Sete poemas de Dulce María Loynaz

Por Pedro Belo Clara





I.
 
    Largo a minha palavra ao vento, sem chaves nem véus.
    Porque ela não é um cofre de cobiças, nem uma mulher coquete que faz por parecer mais bela do que é.
    Largo a minha palavra ao vento para que todos a vejam, a toquem, a espremam ou a esgotem.
    Não há nela nada que não seja eu mesma: mas em cingi-la como cilício e não como manto pudesse estar toda a minha ciência.
 
 
II.
 
    Só quem na sombra se crava, sugando gota a gota o suco vivo da sombra, logra erguer obra nobre e perdurável.
    É aprazível o ar, aprazível a luz; mas não se pode ser todo flor…, e quem não render a alma à raiz, mirrará.
 
 
III.
 
    Muitas coisas me deram no mundo: é só minha a pura solidão.
 
 
IV.
 
    Ditoso tu, que não tens o amor disperso…, que não tens de correr atrás do coração tornado semente de todos os sulcos, corça de todos os vales, asa de todos os ventos.
    Ditoso tu, que podes encerrar o teu amor num só nome, e dizer-lhe a cor dos olhos, e medir-lhe a altura da fronte, e dormir-lhe aos pés como um fiel cão.
 
 
V.
 
    Há algo de muito subtil e de muito fundo em olhar atrás o caminho andado… O caminho onde, sem deixar pegadas, se deixou a vida inteira.
 
 
VI.
 
    As folhas secas…, voam ou caem? Ou haverá em todo o voo uma terra à espera, e em toda a queda um tremor de asa?
 
 
VII.
 
    O caule erecto e seco que ainda resta da roseira fenecida numa longínqua Primavera trava o caminho às sementes de agora, aos novos brotos sufocados pelo nó de raízes que a planta perdida insiste em cravar no mais fundo da terra.
    Pouco ou muito, não deixes que a morte ocupe o lugar da vida. Recobra já esse espaço do teu jardim, agora que há bom sol e chuva fresca… Que as pontas verdes, já assomadas, não se enredem de novo no esqueleto da velha roseira que torna inúteis o esforço da Primavera e o calor da terra impaciente.
    Se não arrancares o caule seco, vão será que o sol amorne a seiva e passe Abril sobre a terra tua. Vão será que venhas dia após dia, como vens, com o teu jarro de água regar os novos brotos…
    — Não é para os novos brotos a minha água: o que rego é o caule seco.
 


Dulce Maria Loynaz nasceu em Havana, Cuba, em dezembro de 1902, no seio duma família aristocrata, filha do famoso General Castillo, um herói do Exército de Libertação Cubano, e irmã do também poeta (futuro) Enrique Loynaz Muñoz.
 
Embora nos preceitos familiares estivesse fortemente enraizado o ideal patriótico, indício que nos pode levar a concluir uma simpatia por um pensamento político mais conservador, o seu cultivo não se fechava em si numa cegueira egocêntrica: estava bem presente a noção da importância duma boa (e diversificada) educação cultural. Propiciar-se-ia, assim, o desenvolvimento do interesse da pequena Dulce na escrita, muito motivado por sua mãe, apaixonada pelo canto, a pintura e o piano.
 
A infância de Dulce Loynaz foi muito recatada, tendo recebido a sua educação em casa. Esse meio mais privado permitiu-lhe tempo livre, necessário ao desenvolvimento duma apurada sensibilidade artística. Ainda adolescente começou a rabiscar os primeiros poemas, tendo conseguido a primeira publicação de relevo em 1920, no jornal cubano La Nación.
 
Atingida a maioridade, o recato da infância tornou-se em meras linhas dum capítulo já lido. A existência de Dulce abria-se assim ao mundo, encetando diversas experiências que, à época, só estariam reservadas a raparigas da alta sociedade, inclusive viagens para fora de Cuba.
 
