Leitura fácil, de Cristina Morales

Por Sérgio Linard

Cristina Morales. Foto: Rino Bianchi



O romance é este gênero discursivo que por tamanha plasticidade em sua constituição acaba sendo a forma preferida de quem se propõe a trabalhar com literatura. Isso parece ter motivo porque, diante de tantas possibilidades que a globalização diz proporcionar e, também, pela própria fragmentação da vida na contemporaneidade, ter em mãos uma forma de manifestação artística que muito permite e quase nada proíbe é algo muito bem-vindo. Por vezes, infelizmente, a não interdição de claros limites para o gênero resulta em textos que são mais um aglomerado de ideias do que um romance efetivamente. 

Parece, portanto, que foi com base nessa flexibilidade do gênero discursivo que a autora de Leitura fácil se baseou para trazer à baila este romance ou este texto do gênero “leitura fácil”. O título que parece sinalizar mais um manual ou um guia para aqueles que intentam adentrar no mundo da leitura, na verdade, corresponde a uma das várias produções de texto que aparecem dentro deste complexo e intrigante romance. Zine, ata de reunião, cartazes, propagandas políticas e sentenças judiciais são algumas das leituras que podem ser encaradas e encontradas nessa narrativa que, como a vida nos tempos atuais, faz-se fragmentária. 

Salvas as devidas proporções, claro, alguns discursos permitem uma breve associação com o capítulo primeiro de O som e a fúria do estadunidense William Faulkner. Explico.  Essa Magnum opus do autor galardoado com o Nobel tem como narrador de seu primeiro ato uma pessoa com algum tipo de deficiência que reorganiza o discurso e a superfície textual de um modo complexo, cuja compreensão exige um exercício bem maior do que a simples leitura. Algo similar ocorre em Leitura fácil, pois a narradora também é alguém com algum nível de disfunção cognitiva — ela escreve o livro lido, enquanto mora em uma espécie de clínica pública para pessoas com algum tipo de implicação mental —, mas, neste caso, que consegue organizar o discurso de modo relativamente linear, entrecortado somente por seus fluxos de consciência comumente marcados por ira e por revolta. 

Dentro desse contexto, tem-se a história de Ángels, Patri, Marga e Nati, quatro mulheres que vivem juntas e buscam, conforme aponta a narrativa, por formas de convivência em que suas condições distintas sejam minimamente respeitadas. Cada uma delas possui um grau diferente de disfunção, bem como, claro, comportamentos distintos. O que as une, infelizmente, parece ser o sofrimento e o apagamento vividos por pessoas suas semelhantes em uma sociedade menos aberta às diferenças e à convivência com essas diferenças; mas há também um elo que foge desse típico sofrimento e é a união pela vontade de serem quem são e de, assim sendo, permanecerem juntas naquele espaço de moradia. É neste ponto que a obra literária em questão, inclusive, ganha melhores nuances: quando passa a debater as questões individuais de cada uma das personagens considerando muito mais suas singularidades e subjetividades do que somente aquilo que algum laudo psiquiátrico assuma como característica principal delas. Nessa situação, o romance dá indícios de fazer aquilo que desde sempre se intenta em bons textos: tratar de casos individuais que universalizam o debate de modo qualificado.



A essa altura, é importante que o leitor saiba que a história de Leitura fácil não está organizada de modo linear e que não tem apenas uma alternância de narradoras apresentando suas versões da mesma história. Embora isso ocorra, também, o que mais chama atenção neste romance é seu caráter quase experimental em relação à forma de narrar em que a “máquina de costura” dessas tessituras depende muito mais da atenção do leitor ele próprio do que de um ou outro gancho destacado na narrativa. 

ROMANCE

TÍTULO: MEMÓRIAS DELS ÁNGELS GUIRÃO HUERTAS

GÊNERO: LEITURA FÁCIL

Esta é a abertura de um dos capítulos do livro, o primeiro em que se começa a ter contato com o romance do gênero “leitura fácil” em que a autora, a mesma que dá título a essa partição, começa a discorrer sobre esse texto que agora tem-se em tela. Essas divisões da narrativa, sempre que aparecem, são ligadas pela coesão por repetição, em que o termo seguinte tenta explicar e definir aquilo que foi dito no termo anterior. Escrito com uma dispensação de palavras em uma ordem similar à poesia, estes são os pontos altos da narrativa, porque têm, em seu interior, um refinado teor irônico, e ajudam a revisitar alguns acontecimentos já narrados até então; agora, com a visão de Ángels. Esse modo de escrita remete-nos, inclusive, ao conhecido poema de Ana Cristina César, “Primeira lição” no qual a autora discorre sobre explicações de termos poéticos-literários. 

