António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé

Por Pedro Fernandes


É tão importante ser um bom cavador ou pedreiro como ser um bom escritor, temos é a tendência de mitificar os escritores e de colocá-los em pedestais.

— Em Uma longa viagem com António Lobo Antunes


António Lobo Antunes. Foto: David Clifford


Toda criação humana de vulto é parte do empenho e esmero de alguém capaz de pisar onde muitos não ousaram a tanto. António Lobo Antunes é um dos últimos que revolucionou o romance no século XX, numa ocasião em que esta forma literária se encontrava refém de uma encruzilhada entre os modelos necrosados e as renovações disruptivas e vazias herdadas das vanguardas do século anterior, ou ainda, presa no interior das redomas estruturais. Seu compromisso inadiável com a palavra, a capacidade de dizer das sombras com a beleza luminosa do verbo, aproximou a literatura das belas artes. 

Numa sociedade em que a abertura democrática coincidiu com uma formação de algum interesse para o cultivo das letras, a publicação dos três primeiros romances resultados das experiências de uma pequena extensão do horror colonial foi o suficiente para catapultar uma presença cujo declínio coincide curiosamente com o advento de uma série de cisões e mediatismos que destroçaram o antes último reduto da resistência ao capital. Não à toa: se a obra de António Lobo Antunes escapou das amarras estabelecidas pelos estudos literários, obrigando críticos e teóricos a remodelarem as estratégias de aferir, compreender e desenvolver o trato com os seus objetos, não seria também ela a se deixar dobrar ante as imposições do mundo hodierno. 

A resposta de António Lobo Antunes a esse tempo foi continuar a expandir as suas inovações com a linguagem, reescrever obsessivamente o romance ideal nunca terminado, e se abster, sempre que possível, da luz dos holofotes, reafirmando o seu compromisso definitivo, desde quando abandonou a medicina pela literatura, com a palavra, essa criatura indomesticável que ele próprio se deixava conduzir, como se a tarefa de escrever fosse ainda aquele encanto de quando descobriu aos cinco ou seis anos de idade que uma palavra após outra constituía um fio interminável de sentidos, sempre em expansão ao correr da tinta sobre o papel. 

Nesse sentido, se as suas primeiras obras constituem um ciclo pictográfico que quer oferecer um mundo tresloucado com a nitidez vertiginosa do ponto interior ora interceptado pela memória, ora pelo apego à concentração da imagem, ora ainda por uma maneira de organizar os sentidos convocados para esse fim, a partir de outro momento, ao radicalizar com os procedimentos da linguagem da prosa agora desarticulada pelas infiltrações inclusive formais da poesia, o escritor pinta como quem ao invés de mostrar quer sugerir, substituindo o ainda desejo de contar encontrado no primeiro ciclo. Além desses dois ciclos, é possível visualizar um terceiro. Neste, o artista oferece-nos o retrato desejado para depois exibir o lado de dentro da peça, que é, a um só tempo um objeto integralmente diferente e simultaneamente igual ao que acabou de mostrar. Para o leitor iniciado no projeto literário de António Lobo Antunes, considere Os cus de Judas como parte do primeiro ciclo, Não entres tão depressa nessa noite escura, do segundo, e Até que as pedras se tornem mais leves que água, o terceiro.

Se os rumos da humanidade, como parece demonstrar, seguirem adiante o curso de agora, António Lobo Antunes deixou uma obra para o leitor de outra civilização. E não é porque tenha discorrido de um mundo completamente estranho ao nosso, em vias de extinção, ou enraizado numa parte muito específica da história ou da cultura de seu país, mas porque sua escrita exige do leitor um compromisso irremediável com a palavra semelhante ao seu. A leitura de qualquer um dos seus romances requer uma educação dos sentidos cada vez mais em falta, porque sua literatura não admite ceder dela mesma para essas vias que nos conduzem à dispersão, ao esvaziamento, ao esquecimento e à negação da própria palavra. O curioso nisso tudo é que esses elementos são os mesmos com os quais o escritor forja a sua obra, continuamente interessada nas múltiplas feições do nosso espírito e na sua degradação por uma sociedade desmantelada dos princípios que em algum momento constituíram a possibilidade de uma civilização.

No nível da escrita, a sua literatura se antecipa à negação da linguagem alienada ao artificialismo da máquina. Alheia ao interesse informativo, prescritivo, à simplificação da linguagem que, já agora, não distinguem quem ou o quê escreve, se a obra é criação humana ou recriação maquínica, a letra antuniana ainda espera o simulador ideal que talvez nunca alcancemos, porque o que aproxima a sua letra da pintura não é a técnica mas o emprego dos seus elementos produzindo com pouco efeitos inesperados e variáveis quase intermináveis. Se é possível extrair o roteiro de um romance, decompor suas estratégias de dispersão, mapear vazios, esquecimentos, repetições, não é possível mapear quando a palavra se nega a dizer o que sempre diz para dizer outra coisa. 

Em nosso tempo é igualmente raro um escritor, ou qualquer outro profissional, capaz de transformar uma obsessão em pura e simples entrega, confundindo sua artesania não como parte mas o élan vital, afinal, o canto da sereia nessa era, a vã glória, corre impiedosamente a transformar talento em falso brilhante, obra em simulacro, inovação em cópia. Raros são os que fazem seu ofício como profissão-de-fé, sem conduzir o que fazem ao remanso sempre variável dos interesses dominantes. António Lobo Antunes dispôs a vida nos seus romances sem nada pedir em troca, além do papel, tinta, sossego e o tempo necessário para escrever; que, com a sua obra, não esqueçamos desse mais humilde dos gestos. 

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