Em 1927 doutora-se em Lei Civil, na Universidade de Havana, mas raramente irá praticar a sua profissão, chegando mesmo a abandoná-la em 1961. Nos entretantos, a escrita desenvolvia-se e as viagens multiplicavam-se (México, Turquia, Egipto…), rendendo-lhe material para futuras obras e permitindo-lhe o contacto, facilitado também pela sua posição social, com os nomes maiores da literatura em língua espanhola: Lorca, Juan Ramón Jiménez ou Gabriela Mistral (poeta chilena, Nobel da Literatura em 1945). Muitos deles chegaram a permanecer hospedados na sua casa de Havana, uma espécie de centro cultural da cidade durante a década de trinta, tais os artistas que a frequentavam.
 
É no ano seguinte a terminar o curso, em 1928, que Dulce Loynaz inicia a sua obra maior, o romance Jardín, nascido em moldes de realismo mágico, e que demoraria sete anos a estar completo. Num tempo de intensas mudanças sociais, com o voto feminino a ser finalmente permitido em Cuba, a obra, cuja figura principal é uma mulher, reflete os dias agitados da Havana de então, onde um forte movimento feminista prometia manhãs mais claras para todas. Isto fará com que a imagem de Dulce se cole, e com devida propriedade, à duma embaixadora dos direitos das mulheres, mesmo que nunca tivesse reclamado tal título. O seu pensamento era, de facto, progressista e independente, justificando-se em tudo aquilo que empreendeu e no que pôde partilhar nas imensas linhas da sua obra — embora do ponto de vista político nunca tenha manifestado quaisquer preferências, desapontando certas facções, em determinados momentos, que dela esperariam uma posição mais clara e interveniente.  
 
Em 1938, já casada, publica um poema bastante pessoal, partindo de algo tão íntimo na vida duma mulher, uma audácia rara na época: “Canto a la mujer estéril”. No mesmo ano, sai Versos (1920–1938). Este volume, reunindo poemas duma fase inicial, permite uma mostra sobre os tempos socialmente agitados de que foi testemunha na juventude, tempos dum pensamento mais consciencioso e de reformas de sério impacto numa sociedade em progressiva mudança. Há uma certa melancolia, algo saudosista, que nasce da crescente industrialização, aparentemente imparável, e uma sóbria tristeza pela imposição duma dita modernidade. É um sentido de perda de essência, no fundo, de “morte do paraíso”, aumentado pela consciência da efemeridade de tudo. Esta sua poesia primeva pode hoje parecer algo obsoleta, mas é testemunho dum tempo, duma realidade ida, espelhando uma Cuba que deixou de existir após a revolução de 59.
   
Em finais da década de 40 e começo da década de 50 inicia colaborações com diversos periódicos de renome, como o El Mundo, o El Pais, o Excélsior ou a Revista Cubana, publicando crónicas semanais. Recebe diversos convites para conferências e sessões de leitura. O seu nome e obra, por esta altura, era cada vez mais conhecido e apreciado em Espanha, verificando-se diversas publicações e republicações nesse país. No ano seguinte a contrair o segundo matrimónio, em 1947, edita Juegos de agua e em 1953 surge Poemas sin Nombre, das maiores obras que Loynaz escreveu no género (e donde se extraíram todos os poemas aqui apresentados). Caminhando de mão dada com a prosa, desenvolvendo a crónica e o ensaio, em 1958 lança aquele que considerou ser “a melhor coisa que escrevi”: A Verano en Tenerife, resultado da sua estadia na ilha espanhola, terra natal do esposo. As homenagens e os prémios que lhe são dedicados começam a ser habituais.
 
Entre 1959 e 1961, em resposta aos abalos vividos no seu país, toma decisões veramente drásticas. Aquando do triunfo da revolução que se opera em Cuba, liderada por Fidel Castro, Loynaz deixa de escrever poesia. Para muitos, principalmente quem lhe era próximo, a coincidência de eventos não foi mero acaso. Em consequência, desiste dos seus compromissos editoriais naquele país. Adoptando uma vida de reclusão, também agravada pela ausência de quem tanto fizera pela divulgação do seu trabalho, o próprio marido (Pablo de Cañas, um famoso cronista que abandona Cuba em 1961), Dulce Loynaz praticamente só mantém as suas actividades na Academia Cubana de Línguas. De resto, exclui-se totalmente da vida pública.
 
