O túnel, de Ernesto Sabato

Por Bruno Botto




 
O escritor argentino Ernesto Sabato criou uma trama simples para a sua novela O túnel. Um pintor errático se apaixona por Maria, uma mulher comprometida. O desejo de ficar junto dela acende as piores paranoias dentro de sua cabeça e essa narrativa funda um dos mais densos dos romances psicológicos produzidos na América Latina. A história se desenrola a partir do momento em que o pintor decide revelar os motivos que o levaram a matar sua obsessão, iniciando uma autoinvestigação.
 
O autor desse romance enveredou por vários outros gêneros e entre os reconhecimentos recebidos está o Prêmio Cervantes em 1984. Ainda em 1948, no começo de sua carreira, escreve a pequena novela O túnel, inspirado por O estrangeiro de Albert Camus, autor que mais tarde renderia elogios para o livro aquando da distribuição europeia. Ambos os romances publicados com seis anos de diferença carregam aproximações que formariam um legado para os adeptos de existencialismo na literatura.
 
Contado em forma de diário por Juan Pablo Castel, o narrador da novela não é confiável e ele deixa claro quando solta suas doses nos informando uma personalidade frágil e às vezes psicopata, alegando não gostar da companhia dos outros e que se pudesse teria matado mais pessoas nesse mundo. Desde o começo da narração, sabemos que estamos acompanhando as anotações de um homem instável e assassino e seu relato não é para provocar pena ou dúvida e sim acompanhar os volteios pela insanidade de um personagem narcisista.
 
O fluxo de consciência de Juan Pablo é um dos mais diabólicos da literatura. De quando em quando cartunesco e com monólogos pedantes; ressaltando a forma exemplar do romance psicológico o leitor é obrigado a uma visão míope da história, apenas enxergando a crescente paranoia de seu personagem principal. Sabato, por vezes, dá uma roupagem romântica desastrosa ao seu protagonista e não raro parece ser um dos amantes saídos de algum escrito de Goethe com suas lamúrias e desejos ardentes para com a sua amada proibida. 
 
O contraponto cruel a tanta verborragia e loucura, como dissemos, está em Maria, personagem que trabalha o silêncio para estimular o pior lado de seu amante. Ela não o assume e não faz qualquer esforço para romper seu casamento. Na verdade, existem suspeitas que isso seja um modus operandi dessa mulher e que ela possa ter outros amantes. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bentinho sofre com a eterna dúvida de uma traição de Capitu e esse acidente degringola várias outras dúvidas posteriores na história e na novela de Sabato a personagem principal não tem nenhum comprometimento em achar verdade na sua história; mesmo prometendo imparcialidade, ele parte de sua visão manchada do mundo e da sociedade para justificar o seu crime. 
 
O túnel é uma novela que não sustenta suspense ou qualquer resquício de literatura policial. Cada capítulo é um passo na degradação mental de seu narrador. Porém, não colocaria o livro dentro da prestigiada paranoid fiction que conta com aclamados nomes de Thomas Pynchon e Kurt Vonnegut ou indo mais atrás, um Franz Kafka de A metamorfose; são autores que flertam com o surreal para compor sua ficção labiríntica. Sabato está mais interessado em mexer com uma válvula bem conhecida do ser humano, a sanidade.

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O túnel
Ernesto Sabato
Sérgio Molina (Trad.)
Carambaia, 2023
160 p.

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