Cinco canções de protesto (em tempos de guerra e turbulência social)

Por Pedro Belo Clara 

Arte: Diana Ejaita




ONDE FORAM TODAS AS FLORES?¹ 
(Pete Seeger/Joe Hickerson, 1955 / 1960)

Onde foram todas as flores?
Tanto tempo passou
Onde foram todas as flores?
Há tanto tempo atrás
Onde foram todas as flores?
Raparigas colheram-nas todas
Oh, quando irão aprender?
Oh, quando irão aprender?

Onde foram todas as raparigas?
Tanto tempo passou
Onde foram todas as raparigas?
Há tanto tempo atrás
Onde foram todas as raparigas?
Em busca de marido, todas elas
Oh, quando irão aprender?
Oh, quando irão aprender?

Onde foram todos os maridos?
Tanto tempo passou
Onde foram todos os maridos?
Há tanto tempo atrás
Onde foram todos os maridos?
Ser soldado, todos eles
Oh, quando irão aprender?
Oh, quando irão aprender?

Onde foram todos os soldados?
Tanto tempo passou
Onde foram todos os soldados?
Há tanto tempo atrás
Onde foram todos os soldados?
Aos cemitérios, todos eles
Oh, quando irão aprender?
Oh, quando irão aprender?

Onde foram todos os cemitérios?
Tanto tempo passou
Onde foram todos os cemitérios?
Há tanto tempo atrás
Onde foram todos os cemitérios?
Em flores se fizeram, todos eles
Oh, quando irão aprender?
Oh, quando irão aprender?


O QUE FIZERAM DA CHUVA?²
(Malvina Reynolds, 1962)

Só uma leve chuva, caindo por toda a parte
As ervas erguem-se à melodia celestial
Apenas uma leve chuva, uma chuva breve
O que fizeram eles da chuva?

Apenas um rapazinho à chuva
A doce chuva há tantos anos caindo
E a erva desapareceu
O rapaz desapareceu
E a chuva ainda cai, como lágrimas desamparadas
O que fizeram eles da chuva?

Apenas uma leve brisa vinda do céu
As mãos das folhas tocam-se à sua passagem
Só uma leve brisa e algum fumo em seu seio
O que fizeram eles da chuva?

Apenas um rapazinho à chuva
A doce chuva há tantos anos caindo
E a erva desapareceu
O rapaz desapareceu
E a chuva ainda cai, como lágrimas desamparadas
O que fizeram eles da chuva?


O SOL QUEIMANDO³
(Ian Campbell, 1963)

O sol no céu queimando
Fios de nuvens lentamente vagueando
No parque abelhas preguiçosas
Nas flores entre as árvores zumbindo numerosas
E o sol no céu queimando 

Agora o sol está a ocidente
Meninos indo para casa, finalmente
E no parque os enamorados
Aguardam a escuridão de dedos enlaçados 
E o sol está a ocidente

Agora o sol está a afundar
Crianças ainda brincando sabem que é tempo de voltar
Bem no alto um ponto aparece
Breve flor rebentando, aproxima-se, não desvanece
E sol está a afundar

Agora o sol a terra tocou
Uma nuvem-cogumelo letal o amortalhou
A morte chega num ofuscante clarão 
De calor infernal, deixa de cinza um borrão  
E o sol a terra tocou 

Agora o sol tem o seu degredo 
Tudo é escuridão, ira, dor e medo
Destroços humanos, cegos e retorcidos
Tacteando de joelhos, de dor os gritos
E o sol teve o seu degredo


SENHORES DA GUERRA
(Bob Dylan, 1963)

Venham Senhores da Guerra
Que construíram as grandes armas
Que fizeram os aviões assassinos
Que montaram todas as bombas
Que se escondem entre paredes
Que se fecham atrás de secretárias
Só quero que saibam
Consigo ver pelas vossas máscaras

Vocês que nunca nada fizeram
Apenas construir para devastar
Vocês brincam com o meu mundo
Como se um vosso brinquedo fosse
Metem uma arma na minha mão
E escondem-se do meu olhar
Voltam-se e para longe correm
Quando as balas rápidas voam

Como o Judas de outrora
Vocês mentem e enganam
Uma guerra global pode ser ganha
É o que querem que acredite
Mas vejo através dos vossos olhos
Através dos vossos cérebros
Como vejo através da água
Que corre para o escoadouro 

Preparam todos os gatilhos
Para outros apertarem 
Então recostam-se, observando
Quando a contagem dos mortos sobe
Escondem-se em vossas mansões
Enquanto o sangue dos jovens
Escorre dos seus corpos
E entranha-se na lama

Vocês instigaram o pior medo
Que poderia ser instigado
O medo de trazer
Crianças a este mundo
Por ameaçarem o meu filho
Por nascer e nomear
Não merecem o sangue
Que vos corre nas veias

Que sei eu
Para falar do que não devo
Poderão dizer que sou jovem
Poderão dizer que não tenho estudos
Mas há uma coisa que sei
Sendo mais jovem que vocês
Nem Cristo perdoaria
Aquilo que fazem

Deixem que vos pergunte
O vosso dinheiro é assim tão bom?
Acham que será possível 
Comprar o vosso perdão?
Julgo que irão descobrir 
Quando a morte vier para cobrar
Todo o dinheiro que juntaram
Jamais salvará a vossa alma

Espero que morram
Que a vossa morte venha em breve
Acompanharei o vosso caixão
Pela tarde pálida
Estarei a observar quando o baixarem
À cova que o espera
E sobre a vossa campa ficarei
Até ter a certeza que morreram 


VÉSPERAS DE DESTRUIÇÃO
(P.F. Sloan, 1965)

O mundo oriental está em ebulição
A violência resplandece, carregam-se balas
Tens idade suficiente para matar, mas não para votar
Não acreditas na guerra, que arma é essa que seguras?
Até no rio Jordão flutuam cadáveres 

Diz-me, então
Uma e outra vez, meu amigo
Como não acreditas
Que estamos em vésperas de destruição? 

