Zelda Fitzgerald





Bailarina, pintora e escritora, Zelda foi um pouco de tudo. Mas, para sua má sorte, casou-se com um homem que a fez entrar para a história como sua musa. E, pior, ele, um dos mais brilhantes escritores estadunidenses do século XX, era um possessivo e usou de todas as artimanhas para impedir que a companheira desenvolvesse quaisquer dos seus talentos. Os designativos de posse estão impressos na sua biografia, nos tristes episódios da vida conturbada, mas desde seu nome. Conhecemo-la como Zelda Fitzgerald e não por Zelda Sayre, a mulher nascida a 24 de julho de 1900 em Asheville, na Carolina do Norte.

A família dela descendia dos primeiros colonizadores de Long Island, que haviam se mudado para o Alabama antes da Guerra Civil. Na época do nascimento de Zelda, os Sayre eram reconhecidos na região. Seu tio-avô, John Tyler Morgan, integrou o Senado dos Estados Unidos durante seis legislaturas; o avô paterno editava o principal jornal de Montgomery; e a avó materna era Willis Benson Machen que foi durante um breve período senadora por Kentucky. E, nesse universo, a pequena Zelda foi extremamente ativa: fazia aulas de balé, estudou fora e tinha uma vida social muito ativa. De cedo, bebia, fumava e passava grande parte de seu tempo com os meninos; carisma que lhe rendeu o papel de líder da vida social juvenil.

O encontro com F. Scott Fitzgerald, fumante e beber empedernido se deu aí; era 1918, tinha apenas 18 anos quando se lhe apresenta como uma jovem promessa das letras, com ambição que logo a conquista. O jovem tinha 22 anos, se tornou o amor de sua vida e seu prisioneiro. Os dois se casaram dali a dois anos e algumas semanas antes Scott havia publicado Este lado do paraíso, seu primeiro livro que teve boa repercussão; escrito em parte, quando ele a conheceu, Rosalind Connage, o segundo amor de Amory Blaine – protagonista do romance – foi a primeira de muitas personagens femininas inspiradas em Zelda. Uma vez estabelecidos em Nova York, o sucesso para o casal não tardou a chegar.

Os Fitzgerald se tornaram personagens do momento; todo mundo queria conhecê-los. O casamento deles alcançou o mais alto topo social; continuamente regado a álcool e festas que se tornaram uma constante no dia-a-dia dos dois. Ele havia se tornado um dos escritores mais populares e ela se tornou uma ícone flapper nos loucos anos 20 nos Estados Unidos, período que marcou uma revolução cultural também para a condição das mulheres. As flapper formavam uma geração de mulheres que no início da década adotaram um estilo à frente: era uma geração que havia dado adeus ao espartilho, usavam saias mais curtas, escolheu cortar o cabelo a altura do queixo, usava muita maquiagem, ouvia jazz, dançava Charleston, fumava e bebia em público, dirigia seus próprios carros, tratava o sexo como algo casual e aspirava uma posição social herdada de suas carreiras profissionais. O peso disso estava em não deixar escapar o papel tradicional que a elas havia sido imposto: constituir família e continuar com seus papéis femininos.

Obviamente que Zelda encarnava tudo isso; e, como figura midiática, irradiada do casal centro de interesse da cidade, havia se tornado em alguém que sabia como tirar proveito disso. O imperativo da fama impôs aos dois um relacionamento sustentado por uma espécie de convivência artista-musa, tudo sustentado pelo ideal de amor que guardavam um pelo outro. No entanto, o frenesi que que alimentava a vida do casal foi passageiro, desapareceu antes do esperado. Enquanto Fitzgerald trabalhava num novo romance, Zelda ficou grávida; Frances Scott Fitzgerald, destituída totalmente dos traços civis da mãe, notem, nasceu em 1921.

Desde então, a vida do casal começou a se fragmentar; apesar de continuarem a administrar a imagem glamourosa que carregavam, tudo soava a uma fachada ocasional. Por mais que uma rede de proteção tenha se formado em torno da pequena Scottie, a fim de continuarem a agir com agiam, a vida não era a mesma. Apesar do desgaste – a vida monótoma corroía toda capacidade criativa de um escritor – ele escrevia; valia-se de todos os recursos ao seu redor para construir histórias nas quais Zelda sempre era o foco principal. No mundo fora do papel e além das cartas, ele descobre na companheira todo o potencial de uma figura trágica e, desde então, passou a explorá-la. Fosse roubando dela anotações de diários e cartas para extrair fragmentos, situações e acomodá-los em seus romances.

Foi assim que o mundo conheceu Zelda Fitzgerald, através da pena de quem vivia com ela: a esposa do escritor famoso dos gloriosos anos 1920 estadunidense. Os belos e malditos, o segundo romance de Scott tornou-se um testemunho disso. A história conta a vida de um casal, Gloria Gilbert e Anthony Patch, que vive para dar grandes festas e gasta seu dinheiro em banalidades, mas de um momento para outro sua fonte de renda acaba e os dois são lançados numa espiral de declínio, onde o alcoolismo os apaga pouco a pouco. Este é um romance que perfaz bem a vida dos Fitzgerald, uma obviedade que chega a ser incômoda.

