Clarice Lispector: a liberdade

Por Gisela Kozak Rovero

Clarice Lispector. Foto: Correio da manhã. Arquivo Nacional.


 
Quantos escritores na casa dos vinte anos gostariam de se dar ao luxo de escrever em um romance de estreia uma indagação tão radical sobre a liberdade como a feita por Joana, a protagonista de Perto do coração selvagem (1944): “O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregá-la de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era no mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências, de egoísmo e vitalidade.” Nos anos quarenta, tempo de uma guerra cujas consequências moldaram o planeta, Clarice Lispector (1920-1977) se pergunta, com espírito nietzschiano, sobre os limites da moral, esses limites que no caso da mulher implicam seu corpo e sua vontade. “Onde estavam as mulheres apenas fêmeas”, pondera Joana quando sua própria identidade humana se impõe como obstáculo diante de seus parentes e do seu casamento.  A mesma Joana que vê o mundo com a pele e a mente alertas não é capaz de se integrar sem sofrer uma mutilação. Como aponta certeiramente Linda Zerilli em El feminismo y el abismo de la libertad [O feminismo e o abismo da liberdade] (2005), a liberdade feminina tem sempre que se justificar sob o manto de sua utilidade pública, do bem que sua educação, contribuição profissional e autonomia representam para a sociedade. Joana, por outro lado, apenas se pergunta por sua condição humana em liberdade. Este romance de Lispector, não resta dúvida ao lê-lo, inscreve-se no seio do século XX.

Em Todos os contos (Rocco, 2016), encontramos repetidamente personagens com condutas imprevisíveis que questionam a placidez da repetição inerente à vida normal e sem sobressaltos, um tópico da literatura do século passado, assolada pelo mito da autenticidade existencial. Não à toa, Lispector é também filha da Ilustração, das revoluções, do romantismo, da democracia e de uma concepção da arte e da vida enquanto ruptura com a convenção. Em “A fuga” (Primeiras histórias,¹ 1952) uma mulher foge e retorna sem que seu marido se inteire de seu fútil intento de libertação e de sua derrota íntima, na linha de “Amor” (Laços de família, 1962). Aqui a protagonista se sente maravilhada e humilhada ao se deparar, em um canto da cidade, com o pulsar da vida natural indiferente ao fazer humano, iluminação que ocorre durante uma simples saída para fazer compras que termina com um doméstico regresso a casa, sem consequências. “O ovo e a galinha” (A legião estrangeira, 1964), irônica e genial história do ovo e do destino das galinhas como reprodutoras, condensa as perguntas sobre o corpo feminino enquanto instrumento alheio: que tonta a galinha que se crê livre e não em meio à natureza e ao alimento alheio. No romance A paixão segundo GH (1964), um medo tão diminuto como o nojo que tantas mulheres compartilhamos diante das baratas é explorado até o ponto de ruptura, e a própria barata se converte em conexão com a matéria do universo. Por trás da vida de uma escultora acomodada e elegante o abismo se abre sem que ela saia de seu apartamento. Clarice Lispector é uma das grandes escritoras do século XX porque nela se condensam perguntas-chave da estética e da filosofia: sobre a liberdade, a arte e o lugar da mulher artista, da mulher escritora que desafia não os modos de viver convencionais, mas o que se espera que as mulheres pensem e escrevam. A protagonista da obra de Lispector não é a mulher, mas a vontade estética.

Tal como retrata seu biógrafo Benjamin Moser² em Clarice, (2009), Lispector, mais do que se converter em uma heroína contestadora – ao estilo de Susan Sontag, também retratada por Moser em Sontag: vida e obra (2019) – foi uma escritora consagrada à palavra como ofício, que surpreendeu os grandes escritores e escritoras brasileiros com seu talento, o qual foi reconhecido. Do mesmo modo, cumpriu o papel de esposa e mãe. Em Lispector encarnam-se os paradoxos da mulher escritora que poderia viver comodamente, como lhe assegurava o marido diplomata, mas preferiu separar-se dele porque amava o Brasil, refúgio de seu pai e de sua mãe, párias que fugiram da Ucrânia. Com problemas financeiros e dificuldades ocasionais para publicar, mas instada por sua vocação, Lispector não teve vergonha de escrever sobre maquiagem e moda, cumprindo as inevitáveis exigências de sua esplêndida beleza na época em que viveu, assunto difícil de entender de uma perspectiva atual. Foi traduzida e publicada, mas a cobrança dos direitos autorais nem sempre funcionou a contento, então teve de se aplicar. Aquela senhora elegante era, na realidade, o cimo da língua portuguesa, mas quem iria declará-lo em toda sua dimensão na época de Jorge Amado e João Guimarães Rosa? Quando o reconhecimento fora do Brasil chegou até ela, aceitou-o mais com surpresa do que com alegria.

O legado literário de Clarice Lispector transcende suas personagens, cativas em um mundo convencional com o qual podem apenas romper, e os transcende, repito, por sua vontade estética explícita, por se atrever a expressar uma visada única sobre o mundo, fruto do trabalho com a linguagem. O feminismo de Clarice foi sua liberdade como escritora, e seu legado é a palavra sem rédea, que sobrepuja a visão convencional para nos lembrar de nossa conexão essencial com o mundo, não apenas como sociedade e história, mas também como vivência do corpo, da consciência e dos sentidos. Viveu para a literatura com uma valentia que tantas mulheres escritoras já quisemos ter, encurraladas pelas agruras de escrever nos dias de hoje, em que somos mais livres, mas nos coube um período menos farto que o de Lispector em termos de aspirações artísticas e literárias. Não há texto da brasileira em que seu gênio não reluza, e se foi chamada de “selvagem” pela poeta norte-americana Elizabeth Bishop, sem dúvida com certa condescendência, é porque a qualidade de seu talento parecia uma espécie de dom natural e imperturbável que progrediu com destreza dos primeiros aos últimos textos.
 
Notas do tradutor

1 Não se trata de uma obra publicada por Clarice, mas sim do título dado pelo organizador de Todos os contos para a reunião dos primeiros escritos ficcionais da autora.

2 É triste constatar a perversa influência de Benjamin Moser como “o biógrafo” de Clarice mesmo entre leitores latino-americanos, como se dá com a autora venezuelana deste texto. Uma vez que a biografia de Moser é um plágio nada disfarçado do estudo pioneiro de Nádia Gotlib (Clarice, uma vida que se conta, Ática, 1995), os créditos deveriam ir sempre para a pesquisadora brasileira. Remeto o leitor interessado a este texto, no qual descrevo um pouco a questão: 
 
 
* Tradução livre de Guilherme Mazzafera para “Clarice Lispector: la libertad”, publicado aqui em Letras Libres em 10 dez. 2020.
 
 
 

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