveladora, tratada com grandeza por Massi, lanço algumas considerações sobre a experiência e as consequências da leitura antológica.
 
Por primeiro, deduzo como reforçado o pensamento de que ler e gostar da literatura de Dalton Trevisan é como chegar à conclusão de que a realidade nada tem a ver com o certo e o errado. Se algo está acontecendo, é porque pode acontecer, por mais errado ou injusto possa ser segundo nossos conceitos de bem e mal. Não adianta mostrar desagrado com suas trivialidades.
 
Dalton é contista sem nenhuma compaixão e resolveu matar lentamente seus personagens. Mas antes os acometeu de Alzheimer. Os que mantêm a consciência plena do fim que chega tornam-se delatores do tempo: “Pronto me calo, a minha mão ponho na boca. Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim.” Assim acompanhamos o cotidiano de velórios e as coisas que se costumam fazer e dizer neles. Até mesmo um defunto moço levanta e sorri com malícia para o menino que repara na unha suja do morto.
 
É um escritor à frente de suas memórias. Narra neste instante as histórias daquele tempo, colocando seus personagens envelhecidos a falar e lembrar, e talvez inventar algo a mais para dar vida à existência enfadonha das velhices.
 
Aprendemos com ele que as memórias são o passado possível e um conto pode ser apenas o punho de um corpo ensanguentado no chão, abrindo e fechando. Mas também nos serve a clara escuridão das esquinas mentais de todos nós ou, como queira, de alguém quase como nós. Alguém que já se ouviu falar. Das desgraças que prognosticamos em salas de espera. A esperança nestas histórias costuma ser companheira decepcionante e portadora de desencanto.
 
Sob as mesmas perspectivas, trata ele dos impulsos que nos vêm ao ler as notícias policiais. Mas não há literatura policial nelas. Não se procure também por literatura marginal, como a crítica um dia quis que ele fosse. Como ele mesmo diria, “Cara, me erra”. Usar gírias com elegância é sinal de sua constante atenção à vida que segue do lado de fora.
 
Assim, no país das pedras fundamentais, somente Dalton lembra de escrever um conto sobre um catador de papel. É um autor para acompanhar o café da tarde de domingo na casa das mães e avós. É para ser reconhecido nos olhares furtivos da cunhada que resguarda o marido trancado no quarto.
 
Enquanto isso, a opinião forasteira adora destacar o vampirismo, seja lá o que signifique. E, ao mesmo tempo, o ar de literatura da província. Os próprios provincianos alardeiam essa ideia para se despregarem de um destino que os escolheu. Nada mais inexato em relação a um autor universal. Balzac escreveu crônicas da província como jamais se havia escrito. O que gostamos em Dalton é o discurso de louco de esquina. É a palavra não dita ou mais adiante sussurrada. Um silêncio conjugal que espanta os ouvidos, logo dissipado pelo gosto do feijão bem temperado e com caldo grosso. O cotidiano que se impõe a cada dia a tudo e a todos.
 
Ao final, portanto, ficamos a refletir sobre toda essa gente e seu criador. Como sobreviveram e seguiram lado a lado por tanto tempo. Autor e obra. O mal de tantos personagens, consolo seja para cada um de seus leitores, e assim “sumirão todos na noite sem fundo do esquecimento”.


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Antologia pessoal
Dalton Trevisan
Editora Record, 2023
448 p.

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