Quando o livro saiu, ele estava esgotado, com fortes indícios de uma grave depressão. Pouco restava do casal dos sonhos que representava antes. O alcoolismo dele estava fora de controle e junto vieram as obsessões que tomaram conta de transformar a vida Zelda num inferno; e, como isso fosse insuficiente, o casal estava abalado com o salto das dívidas que só cresciam dia após dia. Numa tentativa desesperada de superação da situação, o casal coescreveu O vegetal, uma peça de teatro surrealista, mas seu fracasso, fizeram com que considerassem a ideia de encontrar um lugar diferente para começar tudo outra vez.

A amizade com Ernest Hemingway foi uma espécie de guia, para o infortúnio de Zelda, que desde à primeira vista o detestava. Para ela, o autor de Paris é uma festa era um machista que usava da personalidade dominante como um disfarce para encobrir sua homossexualidade; para ela, o que o escritor queria era um caso amoroso com Scott. Bom, a essa altura, podemos perguntar, qual o lugar novo de refúgio dos Fitzgerald. Paris. A capital francesa foi o local escolhido. Mudaram-se em 1924,  mesmo ano quando de uma estadia na Côte d'Azur, ela conhece e se apaixona pelo piloto francês Edouard Jozan. Um ano depois Scott reaparece na cena literária com O grande Gatsby, seu trabalho mais notável e o ponto de ruptura com sua companheira. Enquanto estavam em Paris no centro de muitos intelectuais da chamada “geração perdida”, entre os quais, Ernest Hemingway e Gertrude Stein, Zelda e Scott tentaram continuar a vida social agitada que tinham em Nova York, mas o processo criativo exigia dele outro ritmo, e tudo se tornou exaustivo.

Foi uma combinação de situações: o apagamento da relação, o envolvimento com Jozan e as contínuas tentativas de disfarçar tudo ficou ao encargo de Zelda que, desde sua chegada à França busca escape pela escrita, depois pela pintura e mesmo a retomada do balé com a mesma disciplina dedicada durante toda a sua infância no Alabama. No entanto, a única coisa que a fez sair do buraco que o casamento se tornara era o amante; após seis semanas de conhecê-lo ela pede o divórcio a Scott. Ele não apenas se recusou como prendeu-a em casa até desistir do pedido e, desde então, passou a controlá-la. O piloto acabou indo embora de Paris e o casamento dos Fitzgerald, mesmo assim, nunca mais se recuperou da nova condição.

Quando O grande Gatsby foi finalmente publicado, o escritor estava completamente tomado pelo álcool, envolvido continuamente com outras mulheres e a estabilidade emocional de Zelda descia em uma ladeira perigosa. O escritor nunca a apoiava em nada; nem com a dança, ou com a pintura e muito menos com a escrita, numa época quando ela recebeu algumas ofertas para escrever seus próprios livros e artigos. Antes de chegar aos editores, por intervenção de Scott, os textos dela eram rejeitados; no caminho possessivo de Scott só ele devia ocupar o centro da criação. Mas nela o desejo de criar, de se fazer conhecer através de sua própria arte nunca se extinguiu.

Em 1930, Zelda foi, curiosamente, diagnosticada com esquizofrenia e internada em um sanatório. Foi nesse cenário pesado que conseguiu o que queria por anos: escrever um livro. Demorou seis semanas para que a flapper dos loucos anos vinte escrevesse Esta valsa é minha, um romance que finalmente lhe permitiu mostrar ao mundo seu notável talento. Nele, ela deu vida a Alabama, nomeada em homenagem à sua cidade natal, uma garota que se casa com David Knight, um jovem artista destinado a ter sucesso na pintura. Zelda criou imagens e diálogos únicos muito próximos do mundo do teatro, tudo a partir da experiência de seu casamento com Fitzgerald.

A notícia desse livro deixou Scott enfurecido. Além de continuar o papel de ridicularizá-la publicamente entre os amigos, acusou-a de ter usado material biográfico que ele havia reservado para seu próprio livro. Em muitas ocasiões, ele recorreu a esse recurso, mas nunca conseguiu chegar ao ponto de intimidade com que Zelda constrói em Esta valsa é minha. O escritor ainda interviu no texto; ela, que costumava ser silenciada, e não havia conseguido uma única obra, não teve escolhas se não permitir; foi dele o gesto final.

Zelda morreu queimada em 1948 no incêndio do hospital de Highland. Muito tempo depois, médicos e biógrafos argumentam que ela não sofria de esquizofrenia; alguns preferem compreendê-la como uma mulher de forte gênio e personalidade, tudo que não pode ser expandido para a criação pela inconveniência de uma sociedade ainda integralmente voltada para coibir a criatividade feminina e de um homem cujo gênio e personalidade entrou com ela em rota de colisão. O trabalho de Zelda ficou esquecido durante longo tempo: seu único romance, seus textos curtos, suas pinturas e ilustrações. Felizmente, as coisas começam a ganhar outro prumo.  

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