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O que quer um escritor?

Por Pedro Fernandes



Já muitas vezes tenho me deparado com a ardilosa pergunta. E ela volta agora no trabalho de reflexão sobre a obra literária: trabalho que parece ser o de construir um conjunto de ideias formadoras de uma obra e consequentemente do pensamento de um escritor. Já muitas vezes tenho respondido a mim mesmo e a quem me pergunta da real importância que se tem ler literatura, que o escritor e a literatura não querem nada. É verdade que essa resposta anarquista é forjada no calor de instaurar um problema na ordem da existência da arte e na ordem da nossa própria relação para com ela. Quando afirmo pela boca coletiva de que "nada" é a essência da querença do escritor e consequentemente da literatura, digo que o escritor e a literatura existem para desestabilizar ordens, instaurar paradigmas, resolvê-los é o que menos lhe interessa. Não existe o escritor para compactuar sempre com a ideia dominante. Existe para propor caminhos diferentes dos já trilhados. Existe para nos reinventar e reinventar o espaço-tempo, duas materialidades discursivas. A dimensão de qualquer escritor e de sua obra deve ser constituída pela ordem da inquietude e de um caráter lúcido para com as diversas vertentes discursivas que compõem sujeito e sociedade. Logo, talvez, assim, brevemente, possa responder que o "não-querer" do escritor é um querer outro - não da ordem da utopia - mas da ordem do sentido. Reinstalar sentidos. Reatualizar rotas. E volto: o que quer José Saramago com o protagonismo dessas mulheres na sua literatura? 


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