Sete poemas de James Wright em “Vamos reunir-nos junto ao rio” (1968)

Por Pedro Belo Clara
(Seleção e versões)




O POEMA DE MINNEAPOLIS
(Para John Logan)
 
1.
Pergunto-me quantos velhos, no último inverno,
Esfomeados, com medo do anonimato, deambularam
Pela margem do Mississippi
Açoitados pelo vento até cegarem, sonhando
O suicídio no rio.
A polícia remove os seus cadáveres ao romper do dia
E entrega-os em qualquer parte.
Onde?
Como guarda a cidade listas dos pais
Que não têm nome?
Em Nicollet Island observo a água escura,
Tão bela na sua quietude.
Desejo aos meus irmãos boa sorte
E um túmulo quente.
 
3.
Raparigas negras e altas de Chicago
Escutam canções leves.
Elas sabem quando o seu suposto bem-feitor
É um polícia à paisana.
A palma da mão dum chui
É uma barata pendurada nas presas chamuscadas
Duma lâmpada eléctrica.
A alma dos olhos dum chui
É a eternidade duma manhã de domingo nos subúrbios
De Juárez, México.
 
7.
Quero ser levado
Por um enorme pássaro branco, desconhecido da polícia,
E voar bem alto por milhares de milhas e ser cuidadosamente escondido,
Modesto e doirado como o último grão de milho,
Armazenado com os segredos do trigo e as misteriosas vidas
Dos pobres sem nome.
 
 
À ENTRADA DE FARGO, DAKOTA DO NORTE
 
Ao longo do corpo esparramado dum vagão de carga da Great Northern,
Risco vagarosamente um fósforo e, devagar, levanto-o.
Não há vento.
 
Depois da cidade, três pesados cavalos brancos
Avançam para a sombra dum silo
Até cobrirem os ombros.
 
De súbito, o vagão agita-se.
A porta abre-se num estrondo, um homem de lanterna na mão
Diz-me boa noite.
Aceno, enquanto escrevo boa noite, solitário,
Ansiando voltar a casa.
 
 
VIVENDO NO RIO VERMELHO
 
O sangue corre em mim, mas que tem isso
Com a chuva que cai?
Em mim, exércitos de jaquetas vermelhas marcham em direcção à chuva,
Atravessando negros campos. O meu sangue permanece quieto,
Indiferente aos canhões dos navios imperialistas
À deriva em alto mar.
Por vezes, tenho de dormir
Em lugares perigosos, em falésias subterrâneas,
Paredes que ainda guardam impressões completas
De fetos ancestrais.
 
 
JUVENTUDE
 
Um pássaro estranho,
A sua canção continua em segredo.
Trabalhou demasiado para ler livros.
Nunca soube como Sherwood Anderson
Se escapou e fugiu para Chicago, em fúria por se libertar
Do seu ódio às fábricas.
O meu pai labutou por cinquenta anos
Na Hazel-Atlas Glass,
Apanhado no meio de barras que esmagavam as rótulas
De labregos estúpidos.
Estremecera de ódio na sombra fria do óleo?
Talvez. O meu irmão e eu só sabemos
Que voltou para casa tão calado quanto a noite.
 
Em breve ensombrar-se-á,
Assomando na neve recente.
Sei que o seu espírito vagueará até casa,
Ao rio Ohio, e sentar-se-á, sozinho,
A talhar uma raiz.
Ele nada dirá.
As águas passam, mais velhas, mais jovens
Que ele é, que eu sou.
 
 
AS LUZES NO CORREDOR
 
As luzes no corredor
Estão apagadas há muito tempo.
Aperto-a nos meus braços,
Aterrorizado pela redondeza da terra
E as suas maçãs e os anéis voluptuosos
Dos álamos, as Áfricas secretas,
As crianças que nos dão.
Ela é esbelta na medida certa.
O seu joelho parece o rosto
Duma leoa surpreendida,
Cuidando das crias perdidas
Duma gazela por puro acidente.
Nesse corpo por que anseio,
Os poetas do Gabão observam durante horas
O paraíso através dos galhos, as suas nobres faces
Demasiado secretas para chorar.
Como posso saber qual a cor do cabelo dela? Flutuo entre
Animais solitários, esperando
A aranha vermelha que Deus é.
 
 
DUAS POSTURAS JUNTO AO LUME
 
1.
Esta noite observo o cabelo do meu pai,
Sonhando sentado junto ao seu fogareiro.
Conhecendo a minha tendência para o desespero,
Enviou-me por amor uma pena de coruja,
E porquê uma pena não sei, mas voltei a casa.
Esta noite Ohio, onde em tempos
Persegui e amaldiçoei a minha solidão,
Revela-me o meu pai, que partia pedras,
Lutava contra grandes máquinas até dominá-las,
E repousa, ensombrando o seu belo rosto.
 
2.
Com um gesto nobre, as suas mãos entrelaçam-se enquanto descansa.
Tem orgulho em mim, acredita
Que fiz grandes coisas entres os homens e tornei-me
Um homem de estatuto entre outros tais das grandes cidades.
Não irei acordá-lo.
Vim sozinho para casa, sem mulher ou filho
Para o seu encanto. Desperto, solitário e bem-vindo,
Sento-me também junto do fogareiro, as linhas
Duma feia idade abrindo cicatrizes no meu rosto, e as mãos
Contorcendo-se, nervosas.
 
 
LEVANTANDO REDES DE PESCA ILEGAL À LUZ DA LANTERNA
 
As carpas são segredos
Da criação: não sei
Se elas se sentem sós.
Os que andam na pesca ilegal flutuam com um cuidado
Quase assustador debaixo da ponte.
As águas são um espelho
Luminoso dos ninhos de andorinha. As estrelas
Já caíram todas.
Que importa
A minha angústia? Algo
Da cor
Dum puma atravessou a rede e desapareceu.
É a rede mais firme
Que alguma vez vi, e ainda assim alguma coisa
Partiu, solitária,
Rumo às nascentes do Minnesota.


Ligações a esta post:
>>> Em novembro de 2023 outra seleção de poemas e notas biográficas de James Wright
 
Notas:

* Seleção e versões a partir dos originais compilados em “James Wright – Selected Poems” (Farrar, Straus and Giroux e Wesleyan University Press, 2005).


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #578

Boletim Letras 360º #584

Sete poemas de Miguel Torga

Palmeiras selvagens, de William Faulkner

Boletim Letras 360º #583

A melancolia política em O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira