Comer, rezar, amar, de Ryan Murphy

Por Pedro Fernandes

A beleza e o talento de Julia Roberts não são suficientes para decolar o filme

O filme é uma releitura do Best-Seller duvidoso Eat, Pray, Love: One Woman’s Search for Everything Across Italy, India and Indonésia de Elizabeth Gilbert. No filme, o centro dos holofotes para a protagonista vivida por Julia Roberts. O estrelismo de Julia entretanto não fez o filme decolar. Comer, rezar, amar finda sendo um filme clichê mais parecido com um catálogo de auto-ajuda do que um drama, no sentido do termo.

Após uma separação, a protagonista lança-se numa aventura em busca de outros prazeres que venham (por que não pensar assim) substituir os prazeres da carne. Apenas o voto de luxúria não é apresentado, assim, desse modo, tão escrachado que falo. Mas a verdade é que o prazer pela comida vem como elemento, ou verbo primeiro que, além de substituir o outro verbo, amar, vem para se não, amenizar tal o verbo, já que o que prevalece, no meio de tanta comilança e reza, é o amor, seguindo, é óbvio, o clichê de que sem amor ninguém é alguém.

Na insatisfação do paladar e sentido-se esvaziada de si, algo, aliás, extremamente normal para os sujeitos contemporâneos, diria Hall, entra em cena o segundo verbo ativo: rezar. Se o primeiro verbo se degusta em terras de Itália, pela famosa fartura de sua cozinha, este segundo verbo vai se passar na Índia, terreno por demais minado de ponta a ponta por uma leva de crenças religiosas. Nesse estágio a protagonista já está a par daquilo que poderá ser a grande virada na sua vida, marcando-se, claro, um momento de reflexão e de reconstrução espiritual e psicológica. E comendo e rezando que ela poderá alcançar o sublime dos dois verbos - afinal, comer e rezar, cabem, ajustadamente no verbo terceiro: amar. Verbo-prova-dos-noves. Juntando-se as particularidades do comer e do rezar, cabe, é claro, re-ver a possibilidade de por um equilíbrio à balança sentimental.

De modo que, olhando assim, havemos de entender um estágio de impecável para o enredo e também para a vida de Liz - é o apelido carinhoso da dita protagonista. Mas, isso não é o suficiente. Há que ver o filme para perceber que os estágios verbais são macentos e apáticos, salvando-se, quando muito, as tomadas de câmera pelos países visitados pela protagonista. O perfil imagético do filme, creio, leva-nos ao alcance do sentido dos verbos, muito diferente, das suas vivências pela personagem central. Mas é só: no fim de contas tudo acaba se perdendo em meio a uma cansativa e arrastada narrativa.

E parece que, também, pelo menos esse foi meu sentimento, perde-se a própria natureza dos verbos, principalmente quando entra em cena, e cena-clichê, um homem a príncipe encantado (brasileiro-false vivido pelo Javier Barden), bem ao estilo Hollywood; e, por isso, vai este filme para aquele rol que venho montando aqui, de alguns dos filmes não-brilhantes mas que carecem de um comentário.


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