Relicário de cuspes, de Leonardo Valente

Por Herasmo Braga
 
No mundo contemporâneo, criar impactos, substituir informações por polêmicas, ter o maior número de likes, curtidas, compartilhamentos, seguidores, acaba sendo a razão última e, até mesmo, a única para muitos. Depararmo-nos com realizações, seja no campo das artes ou das ideias, exige paciência para não se deixar levar pelo camuflado, que acaba sendo exatamente o que se rejeita. Quando se volta para a literatura, em que se almejam novas produções literárias, distantes da abordagem temática de cunho social, do culto a si mesmo com traços biográficos idealizados, de construções tomadas como transgressoras na forma e no conteúdo, no entanto, apenas apresenta a imaturidade literária do seu autor, que possivelmente também é precário enquanto leitor, toda essa jornada desestimula produções literárias novas a agregarem na formação de um leitor estético crítico. Como não há nada absoluto nas elaborações humanas e, portanto, todas as regras acabam por gerir suas exceções, ocorre termos projetos literários bem-sucedidos a ficarem à margem desta quantificação estéril, que não existe só na literatura, como em todas as áreas humanas. Entre essas bem-vindas exceções temos as produções de Leonardo Valente, que se destaca entre as obras significativas com Criogenia de D e seu mais recente Relicário de cuspes.

Na obra, encontramos os traços que de fato caracterizam uma construção literária diferenciada pela sua qualidade estética. Pode-se apontar a presença dos discursos polifônicos, que produzem uma atmosfera tensionada ao longo da jornada narrativa. Vozes que não apenas são pronunciadas por outros indivíduos que compõem a trama, mas que estão presentes no imaginário social e, nas abstrações e, por não adequação do narrador diante das possibilidades que se decretassem dele, passavam não somente a serem verbalizadas por estes, mas também cravadas no íntimo do narrador, fazendo-o perder-se ou distanciar-se das singularidades contidas em sua subjetividade. Isso tornou o sujeito narrador atormentado e desconhecido de si mesmo. Vários traços da narrativa apresentam nuanças como se ele fosse um ser indiferente, para só depois, ao longo da montagem desses aspectos imateriais que estavam guardados nele, no entanto, forçosamente tentado a esquecê-los para dispor de alguns momentos da convivência dos outros, ter a possibilidade de exercícios sociais como estudo e trabalho, em outro, como tentasse padronizar-se ao esperado de pessoas como ele, por meio do casamento e responsabilidades pela manutenção de uma casa. Essa polifonia de vozes atuantes em seu íntimo que o atormentam, deixando-o descentrado com a vida, à medida que são revividas pelo narrador, vão ganhando algum sentido além do apenas dito e dos efeitos assoladores em sua constituição subjetiva. Nesse tecer de sentidos, o protagonista-narrador vai surgindo diante das suas subjetividades, enxergando-se além das dores que lhe causaram feridas, as quais nunca foram fechadas, por não serem reconhecidas devido ao fato da sua inexistência para si. Ele fora, tão somente, resultado das falas, imposições e acusações dos outros.

Essa polifonia que sempre atuou, mas não o tem apenas de forma passiva, acabou sendo decifrada em razão do tempo multifacetado que agora se faz atuante. Assim, diante do tempo presente sendo materializado no pensamento do seu narrador e misturado ao tempo de memória irá contribuir não só para o leitor relacionar os elementos de composição da narrativa, como também para o próprio narrador ater-se a si e, consequentemente, às suas subjetividades que estão sendo ressignificadas e ganhando ares de entendimento. Por conta dessa nova experiência, desenvolve-se a montagem para si dos traços que o configuram e justificadores de determinadas questões de insucessos, de fracassos, regidos por sentimentos de culpa incompreensíveis e incompatíveis com as próprias ações e pensamentos. Adita-se a esses tempos do pensamento presente o da memória-presente, que revela pelas lembranças os acontecimentos que o afetaram e, principalmente, dos efeitos produzidos ao longo de toda a sua trajetória enquanto indivíduo. Além desses, há o fio de expectativa do futuro-presente, que lança luz em pontos de convergência para o depois desse encontrar a si. Todavia, sem a ilusão provocada pelas idealizações de que tudo agora adiante será para melhor.

