Herscht 07769, de László Krasznahorkai

Por Pedro Fernandes


Existirmos, a que será que se destina?

— Caetano Veloso


Livra-me da culpa dos crimes de sangue,
ó Deus, Deus da minha salvação!
E a minha língua aclamará a tua justiça.

— Sl 51:14


László Krasznahorkai. Foto: Matyas Szollosi


Todos carregamos em nosso interior a nuvem escura que pode nos insuflar para o irremediável. Com ela ou não também uma voz ininterrupta que nos conta uma história com ramificações tão diversas e nem sempre alcançamos um ponto final; com essa voz dialogamos, e por vezes, ela nos provoca a conversa, reaviva outras vozes ou se deixa interceptar. Esse fio que nos aparece com a formação da parte da nossa consciência responsável pela linguagem e deve nos acompanhar até a morte serviu de maneira muito diversa à elaboração de uma literatura centrada na interioridade, o que, na história do romance, ficou marcado com o início de uma era de renovação da forma narrativa estabilizada com a expressão realista do século XIX. Mais tarde, ao juntar esses procedimentos com os da descontinuidade da oralidade, alguns escritores continuaram a mobilizar outros procedimentos no âmbito do romanesco que, das feições com a quais o romance se estabilizou, resta, em alguns casos talvez, o princípio de contar uma história. 

Com Herscht 07769, László Krasznahorkai participa nesse festim diabólico com a linguagem enquanto perscruta o mal que nos habita. O romance organizado com uma única frase que pode muito bem servir de experiência da captura de um interregno desse fio interior interrompido apenas com a nossa morte renova um movimento do contar reconhecido a um leitor brasileiro de Clarice Lispector ou do João Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas. Mas, não se trata aqui do uso do stream of consciousness e nem de uma maneira de integrar o fluxo da oralidade na linearidade do verbal, e sim transpor essa voz interior como artifício de narrar uma história que é um interregno entre um instante a outro sem que isso signifique o começo e o fim da narrativa. Para quem leu Sátántangó com os longos e vertiginosos parágrafos, deve ter em conta que aqui o escritor os ignora completamente e o único ponto final aparece apenas ao fim do romance; tudo é o magma verbal que, como o magma sonoro de uma peça, nos confisca da primeira à última linha.

Os acontecimentos narrados se situam em um desses pequenos povoados do interior da Europa condenado ao desaparecimento numa época quando os grandes centros urbanos se tornaram o destino e a ambição de todos que procuram modos de vida centrados no cosmopolitismo e em melhores acessos aos bens gerais de consumo. Kana está situada no estado da Turíngia, no centro da Alemanha, que, historicamente, foi o reduto do poder político do Partido Nazista; já nos anos 1920, quando os nazis assumiram o poder, os ideais republicanos foram destituídos com o patrulhamento do governo por homens favoráveis ao defendido pela ideologia dominante. Passada a Segunda Guerra Mundial, essa região, depois de controlada pelos Estados Unidos, ficou sob ocupação soviética e é somente a partir da reunificação alemã, em 1990, que alcança sua estabilidade geográfica. Foi também a Turíngia uma das primeiras zonas do país a aceitar a Reforma Protestante e abolir o catolicismo já em 1520, restando para estes cristãos apenas um reduto, o distrito de Eichsfeld mais uma pequena parte de Erfurt e imediações. 

Esses detalhes panorâmicos da complexa história da Turíngia, formada precocemente por vertentes de pensamento e cultura centradas a um ponto do extremismo, são importantes para Herscht 07769 porque constituem as bases de todo epicentro do que aí se narra e do indispensável recurso da verossimilhança. O espoletar das novas células da extrema-direita que alcançam domínio dentro e fora da Europa no primeiro quartel deste século já é caso estabelecido no reduto de Kana, onde judeus e o neonazis se incitam em seus próprios grupos numa disputa ideológica que coloca em suspeição a aparente vida pacata da pequena cidade. E tudo isso, durante o período de Angela Merkel como chanceler, isto é, entre 2005 e 2021, período no qual podemos fixar boa parte dos acontecimentos do romance, mesmo que o seu tempo pertença às categorias propositalmente desfiguradas pelo romancista, porque entre o presente da narrativa circulam livremente o passado próximo ou distante, ignorando-se hierarquizações entre esses extratos. Já se disse que Herscht 07769 é uma sátira, mas é também uma fábula e como tal possui significação dentro e fora do contexto evidenciado, da geografia e da história referidas. 

