Quatro livros para entrar no universo literário de José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa. Foto: Jordi Buch



Quem eu sou não ocupa muitas palavras: angolano em viagem, quase sem raça. Gosto do mar, de um céu em fogo ao fim da tarde. Nasci nas terras altas. Quero morrer em Benguela, como alternativa pode ser Olinda, no Nordeste do Brasil.

Escrever me diverte, e escrevo também, porque quero saber como termina o poema, o conto ou o romance. E ainda porque a escrita transforma o mundo. Ninguém acredita nisto e no entanto é verdade.

- José Eduardo Agualusa, entrevista a Denise Rozário (1999, p.362-363)



De família brasileira e portuguesa, nascido em 1960, na cidade de Huambo, Angola, José Eduardo Agualusa adquiriu de suas referências culturais um amplo senso de pertencimento. O autor se define como afro-luso-brasileiro. Dividindo-se entre os três continentes, ele é jornalista e estudou Agronomia e Silvicultura em Lisboa. E imprime em sua obra o destaque à relação cultural entre os países de língua portuguesa, através da fusão das influências de cada um deles.

Sua estreia na literatura acontece com o romance A conjura, em 1989, livro com o qual foi logo premiado. Depois desse título fez dessa forma literária sua prática constante, de maneira que podemos defini-lo como um romancista. Vieram, entre outros, Estação das chuvas (1996), Um estranho em Goa (2000), O ano em que Zumbi tomou o Rio (2001), O vendedor de passados (2004), este possivelmente um dos seus trabalhos mais conhecidos, As mulheres do meu pai (2007) e Barroco tropical (2009).

Na prosa, José Eduardo Agualusa se destaca ainda pela escrita de novelas e contos; destas formas destacam-se, respectivamente, A feira dos assombrados (1992), A girafa que comia estrelas (2005) e D. Nicolau Água-Rosada e outras estórias verdadeiras e inverosímeis (1990), Fronteiras perdidas (1999), O homem que parecia um domingo (2002), Manual prático de levitação (2005) e Passageiros em trânsito (2006). Também escreveu poesia e literatura infantil. 

A variedade criativa da sua obra, como se preocupa em estabelecer uma leitura acerca dos múltiplos trânsitos culturais herdados de um passado colonial, gênero que mais pratica, junto ao reconhecimento que sua literatura alcança em vários setores da crítica, fazem de José Eduardo Agualusa um escritor para se guardar atenção e interesse por sua obra. Obra esta cujas fronteiras alcançam a força da sátira sobre o passado e o presente numa Angola atravessada pelos dilemas da colonização.

Entre o despertar dos interesses para as produções construídas em África, o escritor aqui referido se situa entre nomes como Pepetela, ganhador do Prêmio Camões em 1997, Luandino Vieira, também Prêmio Camões, em 2007, João de Melo, Manuel Rui, todos de seu país, muitos ainda desconhecidos entre nós. Que possamos melhor descobri-lo/s. No caso de José Agualusa não é tão difícil encontrar seus livros. Abaixo, copiamos alguns títulos e suas respectivas sinopses. Sim, podemos começar agora:

1. O vendedor de passados (Gryphus, 2004): Esta é a história de um albino que mora em Luanda e que traça árvores genealógicas em troco de dinheiro. Estranho ofício, estranho o personagem principal  o vendedor de passados falsos, Félix Ventura  e mais estranho ainda o narrador: uma osga, um tipo de lagartixa. É ela que vai contar como o albino Félix fabrica uma genealogia de luxo para seus clientes. São prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia angolana que têm futuro assegurado, mas falta-lhes um bom passado. A vida de Félix anda muito bem, até que uma noite recebe a visita de um estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E, então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer.

2. As mulheres do meu pai (Língua Geral, 2007): Este livro surgiu de uma viagem que o autor fez pela África com a intenção de escrever um roteiro para cinema. O resultado deve ser uma narrativa feita em dois planos, alternando e inter-relacionando realidade e ficção. O autor visa cruzar o relato de sua própria viagem com o do personagem Laurentina Manso, diretora de cinema e documentarista que atravessa a África Austral para tentar reconstituir a vida do pai, Faustino Manso, músico angolano que deixou sete viúvas e 18 filhos espalhados por diversos países do continente.

3. A conjura (Gryphus, 2009): Em seis capítulos, a obra narra as histórias dos habitantes da velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, entre os anos de 1880 e 1911. Em um contexto marcado por turbulentas transformações, essa colônia portuguesa era o destino de degredados, ladrões e assassinos da pior espécie. Nessa época, quando nas ruas de Luanda se cruzavam as tipoias dos nobres senhores africanos com as caravanas de escravos angolanos, e os condenados vindos do Reino de Portugal se entranhavam pelos matos em busca de fortuna, estórias se passaram que a História não guardou. Estórias de amores e prodígios que ainda sobrevivem em antigas canções. Estórias de personagens como o barbeiro Jerónimo Caninguili e a jovem Alice, cujas desventuras acompanhamos até o fatídico 16 de junho de 1911, dia da frustrada tentativa de tornar Angola independente de Portugal.

4. Barroco tropical (Companhia das Letras, 2009): Este é um livro ambicioso, de grande fôlego e densidade. A ação se passa em Luanda no ano de 2020 e é narrada alternadamente pelo escritor Bartolomeu Falcato e pela cantora Kianda, sua amante. Os dois testemunham juntos um fato insólito, a queda de uma mulher do céu. A mulher em questão é uma modelo e ex-miss que frequentou a cama de políticos e empresários de expressão, o que a tornou uma figura incômoda para o establishment. Numa narrativa que avança e recua livremente no tempo e que se desloca entre a África, a Europa e o Brasil, Agualusa traça um retrato vivo e pulsante da sociedade angolana atual, onde as tradições ancestrais convivem de modo nem sempre pacífico com uma modernidade mal assimilada. Essas contradições estão sintetizadas no prédio onde mora o escritor Falcato, a Termiteira, futurística torre de 60 andares, o maior edifício do continente, que não terminou de ser construído e já está em ruínas, abrigando os ricos nos andares superiores e a ralé social e criminal no subsolo. Mães de santo e curandeiros convivem nestas páginas com figurinistas de fama internacional, empresários da aviação, militares golpistas e traficantes de drogas e de armas. Romance generoso e exuberante, cheio de personagens pitorescos, Barroco tropical reflete desde o título o que Agualusa identificou em seu país como “uma certa cultura do excesso, quer na maneira de as pessoas se divertirem, quer na maneira de demonstrarem o sentimento e a dor”. O insólito está sempre presente, mas intimamente entrelaçado ao prosaico e ao cotidiano, pois, como declarou o autor, referindo-se a Angola, Portugal e Brasil, “nos nossos países a realidade tende a ser muito mais inverossímil do que a ficção”. 

Ligações a esta post:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #571

Pureza, de Garth Greenwell

A criação do mundo segundo os maias

A bíblia, Péter Nádas

Boletim Letras 360º #566

Boletim Letras 360º #570