Destaca-se entre essas configurações temporais o diferenciador, que surge como responsável em aglutinar todos eles e levar o narrador a sua compreensão, que é o tempo do escárnio. Ele é revelado não apenas nos tradicionais desprezos, mas na consciência de se desfazer, transgredir ou romper com determinadas linhas padronizadas que foram estabelecidas pelos outros. A sua marca se encontra em diversos momentos da narrativa como a tensão entre os tradicionais conflitos do corpo, da carne com os simbolismos e sentimentos religiosos, que este será o responsável por revelar para o narrador-protagonista como se deu a presença das demais personagens como o pai, a mãe, a tia, a ex-esposa nas suas subjetividades e como diante das atribuições a ele determinada por essas pessoas próximas desde o início da jornada ainda criança com tons acusatórios e garantidores do nunca deixar de constar o sentimento de culpabilidade e de sua exclusividade.



Interessante perceber a presença de aspectos das tradições estéticas compondo a intriga. As tensões barrocas se fazem sentidas em diversos momentos como “na igreja das chagas sem Cristo, a porta com placa de mãe e o pai todo de branco, com roupa de doente, assistiram a uma missa. nas colunas da neve em mármore negro, no lugar da Via Sacra, relógios vermelhos do centro espírita com a cara do diabo. o pai estrebuchou como que possuído por alguns instantes”; em outro momento, “levou a vaca que eu não vi até o ponto mais baixo da rua, e com energia lasciva, indiferente ao balanço e na frente de todos, a sacrificou com uma faca de cozinha, a mando dela, o açougueiro começou a cortar bifes de nada e vender para que a fila andasse, o menino, na fila da pescaria, ouviu da mosca responsável pela barraca que ali não poderia jogar sem dinheiro, e ganhou dela um saquinho de presente estampado, azul com girassóis amarelos, e com laço de fita vermelha, igual aos que recebera de outras moscas em casa. dos olhos da imagem de Nossa Senhora, no meio do lago e no meio da praça, escorreram lágrimas”. Nota-se a dualidade nos trechos entre o espírito e a carne, o atendimento de um permeado pelo outro e junto com ele a carga de culpabilidade misturada a ações do cotidiano áspero diante de tanta mistura em meio a sujeitos vistos como insetos. Apenas o nome de Nossa Senhora é apresentado com letras maiúsculas, registrando com isso o tom respeitoso por parte do narrador em meio às carnes sacrificadas, alimentadas, e corpos com almas travessas.

Ao se imergir nas narrativas, os aspectos da atmosfera e ambiência são percebidos e revela-se quão imprescindíveis eles são para a tecitura de sentidos das obras. Assim como os quadros pintados, eles também apresentam suas cores e muitas delas potencializam a intensidade no enredo. No caso de Relicário de cuspes, as cores presentes são diversificadas e responsáveis pelo tom colorido da história. Percebe-se como expressam as tensões e sentimentos refratados nela, como na passagem: “A porta com placa de mãe, desesperada, gritou da igreja que a vela acessa no banheiro salvou o menino, que o fez parar não se sabe como do outro lado do box, encostado nos azulejos vermelhos e rodeado pelas mariposas coloridas, assustado e com o choro engolido por medo do pai. no chão cinza do banheiro, pedaços esmagados do bolo decorado misturados à água do banho, com glacê verde-graminha esfarelado e a massa aberta feito carne viva”; ao longo de todo o texto sente-se a atmosfera dos acontecimentos de acordo com as tonalidades do significado das presenças na composição formativa do protagonista.

