Fazes-me falta, de Inês Pedrosa

Por Pedro Fernandes



Nada é tão contemporâneo quanto a liquidez (que diga Bauman) dos relacionamentos. Nada é tão caro à literatura quanto temas como a morte. E à literatura portuguesa como a saudade. Palavra essa, aliás, sem tradução direta para outro idioma. Pois são sobre esses três temas principais que Fazes-me falta, de Inês Pedrosa, publicado em 2002, em Portugal, pela Dom Quixote, e em 2010, pela Alfaguara, no Brasil, melhor tratam.

Um dos temas, o primeiro, poderá não ser notado logo à primeira vista, ou mesmo numa leitura rápida do romance. Afinal, o que aí se encena é uma ligação amorosa que sobrevive à conta-gotas da saudade, num fim interposto pela morte. Mas, o exacerbado apego porque a personagem masculina vai demonstrando ao longo do livro parece se guiar por uma incapacidade afetiva, ou por um sentido de culpa, que parece ter posto fim o amor ou não tê-lo vivido com plenitude ou exacerbada plenitude. Está aí um homem mais velho que se sente viúvo mesmo nunca tendo firmado um compromisso amoroso. A liquidez, claro, não se constitui figura central, mas se deduz, depois de um balanço da vivência amorosa das duas personagens.

Escrito com um romance dentro do romance - tem-se uma narrativa composta pela voz feminina que inicia a trama e outra pela voz masculina que se apresenta logo em seguida - Fazes-me falta pode ser lido ainda com um romance sobre o vazio. Ou a ausência. A voz primeira é uma voz morta, que do limbo, tem, ilusoriamente, contato com um mundo dos vivos; a segunda é uma voz viva, que do mundo dos vivos, tem, ilusoriamente contato com a presença da morta. Presença que vai se compondo em todos os detalhes que a personagem masculina experiencia. Nesse instante, muito me lembrei de cenas de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez.

A maestria de Inês Pedrosa nesse romance está no modo como são encenadas essas vozes, sobretudo, o modo como são constituídas as relações masculino-feminino tomando como estágio não apenas o ato verbal e expressivo mas também o temporal posto na discrepância da idade entre as personagens. Confrontadas entre a vida e a morte elas estão ainda em confronto por representar cada qual cenários históricos distintos compondo destarte um itinerário dialógico na narrativa em questão.

Outro recurso aí empregado com maestria é a composição do fio memorialístico que permite o leitor vivenciar no transe escritural todos os sentimentos aflorados na fala das personagens. Aliás, suas falas, são puras ausências, encontros e desencontros, dando conta, primeiro, de uma espessa proximidade, depois, de um distanciamento, incapaz de não existir dado a própria configuração temporal. 


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