Amanhã não ousarão nos assassinar, de Joseph Andras
Por Sérgio Linard
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| Joseph Andras. Foto: Rezvan S. |
Para Marguerite Yourcenar, todo romance é histórico. Para a autora, a narrativa que se apresenta, de um modo ou de outro, terá relações com o passado, incluindo-se aí as possibilidades de questionamentos ou de reafirmações. Os estudos acadêmicos e as inovações cada vez mais constantes das perspectivas acerca dos romances fazem com que o dito romance histórico seja classificado com um subgênero dentro deste grande guarda-chuva que é a tradição romanesca.
Grosso modo, destacamos como resultado de uma figuração histórica aquela narrativa que recorre ao arcabouço de um romance para ficcionalizar eventos que efetivamente aconteceram. Não pretendo me deter nestes detalhes, mas de pronto adianto que considerarei, nesta resenha, Amanhã não ousarão nos assassinar (a partir daqui citado apenas Amanhã...) como fruto de um trabalho que busca resgatar — característica típica deste tipo de narração — um evento que efetivamente aconteceu. Neste caso, porém, não encontramos o problema clássico de textos que perseguem biografias de personas reais: o endeusamento desmedido dos biografados. Fernand Iveton, neste caso, não é alçado ao Olimpo; ele tem, na verdade, sua humanidade restaurada diante de um Estado que, para dar exemplos, objetificou sua existência.
Durante os conflitos pela independência da Argélia, mais especificamente em 1956, o jovem comunista arma uma bomba em seu local de trabalho, em um espaço no qual, segundo consta em seu relato durante o julgamento, era sabido que não haveria pessoas no horário da explosão. De acordo com o próprio Iventon, sua ideia era a de que fossem gerados apenas prejuízos à estrutura da fábrica e aos detentores do Capital, com intuito maior de que a resistência argelina ao poderio francês ganhasse maior repercussão e, assim, a saída do jugo daquele país ficasse mais próxima. Uma luta por liberdade econômica e política.
No entanto, momentos depois de deixar o dispositivo, Fernand Iveton é preso e levado à cela onde recebe as mais diversas formas de tortura para que indicasse nomes de companheiros e, ainda, localização de outros artefatos bélicos. A bomba por ele instalada foi desarmada a tempo e não machucou qualquer pessoa ou gerou qualquer prejuízo estrutural à fábrica. Com base neste ocorrido que Joseph Andras (um pseudônimo), escreve Amanhã... intercalando os eventos entre o fatídico dia da prisão de Iveton, fatos anteriores de sua vida pessoal e o resultado de seu julgamento.
Para o crítico Antonio Candido, a ficção e a realidade não ocupam espaços opostos dentro do campo da criação cultural: o ficcionista transfigura os fatos sociais e torna-os em uma forma literária, garantindo que aquele texto apresente uma percepção possível para o evento narrado. Não se trata, pois, de uma redução simples ou adequação para tornar mais palatável o que, por vezes, é inacessível em alguns documentos da História oficial ou até mesmo da marginalizada.
A ficção ao se dispor a trazer à tona eventos que efetivamente aconteceram propõe uma leitura em que a linguagem é trabalhada para gerar efeitos estético-expressivos que até possuem potência de valor documental, mas não apresentam isso como objetivo de partida tampouco de chegada. Há, obviamente, objetivos que são comuns ao processo de criação literária ao qual o escritor, diante de um material a ser burilado, não deixa de recorrer. Seja para reafirmar perspectivas acerca daquele evento, para ampliá-las, para confrontá-las ou até mesmo para reposicioná-las, entendo como certo o caminho de que este tipo de ficcionalização histórica busca invariavelmente resgatar fatos para, pelo menos, incentivar o debate. Aqui talvez esteja a maior distinção entre este tipo de história e as demais: nítida intenção, de partida, de que a obra sirva como forma de revisitar eventos históricos, algo que pode acontecer a partir de outros textos, claro.