Boa parte de Herscht 07769 nos recorda Dom Quixote, de Cervantes. Centrado no par Boss e Florian e nas suas andanças pela Turíngia a bordo do Opel, os dramas são os mesmos do homem estranho ao seu próprio tempo, sempre irreconhecível para ele, e a luta por restabelecê-lo. Boss, que se diz um admirador e profundo entendedor da obra do compositor Johann Sebastian Bach, conduz um pequeno negócio de limpar paredes e no qual ele é também um dos operários; Florian é um jovem subsidiado pelo Estado e resgatado do instituto por Boss que o faz seu empregado, fiel escudeiro e discípulo, ainda que não o obrigue diretamente a se integrar ao grupo de neonazis do qual é líder ou a ouvir Bach. O novo Quixote, como o antigo, tem no exemplo a principal matéria de educação. E, se no fim do romance do espanhol, Sancho Pança é a matriz do seu amo, aqui, Florian ultrapassa quaisquer dos limites de Boss ao se tornar a face que o seu mestre jamais assumiu e esta é a segunda parte do romance — ainda que não se divida assim, aliás, sem quaisquer divisões —, quando o tom e aspecto cômicos da narrativa (e por isso tenham atribuído a expressão de sátira) se convertem na atmosfera sombria e fatalista de um roman noir, mesmo que não circulem detetives desiludidos ou femmes fatales, mas marcado pela violência brotada de uma atitude de vingança em um mundo de decadência das relações humanas.



O que enceta essa variação encontra-se numa intriga feita de uma sucessão de episódios desestruturadores da aparente ordem de Kana e que serve simultaneamente aos vários lados ideológicos: a nazistas, a judeus, a ambientalistas e a apolíticos. Os acontecimentos se organizam em ordem crescente. O primeiro incidente é o aparecimento de um conjunto de pichações em pontos da geografia cultural e do patrimônio simbólico da Turíngia, entre eles, os lugares de Johann Sebastian Bach, Eisenach, Günthersleben-Wechmar, mas também cidades de marco religioso, como Mühlhausen, ou de valor histórico, como Ohrdruf, outrora sub-campo do complexo de concentração de Buchenwald e o primeiro a ser libertado pelas tropas estadunidenses; depois, um inusual ataque de lobos contra o casal Ringer; o desaparecimento repentino do Sr. Köller, que regressa silenciosamente, mas sem jamais ser o mesmo até ser levado para Jena sob os cuidados do amigo Dr. Tietz; a manifestação em Erfut convocada pelos judeus sob liderança do Sr. Ringer; as explosões em Jena, Suhl e da bomba da ARAL em Kana que resulta na morte do casal Rosário e Nadir.

No rocinante Opel, Boss, sempre acompanhado do quase sempre indiferente Florian, patrulha os fantasmas responsáveis pelas pichações; o ponto de partida quase sempre aleatório a partir uma estratégia estapafúrdia jamais resulta em alguma coisa, um fracasso que se repete ainda noutras frentes desse pitoresco Quixote, como o de nunca conseguir que a orquestra da Kana, fundada por ele com o sonho de vê-la triunfar com uma apresentação de Bach nunca realiza tal proeza e apenas sabe executar músicas que aos ouvidos do idólatra da figura pátria da Turíngia é de má reputação, como Beatles. Nessa altura, Florian encontra-se seduzido pelas ideias da física quântica aprendidas pelo Sr. Köller que assinalam, no entendimento do seu discípulo, a confirmação do apocalipse cada vez mais anunciado nos púlpitos evangélicos em proliferação no quadrante turíngio. Por isso, no tempo livre de Boss e dos inúmeros afazeres para os do seu círculo, Florian emprega escrevendo cartas para Angela Merkel, a explicar a descoberta da compreensão física do fim do mundo a fim de alcançar alguma intervenção do conselho internacional de segurança ou, mais tarde, a projetar explicações para as circunstâncias extraordinárias que o afetam, como o desaparecimento do seu professor, ou a descoberta da beleza excepcional da música de Bach e um eventual estreitamento com a teoria física de sua obsessão. 

