O que pensar da força invisível do cotidiano?

Por Tiago D. Oliveira



 
O que pensar do cotidiano, este sono sem sonho? Talvez o que a poesia perceba é exatamente a sua força raiz que se figura como um nome. O que nomina tem a potência que carrega o mundo, as coisas, as pessoas. O nome é o incêndio que sustenta a razão. O escudo, a espada que re/define a linha tênue que nos define vivos na carne ou na memória. Pensar as relações possíveis que o tamanho da palavra pode causar, pensar aqui é estrofe, é verso.
 
Em Lumes, novo livro de poemas da portuguesa Ana Luísa Amaral editado no Brasil pela Iluminuras, o leitor encontra o livro What’s in a Name?, editado em Portugal pela Assírio & Alvim, somado a outros poemas inéditos. Outro diferencial da edição brasileira é o posfácio feito pelo escritor e professor Fernando Paixão.
 
Logo no primeiro poema que abre o livro, “What’s in a name”, lemos — o que há num nome? — o que ampara pensarmos tudo o que o nome esconde. O nome pode garfar, abrir ou fechar portas, o que castra uma série infinita de outras imagens e sons que compõem o universo do sentir. Em Lumes o que o leitor encontra é medido pelo alcance aleatório ou não de uma biologia caeiriana. Aquilo que pode ser visto, tocado, tudo pode servir para compor a matéria poética e assim, pavimentar enredos que contam aspectos sobre inquietos lugares que provocam a poetisa em sua escrita.     
   
Em “Paisagem com dois cavalos”, lemos o olhar para a vida agora, a posição política se alinha com a força esperada vinda de uma das vozes mais singulares da literatura atual:
 
Estão lado a lado,
Naquela praça em frente da igreja,
Nesse calor de quando o mundo oscila
Na linha do horizonte,
E o rio quase defronte:
Uma miragem
 
O olhar vai se deslocando numa busca natural a traçar reflexões em um plano crítico de comparações sobre a beleza das imagens colhidas sem a forçosa ameaça das fabricações:
 
Arreios, cabeçadas, todos os instrumentos
do que parece ser mansa tortura
mais o freio, ou bridão,
parecido com aquele colocado na boca das mulheres
que desobedeciam,
 
E aos poucos os versos vão pintando encaixes que assumem claramente uma posição analítica como um papel social para a escrita:
 
e era isso há muito tempo,
pelo menos quatro séculos,
ou semelhante ao que se usava
nos escravos, cobrindo-lhes a boca
para que não se envenenassem,
porque recusavam a viver
escravos
e era isso quase agora no século passado
 
A condição dos animais, sem escolha, se assenta com o silêncio violento dos que não conseguem da luta a simples defesa. Os cavalos, as mulheres, os negros, todos em um plano de localização e resistência acusado pela poesia, que desfolha para constatar uma direção atemporal da naturalização do mundo, da reformatação de antigos padrões de comportamentos sociais. Assim, os versos que constatam também condenam — E é esta a mais perfeita/ das colonizações.
 
Em outros momentos do livro observamos também revoluções do sentir a partir de lugares do cotidiano que passam normalmente despercebidos. Em “Aprendizagens” temos uma bicicleta da infância a acionar memórias que alimentam um afeto reflexivo sobre o objeto tempo tão palpável, tão cru:
 
Era cromada e preta a bicicleta,
trazia um laço largo no volante circulando
o Natal e rodas generosas
como parecia o mundo
 
Eu, na manhã seguinte,
sem saber sustentar a rota nivelada,
o meu pai a meu lado, segurando o assento,
a sua mão: aceso fio de prumo,
em acesa confiança      
 
Depois, era-lhe a voz entrecortada
pelo puro cansaço de correr,
tentando harmonizar a bicicleta
 
Hoje, muitos anos depois de gestos paralelos,
a minha filha sobre outras estradas,
a minha mão corrigindo o desvio de mais modernas rodas,
entendo finalmente que era emoção o que se ouvia
na voz interrompida do meu pai:
 
o medo que eu caísse,
mesmo sabendo que eram curtas as quedas,
mas sobretudo a ternura de me ver ali,
a entrar no mundo dos crescidos,
em equilíbrio débil,
rente à saída circular da infância
 
Novamente o tempo a transpassar o conhecimento, a deter as percepções, uma explosão de sensações a partir do nome, do objeto, do sentido alegórico de uma bicicleta a transmitir um tempo e espaço renovados pelas aprendizagens cotidianas mais comuns e por isso tão belas. 
 
Dividido em quatro partes: “coisas”, “lugares comuns”, “povoamentos” e “ou, por outras palavras (8 poemas)”, o livro se coloca a todo momento a nomear oscilações, subjetividades, rememorações, constatações, lugares imateriais, todos pontos de sensações no mundo que só reforçam o lugar da poesia como a soma do sentir com o tocar. São tocados conteúdo, forma, a leitura diante do sentido que a poesia de Ana Luísa Amaral conduz para a literatura/vida dentro da gente. 


______
Lumes, Ana Luísa Amaral
Iluminuras, 2021, 112p.
 
 

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