“Fernand jamais teria acreditado que era assim, a tortura, o interrogatório, tão famoso, aquele que só espera uma resposta, a mesma, invariavelmente a mesma: entregar seus irmãos. Que isso podia ser tão atroz. Não, a palavra não é essa. O alfabeto tem seus pudores. O horror dá-se por vencido diante dos vinte e seis pequenos caracteres. Ele sente o cano de uma arma de fogo contra sua barriga. Pistola ou revólver? Ela afunda um centímetro ou dois perto do umbigo. Vou te furar o bucho se você não falar, entendeu ou tenho que te dizer em árabe?” (Andras, 2025, p.16)
Talvez dentro das representações estéticas de processos ditatoriais tenhamos maior contato com o fascismo da linguagem defendido por Barthes. A linguagem que nos obriga a dizer é explorada, pelos carrascos, como moeda de troca entre a vida e a morte. Dizer nomes de companheiros e seus respectivos paradeiros é a saída. Quando a literatura recorre a esta exploração, ela demonstra exatamente o poder fascista desta linguagem por meio do único instrumento de “trapaça” contra aquela ordem de falar. Uma armadilha às avessas.
O excerto acima, além de ser exemplar para entender como este romance explora a linguagem para repensar aquilo que é mandatório, é de muito auxílio para entender a estética adotada dentro de Amanhã... Nesta obra, o narrador está sempre em terceira pessoa, com sua visão onisciente intrusa (aquele que sabe de tudo sobre todos, no campo externo e interno) e não poupa detalhes piscológico-sentimentais daqueles que são narrados, especialmente da figura-inspiração da história. Os percursos, então, com um discurso indireto livre bem explorado, fazem com que sigamos, de um capítulo a outro, entre o processo persecutório que sofreu Iveton e a sua vida, desde fases da infância até o encontro com seu grande amor, Hélène. A leitura, há de se elogiar, tem toda a tensão de um típico caso de suspense em que o protagonista é injustamente levado ao corredor da morte — uma estética similar é encontrada no excelente filme de Lars von Trier, Dançando no escuro — e a leitura é habilmente conduzida por páginas de esperança, mesmo que o resultado do fato histórico seja incontornável.
Em Amanhã..., o leitor angustia-se juntamente dos personagens, mas mesmo sabendo, diferentemente deles, do desfecho, sente-se obrigado a esperançar. O pacto entre obra e público é cumprido com muito rigor, de modo que o material e o fazer literário que encontramos não são, de forma alguma, subjugados a se tornarem um manual histórico, mesmo com potencial para este valor também.
“É o medo que confere ao tempo seu próprio ritmo?” Fernand tem a impressão de estar sob a giesta há horas. Cãibra e formigamentos nas coxas. Não, ele não está delirando, está mesmo escurecendo.” (p.33)
Em uma chave psicanalista, compreendemos que a angústia e ansiedade talvez sejam os sentimentos mais humanos e universais de que temos conhecimento. Muitas vezes estes sentimentos precisam ser ativados como estratégia de sobrevivência e de autodefesa: nada mais humano do que isso. É, pois, sabedor deste fato, que o narrador desta história explora estes dois estados imbricados para fazer com que olhemos para Fernand Iveton como o ser humano que nunca deixou de ser. Somos obrigados a sentir como o desprezo da grande mídia, mantida por um poderio hegemônico, pode cercear liberdades e vidas, sob a pecha de neutralidade informativa. Assim, aquela figura, pelo menos no texto literário em que sua história foi ficcionalizada, tem sua vida resgatada e sua humanidade relembrada, mesmo diante de um Estado que fez questão de apagá-la de modo físico e simbólico.
A leitura de Amanhã não ousarão nos assassinar é, deste modo, altamente recomendada. Trata-se de um exemplar indispensável para interessados por romances históricos; e sobretudo para que jamais esqueçamos o que pode um Estado totalitário com suas agruras, torturas e infelizes desumanizações.
Amanhã não ousarão nos assassinar
Joseph Andras
Letícia Mei (Trad.)
Selo Manjuba/ Mundaréu, 2026
128p.

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