Não compreendes o que tento dizer?
Não sentes os receios que hoje sinto?
Se carregam no botão não há como escapar
Não haverá ninguém para salvar com o mundo fechado num túmulo 
Olha à tua volta, rapaz, é suposto assustares-te

E diz-me, então
Uma e outra vez, meu amigo
Como não acreditas
Que estamos em vésperas de destruição? 

Tenho o sangue louco, parece coagular
Sento-me apenas a contemplar
Não posso distorcer a verdade, ela não conhece regra
Um punhado de Senadores não aprova leis
E as marchas, por si não trazem integração 
Quando o respeito pelo homem se desagrega  
Este mundo insano é demasiado frustrante 

E diz-me, então
Uma e outra vez, meu amigo
Como não acreditas
Que estamos em vésperas de destruição? 

E penso em todo o ódio que existe na China comunista
Põe os olhos em Selma, no Alabama⁶
Ah, podes ausentar-te por quatro dias
Quando regressares será o mesmo lugar de sempre
O ribombar dos tambores, o orgulho, a desgraça
Podes enterrar os teus mortos, só não deixes vestígio
Odeia o teu vizinho, mas não esqueças de dar graças

E diz-me, então
Uma e outra vez, meu amigo
Como não acreditas
Que estamos em vésperas de destruição? 


Sugestões musicais:
1. Where Have All The Flowers Gone, The Kingson Trio.
2. What Have They Done To The Rain, Joan Baez
3. The Sun Is Burning, Simon & Garfunkel.
4. Masters of War, Bob Dylan
5. Eve of Destruction, Barry McGuire.
 

Notas
* Versões de Pedro Belo Clara a partir dos originais.

1 Escrita por Pete Seeger, um dos maiores vultos da música folk norte-americana. Porém, foi Hickerson que lhe deu a forma habitualmente cantada, tornando-a uma canção circular. Ganhou expressão pela voz de diversos cantores folk, sendo talvez a versão dos Kingston Trio a mais divulgada. Em 2010 foi listada no Top 20 das mais influentes canções políticas de sempre.

2 Celebrizada pela voz de Joan Baez numa versão assombrosamente delicada e bela, tendo-a designado “a mais doce das canções de protesto”. O tema expressa sérias preocupações acerca dos testes nucleares de superfície. Fora descoberta a presença de certos elementos radioactivos na atmosfera após as explosões, e com a ocorrência de chuva a radiação desceria à terra, contaminando-a. Várias facções tomaram uma posição de protesto, pois esses elementos tóxicos poderiam entrar na cadeia alimentar humana pelo pasto que certos animais, como vacas, comeriam. Seria um ciclo destrutivo. Malvina participou activamente em marchas contra os testes nucleares. 

3 Composta por um músico escocês, mas foi nas doces vozes do duo Simon & Garfunkel que o tema alcançou a celebridade. Mais um exemplo de protesto suave, dado o tom quase pastoral da melodia, embora nos deixe com vívidas imagens do que um flagelo nuclear provocará.  

4 Presente no segundo álbum do cantor norte-americano, rapidamente se tornou num dos ícones musicais na década de sessenta. Uma clara acusação dirigida aos orquestradores de conflitos, nos tempos incertos da Guerra Fria. A conceituada Rolling Stone classificou-a em sexto lugar, no ranking das mais influentes canções-protesto de sempre. 

5 O seu autor era sobretudo um guitarrista, pelo que sempre houve o intuito do tema ser entregue a alguém que lhe pudesse dar voz. A canção encontra um relativamente desconhecido Barry McGuire que, pouco convencido, decidiu gravá-la, com o próprio Sloan na guitarra. O sucesso foi imediato, tornando-se com o tempo um dos grandes hinos contra a guerra do Vietname. E não só: dado o carácter universal da letra, percebem-se críticas à preocupante situação vivida na década, tanto na América como fora dela. Várias estações de rádio recusaram-se a tocá-la com a justificação de que “auxiliava o inimigo vermelho”. Porém, diga-se, sem retirar méritos à canção, que muita da sua celebridade ficou a dever-se ao media da época. Numa tentativa de torná-la um símbolo de tudo o quanto havia de errado com a designada “cultura jovem”, acabaram por despertar interesse nela. Uma vez escutada, milhares de jovens americanos rapidamente se reviram na sua mensagem. 

6 Local do “Domingo Sangrento”, ocorrido em março de 1965. Diversas pessoas protestavam pacificamente pela igualdade de direitos entre brancos e negros, quando foram brutalmente agredidos pela polícia local e estatal. A cidade foi um importante epicentro da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, e ponto de partida de diversas marchas de protesto (as célebres “Selma to Montgomery”, esta última a capital do estado).

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