Esse romance é, pois, como uma espécie de primeira lição, não para o próprio gênero romance, como fez a poeta brasileira, mas sim para uma leitura fácil que materializa, certamente, uma tentativa de se comunicar com o leitor por meio de algo que seja de fácil compreensão. Um texto que parece servir para encaminhar novos leitores à consolidação do processo de leitura, algo sinalizado, também, pela ilustração da capa do livro na edição brasileira.

Não se engane, contudo, o leitor, ao imaginar que estará diante de um texto de simples complexidade. Sobremaneira. Quando se coloca em perspectiva o nível de exigência que o texto imprime para que se atinja até mesmo algo mais simples como o fio da narrativa, perceber as explicações de termos comuns e usuais sinaliza uma espécie de sarcasmo por parte da própria história. E esse teor crítico e irônico é que guia a construção deste romance desafiador.

Além disso, é importante destacar que a dificuldade da construção ou da percepção de qual seja o fio narrativo da história é, nitidamente, um dos objetivos do texto de Cristina Morales, pois, à medida que a história avança, percebe-se na narração de cada uma das personagens uma luta por afirmar que é a cada uma delas, individualmente, que pertence a condução do que seria o núcleo principal da trama. Contudo, este núcleo não é efetivamente construído. 

É possível acompanhar a história dessas mulheres e perceber as relações que elas possuem entre si, mas é pouco provável que nessa aula de leitura fácil se alcance algum nível de coesão tradicional para toda a narrativa. Pode-se confirmar, portanto, que a autora aproveita ao máximo a ideia de fragmentação da narrativa ou, ainda, que, compreendendo a crise da narrativa que o mundo há muito enfrenta, recorre a ela como seu material de trabalho principal e traz para a verticalidade e horizontalidade de seu texto essa mesma crise. Trata-se de uma abordagem metalinguística não apenas da forma, mas também do conteúdo que, por assim sê-lo, merece detida atenção. 

Para construir, pois, esses diversos fragmentos da vida real, dentro de uma leitura fácil, a autora inclui debates que estão na rotina e nas discussões diárias, mas abordando-os com a liberdade de um texto literário que desconhece ou se mostra disposto a esgarçar — em um bom sentido — as relações com as diretrizes dos padrões estabelecidos para esse tipo de texto. Não se trata de um simples “teste de limites”, na verdade, temos em tela um desprezo cordial a esses limites como que se tentando construir algo novo, mesmo que o resultado já seja comum ou esperado. Uma narrativa que usa a contradição como material e faz-se, ela mesma, contraditória. 

“Esses okupas criminalizam a pulsão sexual do mesmo jeito que o código penal os criminaliza por morarem sem pagar aluguel. Criminalizam a pulsão sexual a partir do momento em que entendem que qualquer um que olhe, se aproxime ou toque em você quer abusar de você. Eles nos incentivam, nós mulheres, a dizer não. Querem nos ensinar a encher a cara, e fazer rodinha de pogo, e a fumar baseado e a nos encapuzar, como os homens sempre fizeram. No entanto, não querem nos ensinar outra coisa que os homens também sempre fizeram: expressar o desejo sexual e concretizá-lo.” (p. 130)

O texto, como no excerto acima, é prenhe desta coragem das narradoras que, mesmo envolvidas em grupos de lutas e críticas sociais, não deixam de registrar as contradições que existem na humanidade, mesmo naqueles espaços que são vistos como progressistas e de resistência às opressões. Uma coragem que, como aqui já afirmamos, não apenas adentra o conteúdo, mas achega-se à forma do texto literário.
 
Leitura fácil é, portanto, uma obra recomendada, mas que pode não ser palatável em alguns momentos mais declaratórios. Um bom romance que faz com que a autora mereça estar em nossa radar de atenção. 


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Leitura fácil
Cristina Morales
Elisa Menezes (Trad.)
Mundaréu, 2024
408 p.

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