Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (5)

Corpo a corpo – paisagem dos cinqüent’anos ou uma volta em mágoa

Por Paulo de Tarso Correia de Melo*





Corpo a corpo

Pasto branco
potro bravo
corpo a corpo
corre o certo
tempo incerto
de um corisco

Pasto e cobra
rosto franco
na empreitada:
febre e fogo
nesse jogo
de encontrar-se

Pasto e potro
rasto e sono
em breve trato:
rosto acorda
laço e corda
desatados

Pasto grave
tenso rosto:
cobra-cobra
se consome
na empreitada
re-presada

Pasto franco
rosto breve
fogo e risco
fome e riso
no improviso
desse jogo

Pasto bravo
potro branco
corpo a corpo:
na campina
o potro: a crina
engalanada

(Zila Mamede, Corpo a corpo)

***

“[...] a beleza é tão grande
mas ninguém a enxerga.”

(Marinha ou Paisagem dos cinqüent’anos)

Embora a autora defina Corpo a corpo como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam o seu itinerário poético, a novidade desses poemas inéditos está, outra vez, muito mais na forma, se tomada em relação ao livro imediatamente anterior, que no retorno temático.

Quanto a esse pretenso retorno, Zila retoma alguma coisa de Exercício da palavra, decidida a fazer enxergar a beleza de visões amargas como o motel, na dupla de poemas “O telefone / O bar”, o serão do poema “Retrato de minha mãe costurando” ou os bairros pobres de “Marinha”. Assim sendo, a maioria temática desse novo livro se faz para uma preocupação que poderíamos classificar de urbano-provinciana.

Um ângulo de visão curiosamente oposto à maior parte dos demais poemas está presente em “Procissão”. Este poema não trata de demonstrar a beleza que ninguém enxerga na vida amarga e sim a amargura humana que se desprende da visão fisicamente sublime.

Os grandes conseguimentos do livro estão nos poemas “Pregão – A cadei(r)a” e “Bilhar”. No primeiro, o metassignificativo é tão definitivamente entretecido como em “A ponte”: o plurificado auditório televisivo, fantasmal e onipresente. No segundo, a súbita consciência do “sem rumo jogo-de-amar” é toda uma definição da condição humana.

Os dois poemas referidos são também os representantes melhores da aludida renovação formal: a economia verbal está presente evitando o que poderia ser acessório, mas não chega a influir na duração dos poemas de Corpo a corpo.

Na maioria destes, entretanto, o melhor controle retórico, que é uma das grandes características de Exercício da palavra faz-se presente. Nota-se também um seguro encontro do ritmo certo para cada forma: o mecânico ritmo do “Retrato de minha mãe costurando”, a informação rápida dos quartetos de “Pregão – A cadei(r)a”, a concentração lacônica do “Bilhar”, o absolutamente vitorioso desafio à facilidade das quadras e rimas, imprescindível à criação de “Tango”e o passo cadenciado da “Procissão”, que somente poderia ser escrito-descrito como o foi, em dísticos relativamente breves.

ANEXOS

O telefone/O bar
(fragmento)

1. Concerne ao telefone
resolver nada e tudo
um tudo que em ser nada
gira num disco mudo

som e voz de projeto
voz em negro e sem fio
fio anônimo e suspeito
cantiga de desafio

Decide o telefone
banquete e funeral
explosão de quartetos
desordem mineral

no avesso testemunho
do uísque em combustão
do concerto barroco
e da explícita fusão

homem-mulher-cadeira
em tons neutros de epox
as tabelas de preços
o acrílico do box

(Zila Mamede, Corpo a corpo)


Vincent Van Gogh. A cadeira de Van Gogh com cachimbo.

Pregão – A cadei(r)a

Olhe a cadei(r)a
flor anatômica
plurificada
no pensamento:

no transparente
da forma acrílica
cem mil sementes
patenteadas

Olhe a cadei(r)a:
voz parabólica
projeta o corpo
do seu terraço;

desenha focos
onda de vídeos
no movimento
dos seus canais

Olhe a cadei(r)a
nos antiquários
junco e palhinha
paz no entremeio –

cantar do tempo
de herança austríaca:
salas-salões
pulverizados

Olhe as cadei(r)as
fluídas do mundo
neutro auditório
sono profundo:

anfiteatros
coro eletrônico
da sinfonia
do tempo atômico.

(Zila Mamede, Corpo a corpo)


Retrato de minha mãe costurando
(fragmento)

A máquina move
bobina fios
a máquina fixa
flor de atavios

Corra essa correia
de couro curtido
de roda ao pedal
como um desafio

Dance a inquieta agulha
em louco vai-e-vem
cutelo e fagulha
de calor, de bem

A máquina e
o veio:
aranha a tecer
varizes inchadas
longo anoitecer

A máquina
e o tempo:
luz de lampião
pedal madrugada
cheiro quente:o pão

(Zila Mamede, Corpo a corpo)


Fernando Botero. Dançarinos



Tango

a Leonardo Bezerra

Imagem dessa hora mansa
em que, distante, descansa
aquela veste encarnada,
aquela veste encarnada.

Era um doce manequim
moreno-rubro em cetim,
um manequim que pensava
muitos nãos e pouco sim.

Havia a vitrine oblonga
– a casa do manequim
de veste encarnada e longa,
cílios de longo nanquim.

Os sorrisos coloridos
e os dentes (leite e jasmim)
imóveis nas formas vítreas
na prisão do manequim.

As contas de musgo e vidro
dos olhos do manequim
rolaram dentro do abismo
de um amor, num botequim.

.....................................................

Escapam falas, detalhes
do sofrido manequim
nessa hora cansada e mansa
que bate dentro de mim.

(Zila Mamede, Corpo a corpo)


Bilhar

a Ludi e Oswaldo Lamartine

Na medida exata
em que a noite corre
não fico: me ausento
como quem morre

Entre lousa e livro
– único disfarce
que concedo o tempo –
mudo-me a face

que, no entanto, vária,
inábil, reprimida,
perde-se no encontro
tátil da vida

Bola sete em rude
pano de bilhar
marco meu sem rumo
jogo-de-amar.


* Texto publicado em MAMEDE, Zila. Navegos; A herança. Natal, 2003, p. 32 e 33.

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