Flaubert, a ciência certa

Por José Manuel Sánchez Ron

Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert. Ilustração: Gavarni.



Ninguém é uma ilha isolada do mundo em que vive. Advertido ou inadvertidamente, o mundo, suas realizações, esperanças, medos ou dramas entram em nosso ser pelos poros do pensamento. As notícias editoriais são um bom e contínuo barômetro disso. Atualmente, reagindo ou testemunhando calamidades ou ameaças — mudanças climáticas, terrorismo, confrontos político-militares possíveis ou reais, erupções vulcânicas... — não é surpreendente encontrar títulos como Peligros cósmicos. El incierto futuro de la humanidad (Perigos Cósmicos. O futuro incerto da humanidade, tradução livre), do astrofísico e divulgador científico David Barrado Navascués, ou que o último romance de Ken Follett, Never, trate de uma crise global que enfrenta a China e os Estados Unidos; “uma história intensa e acelerada — tal como anunciada na contracapa — que transporta os leitores à beira do abismo”.
 
A “presença do contemporâneo” é detectada até mesmo em escritores que associamos a paixões humanas tão primárias como o amor ou a falta de amor. Gustave Flaubert (1821-1880) costuma ser associado a esse tipo de paixões, sobre as quais centra Madame Bovary (1857), mas seria um erro acreditar que ele foi alheio à sociedade a que pertenceu. E na sociedade francesa de seu tempo, a ciência gozava de boa saúde. Na medicina, a França era uma referência mundial, com personagens como François Magendie (1783-1855), um dos médicos que mais fez para mudar a situação em que se encontrava a fisiologia. E uma menção especial é devida ao seu discípulo mais ilustre: Claude Bernard (1813-1878), cujo nome sobreviveu ao passar do tempo, especialmente por um livro em que apresentou sua visão da medicina: Introdução ao estudo da medicina experimental (1865), e que Louis Pasteur (1822-1895) — o grande nome da medicina francesa daquele século, e um dos grandes em toda a história da medicina, ele que foi químico e físico — descreveu como “monumento em homenagem ao método que tem constituído as ciências físicas e químicas desde Galileu e Newton, e que Claude Bernard se esforça por introduzir na fisiologia e na patologia”.
 
A influência do livro de Bernard ultrapassou os limites da medicina, penetrando na literatura. Para Émile Zola, foi a referência no que chamou de “romance experimental” ou “escola naturalista”. “A ideia de uma literatura determinada pela ciência — escreveu (O naturalismo) — só pode surpreender se não for especificada ou compreendida. Parece-me útil dizer com clareza o que deve ser entendido, a meu ver, por um romance experimental. Terei apenas que fazer alguns trabalhos de adaptação, uma vez que o método experimental foi estabelecido com força e clareza maravilhosas por Claude Bernard em sua Introduction à l’étude de la médecine expérimentale”.
 
E a medicina não era a única ciência francesa em expansão, o mesmo acontecia com a química e a física. Em janeiro de 1823, o mais tarde famoso químico alemão Justus Liebig escreveu de Paris — para onde se mudou a fim de estudar com Joseph Louis Gay-Lussac — que “não há lugar em que as ciências naturais floresçam mais do que aqui e onde elas se envolvam mais na vida prática”. E em 1845, o jovem físico William Thomson (futuro Lord Kelvin), recém-formado em Cambridge, não encontrou lugar melhor para estudar do que na Paris de Liouville, Cauchy, Regnault, Arago, Fizeau, Biot e Foucault. 
 
A questão nesta celebração do bicentenário do nascimento de Flaubert é: há algum vestígio de ciência em sua obra? Em Madame Bovary essa presença é pequena, mas não desprezível, afinal Charles Bovary, o infeliz marido de Emma, ​​era médico, assim como o pai de Flaubert, cirurgião-chefe do hospital da cidade normanda de Rouen.

“O programa dos cursos, que [Charles] leu no quadro de avisos, — lê-se no primeiro capítulo — causou-lhe um efeito de estonteamento: curso de anatomia, curso de patologia, curso de fisiologia, curso de farmácia, curso de química, e de botânica, e de clínica, e de terapêutica, sem contar a higiene nem a matéria médica, nomes todos de que ignorava as etimologias e que eram, como outras tantas portas de santuários, cheios de augustas trevas”¹. Num outro capítulo, o oitavo, sr. Homais, o farmacêutico, responde, aborrecido, à questão de se sabe alguma coisa sobre agricultura: “Certamente, sou versado, visto que sou farmacêutico, isto é, químico! E a química, senhora Lefrançois, tendo por objeto o conhecimento da ação recíproca e molecular de todos os corpos da natureza, decorre que a agricultura se encontra compreendida em seu domínio! E, com efeito, composição dos fertilizantes, fermentação dos líquidos, análise dos gases e influência dos miasmas, o que é tudo isso, pergunto-lhe, senão a química pura e simples?”
 
Se buscamos, como o caçador de dados, em outro de seus romances mais conhecidos, A educação sentimental (1869), também há vestígios científico-tecnológicos, como esta declaração de fé tecnológica: “Em vez de procurar aperfeiçoamentos artísticos, teria sido melhor introduzir aparelhos de aquecimento de hulha e de gás.”². Mas sua obra-prima em conteúdo científico-tecnológico é Bouvard e Pécuchet (1881). Protagonizada por dois amigos, almas gêmeas que embarcam na procura de todo o tipo de saberes — fracassam continuamente —, entre os quais se destacam os científicos: medicina, botânica, agricultura, geologia, paleontologia, química ou astronomia fluem em constantes diálogos nos quais o cômico e o autêntico, a paródia e a informação verdadeira se confundem, como quando se discute o dilúvio bíblico: “Que significavam no Gênesis ‘O abismo que se rompem’ e ‘as cataratas do céu’? Porque um abismo não se rompe e o céu não tem cataratas!”; “como explicar a chuva que ultrapassava as mais altas montanhas, que medem duas léguas!”; “aquela massa de água, de onde vinha ela?” — dispara Bouvard para o pároco, que respondeu: “Sei lá! O ar tinha-se transformado em chuva, como acontece todos os dias”³.
 
Flaubert não foi, portanto, um daqueles protagonistas literários das “duas culturas”, separados por um abismo de profunda incompreensão; assim, por exemplo, em sua correspondência da década de 1850, enquanto escrevia Madame Bovary, aparecem citados faróis da ciência como Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire ou Buffon. Como Zola ou Balzac, Flaubert respeitava a ciência.
 
 
Notas
1 A tradução referida aqui é de Mário Laranjeira (Penguin Companhia, 2011).
2 A tradução referida aqui é a de Rosa Aguiar (Penguin Companhia, 2017).
3 A tradução referida aqui é de Pedro Tamen (Edições Cotovia, 2015)
 
* Este texto é a tradução de “Flaubert, a ciencia cierta”, publicado aqui em El Cultural.

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