Um dos traços que distingue grandes autores dos que carecem de mais leituras e domínio na escrita é a consciência da narrativa. Lembrando que ter o domínio da escrita do texto é não delimitar as personagens ou até mesmo o narrador aos comandos do autor. A intriga vai ganhando a sua autonomia ao longo das ações desenvolvidas e dos impactos delas nas subjetividades das personagens que vão dando experiências no desenrolar. Um destes aspectos que registra o domínio da narrativa encontra-se na expressividade das vozes dissonantes por parte do protagonista. Há intensos diálogos entre a sua consciência e o inconsciente à medida que os tempos memorialistas trazem elucidações em meio a uma quebra de cabeça de imagens de acontecimentos em que as vozes são montadas e oferecem unidade não apenas de significativo no sentido comunicativo, e sim, de elaborações de sentidos. São estes, então, que vão configurando-se no interior do protagonista e oferecendo compreensões até então desprovidas dele por conta de fortes sentimentos de culpabilidades materializados nas falas do pai, da tia, da ex-esposa... como se percebe no fragmento: “A culpa é sua por seu pai ter sido internado, você é uma criança muito problemática! A situação de saúde dele é culpa sua! (a tia para o menino, no dia seguinte à internação do pai em um hospital psiquiátrico, em 22 de abril de 1980). O fim do nosso casamento é culpa sua! Só culpa sua! Tudo culpa sua!” (a ex-esposa, durante a discussão sobre o divórcio em 17 de novembro de 2002).  Destarte, ao conectar por meio das imagens essas falas tão determinantes na sua constituição como sujeito é que o protagonista parte para enfim estabelecer relações de sentido com si e com a vida.

O tom áspero, de vínculo com uma estética grosseira, presente em vários momentos, revela não apenas o mundo de um ser marginalizado na sua subjetividade por pessoas próximas, como também, a face da miséria humana que vai além da miséria material, como percebe-se em alguns momentos: “Vai levar esse menino para festa junina com que dinheiro? Eu não ajudo com compras para vocês ficarem gastando com besteira, ele não tem consciência? Não sente nem um pingo de culpa de ficar enchendo sua paciência para ir à festa, para comer na rua? Eu estou trabalhando pela igreja, não dou uma cocada para ninguém!”. Essas lembranças, essas falas a ecoarem no nosso protagonista,  o faz ser o que não seria se não fosse tão julgado, tão condenado, tão oprimido. A presença do mar em forma de arquétipo, de metáfora, faz a pulsão da marcação da angústia, da imensidão que desorienta, do sufocamento, do ir sem ter para onde, ficar sem saber porquê, como no trecho da canção lembrada de quando ainda criança: “a canoa virou, foi deixar ela virar, foi por causa do menino que não soube remar, se eu fosse um peixinho e soubesse nadar, eu tirava o menino lá do fundo do mar”. Esses momentos de tormentas, mesclado com outro em que a consciência parece lançar-se para alguma lucidez: “A angústia é uma luz, ela é sincera, é preciso senti-la e não só lutar contra ela”. São nestas passagens que o menino, ora adulto, parece tomar sentido de si, e o leitor atesta a existência, pois parecia em alguns momentos ser apenas assunto e não substância no existir.

Essa consciência é por vezes motivada ou presente pela voz de importante personagem na vida do protagonista Yolanda. Ela o protege em discursos ora presentes em sua cabeça por meio de lembranças, ora parece estar próximo em espírito. Novamente os encontros entre as dualidades do sagrado e do profano, do existir ou imaginar, como observa-se: “Há restos de rancor em todos os cantos de minha boca dormente e oprimida, são amargos como os meus relatos recém-nascidos de lembranças sepultadas, é importante que você saiba, disse a Yolanda. É mais importante que você saiba. Rancor que nada mais é do que um querer doloroso, não se lamente por ele, nem interrompa esse paroxismo de sabores que a vida te ofereceu, esgote-o, vá até o fundo”. Essa presença seja na imaginação, seja nas lembranças, seja nos delírios, é a que contribui para o protagonista envolver-se com si e assim saber os devires sentires da própria existência bem distante daquela que o atribuíram sem qualquer interferência ou consideração da sua parte.

Destarte, esta é a condução narrativa realizada por quem de fato não só tem consciência da narrativa, da linguagem, como também, das mais perscrutadas subjetividades dos sujeitos que atormentam e daqueles alvos constantemente atordoados. Os fios simultâneos dos tempos nas suas três acepções com o aditivo das memórias, das lembranças, das expressividades, das ações alheias que o atribuíam, possibilita o sujeito em menino, em adulto, reconstituir-se pelas linhas traçadas nas falas, nos pensamentos, condenações, rancores, frustrações dos outros e nele eram depositados. Não precisa diante das abordagens explanadas ter-se receio em crava que Leonardo Valente produz mais uma promissora obra, digna não só de debates, elogios, como também, das mais efervescentes polêmicas que possam inquietar as almas leitoras.


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Relicário de Cuspes
Leonardo Valente
Editora Besouros Abstêmios, 2024
176 p.

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