Florian é extremamente benquisto pelos habitantes de Kana; ajuda-os em toda frente de trabalho que envolva esforço físico graças ao seu porte, que serve a Boss para justificar aos seus porque o protege, por sua força extraordinária e porque suspeita que algum dia seu escudeiro será certo super-homem ideal, devido ao seu esforço por entender o funcionamento da ordem das coisas que ele, Boss, se julga conhecedor e, “sim, de um modo geral divertia-o que o seu Florian fosse um tipo assim tão estranho, e nisso havia inclusivamente um certo orgulho por gostar daquele perfeito idiota à sua maneira, contra as opiniões de todos”. Ilona, Sra. Ringer, Sra. Hopf, além da Sr. Köller e do Sr. Vertreter — a gente de convívio mais íntimo de Florian — querem bem ao inocente brutamontes ao ponto de alertarem-no continuamente para o perigo do convívio com Boss, seja porque este, por mais que se esforce por agradar aos de Kana com seus ideais patrióticos, é para todos um quase proscrito, seja porque, no estopim dos acontecimentos que sepultam a paz da cidadela, todos o tem como o homem envolvido, graças às incitações levantadas continuamente pelo Sr. Ringer, mesmo que ele e sua esposa tenham escapado dos lobos a custo da intervenção do perigoso brutamontes.

Florian guarda por Boss uma gratidão que não sabe explicar — porque deu-lhe um lar, porque deu-lhe uma ocupação livre da caridade, porque acredita de alguma maneira na sua capacidade de homem, porque o ensina a descobrir a música de Bach —, capaz de defendê-lo publicamente quando o burburinho contra o líder nazi alcança proporções perturbadoras até mesmo para ele, um aparente desligado para as querelas dos habitantes de Kana. Talvez ele se reconheça em Boss em um ponto, nas suas utopias individuais: Boss acredita na necessidade de salvar a nação germânica restaurando certos princípios do passado e esse acontecimento grandioso deve ser protagonizado, outra vez, pela Turíngia; Florian espera uma resposta e uma atitude da chanceler às suas explicações e preocupações com o apocalipse iminente se confirmadas as teorias da física como aprendeu com o Sr. Köller. O que falta em um, sobra no outro: Boss é a explosão física e o pensamento curto e Florian, apesar do seu porte, é o “esperto como um alho numa série de coisas, física e o Universo e coisas do género”, como admite o companheiro. Ora, mas a criança grande de macacão, boné à Fidel Castro e penetrantes olhos azuis não é um tipo.

Nada em Herscht 07769 se encontra aprisionado em linhas fixas, aos repetidos maniqueísmos cada vez mais fáceis de se encontrar na literatura do nosso tempo, preguiçosa de problematizar os impasses vigentes. Exemplo disso é que no interior das intrigas ideológicas ninguém é são: os da ong NABU, protetora da reintrodução dos lobos no hábitat natural da Alemanha, praticam com os animais experiências duvidosas para um grupo de ambientalistas enquanto encontram um meio para que o caso não ganhe os holofotes; os judeus apelam à violência que condenam nos nazis; e estes procuram aparentar fora dos limites de que são pior do homem projetando lugares onde o estado não atua, como a cultura e a segurança em Kana.