Após décadas de reclusão, os anos oitenta do século passado revelaram que nem a obra nem a autora haviam ficado esquecidas. Ademais, toda uma nova geração amadurecera e descobrira por si os fascínios vários do seu trabalho. As nomeações para prémios de relevo continuaram e, muito naturalmente, Dulce Loynaz saiu do exílio autoimposto e retomou a publicação. Em 1985 surge Poesías Escogidas; de seguida, o reconhecimento do seu próprio país atingiu níveis superiores ao outorgar-lhe o Prémio Nacional de Literatura (1987). Entrando em 1991, recebe a luz do dia o livro Bestiarium, uma curiosa obra de poesia imaginativa e de grande humor. Já em 1992, coroando um amplo trabalho de dignificação da língua materna, recebe o prestigiado Prémio Cervantes, viajando para Espanha no ano seguinte, já de frágil saúde, para o receber das mãos do Rei Juan Carlos.
 
Em 1993, decorrendo em Pinar del Río (Cuba) um encontro Ibero-Americano dedicado à celebração de sua vida e obra, Dulce Loynaz publica Fe de Vida, obra autobiográfica que viria a ser o seu último livro. Mais tarde, a 15 de abril de 1997, o Centro Cultural de Espanha em Cuba realiza à porta da casa da autora uma singela homenagem, ocasião que marcaria a derradeira aparição pública de Loynaz, já bastante enfraquecida pela sua avançada idade. Na madrugada do dia 27 do mesmo mês, viria a falecer pacificamente.
 
O legado literário de Dulce María Loynaz é inegável e duma importância extrema no contexto das américas espanholas e da própria língua de Cervantes. Oferecendo uma poesia feminina intimista, das primeiras desse estilo na América Latina, o traço geral que a caracterizou é simples e sóbrio, de palavra não propriamente directa, mas despojada, limpa e sintetizada, o que concede a sensação de partilha de emoções claras e cruas. Nessa crueza, porém, reside a sua luz.  
 
Falamos de luz, mas de sombra, e muita, se compõe o seu trabalho. Lembremos estas linhas dum poema atrás partilhado: “Só quem na sombra se crava, sugando gota a gota o suco vivo da sombra, logra erguer obra nobre e perdurável.” A dita sombra manifesta-se como consequência das primeiras linhas do seu trabalho, atrás abordadas, a negatividade nascida no ser pelo crescente da modernidade, e também no exercício mais intimista da sua poesia, de certa forma confessional, criadora dum mundo muito próprio, embora não restrito a todos que o desejarem visitar.  
 
Sendo igualmente uma poética de silêncio e solidão (chegaria a escrever, um dia: “Solidão, solidão sempre sonhada… Amo-te tanto que às vezes temo que Deus me castigue um dia enchendo-me a vida de ti…”), é uma poesia que treme e se agita contidamente, ou não, pouco imediata, exigindo por vezes uma demora na sua apreciação, no saborear de termos e sentidos, abrindo espaço à introspecção.
 
Vários apreciadores e estudiosos, quando se debruçam sobre a sua obra, não hesitam em colocá-la num patamar onde figuram escritoras como Virgina Woolf ou Emily Dickinson. Sobra a questão, contudo: ainda que célebre no universo hispânico e américo-latino, não usufrui da aclamação universal das restantes escritoras, nem pareceu o seu legado, embora digno de valor, ser capaz de influenciar novas gerações, especialmente mulheres. Porquê?

Há quem aponte as origens aristocratas, que acabaram por influenciar a sua poesia, escrita a partir duma base que alguns consideram “arrogante”, não tendo vivido em primeira mão as dificuldades básicas do quotidiano, as lutas diárias reservadas ao mais comum dos humanos. Um afastamento, assim, só possível pelo seu “berço de ouro”, uma poesia pouco acessível de laivos clássicos e também a sua recusa em manifestar publicamente opiniões políticas. Mas Dulce Loynaz era uma mulher que, entre outras coisas, sabia o valor do seu silêncio, o quão superior este poderia ser ao uso fútil da mais bela das palavras…
 
 
* Seleção a partir da antologia Jardim de Outono (Tradução de Manuel Alberto Vieira, Flâneur, abril de 2020).

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