Quando uma gramática nos leva para longe

Por Rafael Bonavina 

Henrique Canary. Foto: Arquivo da Usina Editorial

De tempos em tempos, um turbilhão de memórias passa pela nossa frágil razão e a leva consigo para sabe-se lá onde. É como se a lembrança nos agarrasse pelo colarinho e jogasse escada abaixo, e nós, sem qualquer meio de resistir a esse assalto cognitivo, rolamos pelos degraus, semiconscientes do que está acontecendo. Este ano começou, para mim, com um desses eventos interiores, causado pelo lançamento da Gramática da língua russa para brasileiros, escrita por Henrique Canary, professor de língua russa e doutor em literatura e cultura russa pela Universidade de São Paulo.

O lançamento ocorreu no dia 31 de janeiro, no Café Colombiano, um centro de cultura acolhedor de São Paulo que também é um importante espaço de resistência latino-americana. A casa cheia de participantes, o autor empolgado pelo seu discurso sobre linguística, língua russa e sua relação pessoal com esse país tão intrigante e contraditório. E eu, mediador. A bem da verdade, eu já sabia que esse livro seria publicado pela Usina Editorial, pois fui convidado para ser o revisor textual. Como todos sabem, estar na coxia é muito diferente de estar no palco; e foi no instante em que as cortinas subiram que eu me vi nas garras da memória. 

A Gramática em si é um verdadeiro marco para os que estudam esse idioma e certamente merece a atenção de todos os interessados. É possível afirmar isso com razoável segurança, pois ela nasce da experiência de quase uma década de ensino de russo. Isso é, por não encontrar um livro didático voltado para brasileiros, Canary escreveu ao longo dos anos diversos textos explicativos para seus alunos, que depois foram modificados para compor um livro uno e bem-articulado. A linguagem acessível e leve utilizada pelo autor também colabora com esse precioso material e facilita que o leitor compreenda melhor a perspectiva muito consciente e embasada de Henrique Canary sobre o processo de ensino-aprendizagem da língua russa.

Contudo falávamos dos turbilhões da memória; e para mim o sopro que deu início ao vendaval foi o lançamento da Gramática de língua russa para brasileiros, em especial a fala do autor sobre os sete anos que vivera na Rússia. Enquanto ele nos contava sobre sua relação com seus amigos russos e com a cultura russa em geral, foi-me impossível evitar de pensar na minha própria trajetória.

E, assim, fui tomado pelas imagens dos idos tempos de graduação, quando iniciei meus estudos de língua russa. Era muito difícil, na época, encontrar um material didático em português, exceto as apostilas feitas das raras escolas particulares de russo, que, além de caras, acabavam sendo materiais de apoio para as aulas oferecidas, e não um material de estudo independente. Acabávamos recorrendo aos materiais em espanhol, cuja proximidade linguística permitia certos paralelos com a última flor do Lácio, ou em inglês, claro, em versões digitais. Depois de uma boa pesquisa era possível encontrar uma ou outra gramática, mas em geral eram tiragens esgotadas e, portanto, os exemplares ficavam caríssimos e, muitas vezes, inacessíveis. 

Ao longo dos anos, tive a oportunidade de adquirir alguns desses livros didáticos da mão de colegas que, por um motivo ou outro, acabavam se desfazendo dessas raridades. Alguns títulos eram mais voltados à memorização de frases úteis para uma viagem à Rússia, apresentando ao estudante, por exemplo, como se pede um café ou direções para o metrô. Outros tinham a preocupação de explicar algumas questões gramaticais de maneira sincrônica, isso é, como se compreendia a língua em determinado momento. Porém, a meu ver, a falta de uma explicação interna das raízes históricas do idioma acabava por dificultar a compreensão de algumas de suas particularidades.

Nesse sentido, a Gramática da língua russa para brasileiros tem uma importância dupla, já que oxigena, ao mesmo tempo, o ramo de livros didáticos da língua russa e a própria perspectiva de ensino utilizada no Brasil. O primeiro ponto é mais simples de se notar, afinal o livro está à venda neste momento por um preço bastante acessível para o mercado editorial atual. O segundo, no entanto, é um pouco mais fugidio e, por isso, daremos um pouco mais de atenção a ele.

Como dissemos, é possível perceber em uma parcela expressiva dos materiais didáticos de língua russa em português uma perspectiva sincrônica, mas Canary adota uma visão diacrônica, que ganha muita força pela sua formação em história — diploma conquistado, diga-se de passagem, em uma universidade russa. Além de um breve capítulo dedicado à história da russo moderno, as explicações apresentadas ao longo de todo o livro são marcadas pela ideia de uma língua em constante transformação, sempre se adaptando para melhor atender às necessidades do seu povo. Em outras palavras, a língua está a serviço da expressão dos nativos, e não os falantes que se adequam às estruturas linguísticas apriorísticas. Por essa razão, é possível notar um forte teor gerativista na perspectiva gramatical que fundamenta o livro, sem, contudo, recair em um excessivo relativismo linguístico, o que poderia dificultar a compreensão dos iniciantes.