Mesmo o próprio Florian, símbolo de distinção entre os da sua cidade, só o é até o limite em que todos o acreditam alienado da sua realidade, isto é, o que constitui um defeito para os do seu entorno é a qualidade desviante da insanidade do mundo, como se demonstra ante as interrogações da sua ausência nas manifestações antinazi de Erfut. Mas, ninguém escapa de algum tipo de alienação, ninguém permanece o mesmo quando desperta para essa condição e, talvez, entre todos, Florian é o que atravessa esse despertar da maneira mais radical e o seu destino modifica de igual maneira o sentido dos que o tempo ainda permite alcançar a outra face desse Jano, para nos valer de uma imagem utilizada pelo Sr. Vertreter para medir a dimensão monstruosa que afasta a nossa personagem integralmente do seu papel de Sancho.

O romance de László Krasznahorkai examina como as tensões ideológicas, a incomunicabilidade, e a nossa propensa capacidade de transitar facilmente pela região do inventado constituem o maior perigo do nosso tempo: o medo. O mesmo sentimento que tantas vezes terá salvado a nossa espécie da extinção precoce, quando transformado em instrumento reconduz-nos ao mesmo fim. Os incidentes em Kana ou nas suas redondezas atuam sobre os moradores como se um aviso para o pior, porque simplesmente ignoram os meios eficazes para se guiarem por suas convicções individuais — e não sem razão uma vez que o poder oficial se encontra viciado pela lentidão, pela ineficiência ou pela corrupção. Enquanto as certezas particulares incidem como meios de opressão autoinduzidos, os que praticam a violência escalam os atos ao limite. 

Boa parte dos habitantes de Kana encontra-se sequestrada pelo aparente: enquanto Boss admite Florian como uma criatura perigosa porque dotado de uma força descomunal, o restante apenas o vê, como “uma criança de nervos frágeis”, para reiterar uma das observações do Sr. Vertreter para o investigador à procura do paradeiro de Florian quando os contornos à volta de uma série de assassinatos dos membros ligados à célula nazista de Kana começam a se firmar; Florian, por sua vez, vê seu guardião como uma criatura diferente do monstro pintado por Kana que assim o tem pelo envolvimento com os nazis e pelos acontecimentos policiais em que se enroscou no passado. E se em toda parte é preciso que exista o mal e este é variável, aqui, o seu nome é Boss, como provisoriamente é o Sr. Ringer, ou mais tarde o lobo em pele de cordeiro Florian. É Florian, o missivista de Merkel, que numa das suas cartas, sentencia: “as pessoas não têm medo do que deviam ter, mas do que não deviam ter”; expressão que encontra outra, proferida pela Sra. Feldmann para a Sra. Ringer aflita com a condição em que se encontra o marido depois das acusações como o suspeito da morte dos nazis: “é assim aqui e em toda parte, as pessoas têm medo, e sucumbem muito facilmente à influência dos boatos”. 

Esse ambiente pantanoso pode ser um novo círculo dos mais desafiadores da nossa civilização: como desarmar as pessoas do que alimenta suas nuvens escuras; como administrar a descoberta de que a liberdade total não existe sem cair nas armadilhas que nos levaram no passado aos limites radicais e dos quais os resquícios ideológicos ainda vivificam em toda parte, reinventando fantasmas, reinsuflando medos, reafirmando ódios, restabelecendo cisões sobre as mesmas feridas nunca cicatrizadas, noutras palavras, readmitindo os mesmos males que nos calejam desde os tempos imemoriais, os que colocam uns contra outros; de que forma é possível equilibrar ou conciliar as forças a fim de não debandarmos definitivamente para o limite da barbárie, a carnificina? Florian Herscht não é uma resposta. É mais um capturado pelas nossas contradições sempre fáceis de reproduzir fora de nós os monstros que todos carregamos conosco. Incapaz de acessar os códigos do grande mistério que assinala a nossa origem e o nosso destino, ele é o homem perdido com os seus próprios demônios capaz apenas de caminhar para o fim.

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