O verdadeiro Conde de Monte Cristo
Por Ada del Moral
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| Olivier Pichat, Thomas Alexandre Dumas. |
Em Django livre (2012), de Quentin Tarantino, o dentista e caçador de recompensas King Schultz (Christoph Waltz) comenta com o latifundiário sádico e racista Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) que o autor de Os Três Mosqueteiros (1844) não teria aprovado que ele alimentasse seus cães com o escravo D'Artagnan. “Francezinho fraco”, zomba Candie. “Alexandre Dumas é negro!”, responde Schultz. A expressão impassível do escravagista é impagável. Ela também chama a atenção para a identidade de um gigante da literatura, apesar do empenho de “colaboradores” — como Auguste Maquet, que o ajudou a escrever O Conde de Monte Cristo (1846), a quem ele teria subornado de maneira exorbitante para figurar sozinho nesta homenagem a seu pai, o General Dumas.
As origens do romancista, o segundo Alexandre dos três de uma linhagem tão ilustre, não são bem um mistério. Nós apenas o havíamos esquecido, pois apenas restar poucos ecos das desditas que sofreu. As fotografias não eram coloridas e a estátua dedicada à memória do jovem Dumas foi destruída pelos nazistas na Paris ocupada. Na realidade, esse foi o ápice de uma história que começou quando Napoleão descartou sua máscara de salvador entre iguais e assumiu o título de Imperador, apagando com um golpe o colossal general negro, um herói republicano da França da liberdade, igualdade e fraternidade, a quem o corso usou para seus fins autoimperialistas.
Esse destino cruel levou seu filho a se vingar poeticamente daqueles que buscavam condenar sua linhagem ao esquecimento, e ele sempre escreveu sobre heróis sujeitos a intrigas tortuosas que executam uma vingança fabulosa contra seus torturadores, mas não contra seus filhos, em um gesto de humanismo que lhes foi negado.
Tom Reiss conta em Conde Negro (2012) a história de um homem extraordinário. O único general que não recebeu a Legião de Honra nem a pensão correspondente, sem o amor do filho e a devoção de pequenas sociedades secretas, jamais teríamos conhecido o verdadeiro Edmond Dantès, Conde de Monte Cristo: Alexandre-Thomas Davy de la Pailleterie (1762-1806), que renunciaria a esse sobrenome em favor do de sua mãe, Dumas, a única lembrança dela, uma vez que foi vendida junto com três irmãos para que seu pai, o canalha Antoine, pudesse pagar por seu retorno à França e terminar de arruinar a fortuna da família após várias décadas de exílio em Jérémie (Saint Domingue, atual Haiti).
A sorte do jovem galã bronzeado foi ser educado na França da década de 1790, pioneira na luta pelas liberdades dos negros, graças a advogados esclarecidos que sabiam como navegar pelas brechas da lei. Graças a essa circunstância, aquele jovem inteligente, refinado e corajoso, que amava espadas e damas, pôde forjar uma carreira independente de um pai que morreu quando seus recursos se esgotaram — e dos de seu filho, que acabara de ingressar no exército quando a Revolução Francesa eclodiu. Foi então que o “conde negro” se tornou o Dragão Alex Dumas, que ascendeu ao posto de general aos 31 anos e liderou com sucesso as campanhas nos Alpes, na Itália e no Egito.
Sempre à frente de suas tropas, sob seu comando, os abusos e as deserções foram minimizados. Defensor dos fracos e flagelo dos opressores, seus inimigos o apelidavam de “Diabo Negro”. Respeitado por sua bondade e senso de justiça, e temido por sua proeza militar, ele viveu um romance de conto de fadas com Marie Louise Labouret, de Villers-Cotterêts, mãe de seus filhos e sua melhor amiga. Seu destino começou a mudar quando Bonaparte atacou o Egito depois de apelidar Dumas de “Horácio Cocles do Tirol”, não sem uma pitada de inveja.
Certa noite, em Damanhur, os generais Dumas, Kléber e Tallien, juntamente com o geólogo Dolomieu, todos muito altos, criticaram o rumo que Napoleão estava tomando. Essa repreensão chegou ao futuro imperador, que se irritou com o fato de Dumas se dirigir a ele como igual, de ser considerado o líder devido à sua imponente estatura e de defender seus ideais republicanos com tanto fervor. “Pela glória e honra da pátria, eu daria a volta ao mundo, mas se fosse uma questão de capricho seu, eu não me moveria um centímetro. Sou devotado à minha nação e aos meus companheiros, cujo destino não deve estar sujeito a um único indivíduo.”
Para Napoleão, a ideologia de Dumas parecia um instrumento perfeito para tomar o poder e se tornar um César. Ele tinha outros planos para o futuro. A sincera coerência de Dumas acabou por torná-lo vulnerável. Napoleão decidiu não o incluir nas pinturas de Girodet que retratavam a conquista do Cairo e outras ações militares vitoriosas. Ele também teve a sorte de o navio que o levava para casa ter afundado em Taranto, Nápoles, caindo nas mãos do Exército da Santa Fé, sob o comando do Cardeal Ruffo e do “Rei Fugillas”, Fernando IV, que era casado com a irmã de Maria Antonieta e detestava tudo o que fosse francês ou judeu. Durante dois anos, os sobreviventes do naufrágio foram humilhados, roubados e, por fim, envenenados.
O romancista Dumas baseou-se nas memórias de seu pai e de Dolomieu — o conde e o abade Faria, respectivamente — para retratar o sofrimento que suportaram no Château de If. Enquanto os cativos sobreviviam às intrigas com a ajuda dos “Amigos dos Franceses de Taranto”, Napoleão desfigurava as figuras mais conhecidas. As conquistas da Revolução foram usadas para sustentar o regime. Quando, após a insistência de Maria Luísa e Murat — que fundariam uma corte hedonista em Nápoles numa espécie de ironia do destino —, Dumas finalmente pôde retornar à França, até mesmo a cor de sua pele havia caído em desgraça. Em 1802, ano do nascimento de Dumas, o romancista, Napoleão criou a Legião de Honra e reforçou a escravidão nas colônias, ao mesmo tempo em que abolia os direitos das pessoas de cor em todo o seu território.
O paraíso para o qual o honrado General Dumas sonhava retornar havia se tornado uma prisão onde ele morreria aos quarenta anos, apenas mais uma vítima do raio do progresso que fora aniquilado. Personagens como ele, tão raros quanto magníficos, nos alertam para evitarmos novas injustiças e nos mantêm vigilantes contra lobos em pele de cordeiro. Ou disfarçados de libertadores.
* Este texto é a tradução livre de “El verdadero Conde de Montecristo”, publicado aqui, em Letras libres.

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