Não queremos dizer com isso que as outras gramáticas tenham sido superadas, nem mesmo que precisem ser deixadas de lado. Pelo contrário, uma grande vantagem da maior bibliodiversidade é justamente a opção de buscar outras fontes para se tentar sanar uma dúvida ou evitar uma explicação que possa ter ficado pouco clara. O mérito dessa nova gramática, nesse aspecto, é a de complementar as demais com uma perspectiva que tinha sido pouco explorada até então pelos livros didáticos do russo. E o faz de maneira muito orgânica, pois se propõe a ser um material de consulta, a ser usado como complemento às aulas de um professor ou aos estudos de um intrépido autodidata.

Todas essas questões provavelmente ficarão mais claras com um exemplo, então vamos a ele. Uma das maiores dificuldades dos estudantes brasileiros é a declinação, uma característica de algumas línguas — como o russo, o alemão e o latim —, em que as palavras mudam conforme a sua função sintática em uma frase. Dito de outra forma, se temos o substantivo maltchik (garoto) como sujeito da oração, ele se escreve assim, mas se é objeto direto de uma ação, ele passa a ser maltchika; se for objeto indireto, será maltchiku etc. Há uma série de regras (e de exceções, diga-se de passagem) que nos ajudam a prever as transformações das palavras. Essa característica da língua russa pode parecer estranha ou até desnecessária, mas não é bem assim, e Henrique Canary nos explica da seguinte forma:

“Então, quem inventou as declinações? O povo simples. E por quê? Por incrível que pareça, para facilitar a compreensão das frases, uma vez que a palavra carrega uma “marca” que demonstra sem dificuldades a sua função sintática. Os eslavos orientais que caçavam, coletavam frutas e cultivavam o campo da atual Ucrânia no século 6 não eram gramáticos, mas intuíram esse fato extraordinário. Com isso, as orações se tornam mais soltas, mais flexíveis. Podemos mudar mais livremente o lugar dos termos em uma frase sem que se perca o seu significado preciso. Também dependemos menos do contexto para entender o sentido das coisas, evitamos ambiguidades. A língua se torna mais sintética e, em certa medida, mais simples, menos analítica.” (Canary, 2025, p. 143)

O excerto apresenta uma linguagem clara e simples, demonstrando a preocupação com o leitor por meio do tom didático usado pelo autor para explicar um tema tão complexo. A perspectiva diacrônica de que falávamos aparece na menção às raízes históricas da língua, aqui mais referenciadas que discutidas, o que nos dá uma sensação de contato amplo, irrestrito com o idioma. Nas páginas seguintes, claro, Canary discute as particularidades e usos de cada caso gramatical, apresenta as tabelas de declinação e nos traz alguns exemplos. Porém, a nosso ver, esse excerto é bastante representativo das questões expostas aqui.

É importante ter em mente que não se encontrará ali exercícios de fixação, apenas exemplos e explicações. Daí o que dissemos sobre a Gramática não substituir, de forma alguma, as aulas e mesmo a utilização de outros materiais didáticos. Em suma, então, a Gramática será mais bem aproveitada se for usada como uma fonte confiável de consulta — aliás, elemento raro e precioso nos tempos de fake news e das, chamadas, inteligências artificiais.

Escrever esta resenha do novo lançamento me tornou vítima, mais uma vez, de um sequestro da memória: lembrei-me de uma aula que tive, há alguns anos, com o Henrique Canary. Eu ainda não tinha ido à Rússia nenhuma vez, e estava acostumado com os materiais de ensino mais matemáticos, por assim dizer, pautados em grandes quantidades de exercícios. Não posso reclamar desse método, para ser sincero, pois devo praticamente tudo que sei a eles, afinal foi ali que consegui formar uma base sólida de língua russa, apesar das minhas muitas deficiências. 

Também me lembrei das explicações de Canary, que eram muito didáticas, mas o que mais me marcou foi sua lousa, muito organizada e escrita com uma caligrafia impecável. Parece que tudo isso aconteceu outro dia, apesar de ter sido há algo como uma década. Bom, na verdade realmente foi outro dia, afinal todo esse turbilhão de memórias se deu no dia 31 de janeiro, ali no sofá do Café Colombiano, ao lado do meu antigo professor enquanto falávamos do seu novo livro. 

***

Para os interessados, a Gramática da língua russa para brasileiros pode ser adquirida diretamente com o autor, pelo seu Instagram (@henriquecanary), um perfil que também tem se dedicado a divulgar muitas informações interessantes sobre o idioma. Além disso, o livro também se encontra disponível no site da Usina Editorial.  

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