Um lirismo contemporâneo: resenha de “Tudo azul vividamente vermelho”, de Brenda Andujas

Por Wesley Sousa


De amargo
basta
o amor

Agridoce,
ela disse

Mas a mim
pareceu
amargo

Ana Martins Marques, “Açucareiro”. In: Das artes das armadilhas


Brenda Andujas. Foto: Arquivo da editora Patuá.


A poeta e crítica de arte Marina Tsvetáeva (1892-1941), no conhecido texto intitulado “O poeta e o tempo”, afirma que o poeta é uma figura adstrita à contemporaneidade, não como adesão ao presente histórico de caráter empírico, mas como negatividade interna do tempo que transcorre. Noutros termos, o poeta habita o tempo para resistir à sua absolutização ou uma rigidez cronológica, preservando na linguagem o que excede o histórico. Nas palavras da autora: “A contemporaneidade do poeta não existe porque ele proclama seu tempo como sendo o melhor de todos, nem porque simplesmente lhe agrada” (Tsvetáeva, 2022, p. 64).

De fato, um ponto a ser notado é que ser contemporâneo, aqui, não significa escrever “sobre” acontecimentos do presente imediato do mundo. Ainda que a obra esteja vinculada a eles, a verdadeira contemporaneidade está no ritmo, na forma, isto é, na pulsação vital com a qual é construída.

Faço iniciar essas linhas com o objetivo de mencionar que a produção poética contemporânea, em grande parte, busca inovações formais pelo lirismo — embora nem sempre seja algo imediatamente intuitivo.¹ Aliás, muito do que se busca como inovação é feita com convenções distantes de uma forma poética que se efetivamente realiza. Por isso, “O que é contemporâneo é indicativo do tempo, que será julgado por ele, não a ordem, o mandamento do tempo, mas sua demonstração” (Tsvetáeva, 2022, p, 80). 

***

Essa introdução, de caráter mais conceitual do que descritiva, serve para aclimatar um aspecto referente ao lirismo presente na literatura e poética que chamamos de contemporâneas. Nessa direção, dessa vez, temos o livro de estreia da jovem poeta paranaense Brenda Andujas, Tudo azul vividamente vermelho, que foi publicado pela editora Patuá, em 2025. 

Convém destacar, de pronto, em como a obra está construída. Disposta em 5 pequenas partes, as quais poderíamos chamá-las de temáticas, temos o que se segue: “Saturno em peixes”; “Mãos dadas”; “Ficções marítimas”; “Resquícios”; e, por fim, “Infância”. Na primeira parte, temos 12 poemas; na segunda, mais 10 poemas; na terceira, apenas 2; na quarta, 9; e na quinta, mais 6 poemas. São, portanto, 39 poemas.



Na maioria dos poemas pode ser localizada uma primazia de aspectos internos da subjetividade lírica (neste caso, quanto mais forte, mais tende a ser concisa); em outros casos, tal como no poema “Intimidade”, da primeira parte da obra, se torna uma projeção do que poderia ter sido:

achei que passar
os dias a sós
com você
seria conversar
sobre o universo
literatura, cinema e arte
no chão da sala
regadas de vinho seco
cinzas de cigarros
espalhadas pelo chão (Andujas, 2025, p. 22)

Os temas dos poemas, que tratam do cotidiano da infância, da adolescência, também discorrem da vida sexual, ora figurada, ora inventada ou mesmo vivida. Aqui, predomina um lirismo calcado num tipo de solidão do que já foi vivido; restando agora uma fundamentação nostálgica. Em outro poema (intitulado “Nua”), seguindo o tema da vida íntima da sexualidade, pode-se ler — em um único verso: “para gozar é preciso estar” (Andujas, 2025, p. 34).

Os temas são transversais, interligados, e imagino se vincular numa tentativa de experimentação de uma linguagem enxuta e, ao mesmo tempo, de sentimentos próprios pensados como imagens. O “Limiar” — da escrita ou da vida —, é um tipo de substrato da vida, desde a juventude que, anunciado não por fatos prontos, mas constituindo-se como memórias não longínquas e atuando como vivas; um limiar, assim, que se faz poesia:

habitar as fronteiras
caber nas beiradas
na ponta da aresta
cair de frente
para o abismo (Andujas, 2022, p. 50)

O conjunto poético da autora é de um passado vivido no presente (algumas vezes como imagens ou como rememorações). Se o tempo é movediço, se colocando no vaivém dos afetos e em cuja movimentação se forja o eu-lírico, não é essencialmente movido o futuro, mas algo que funciona como espelho. A parte “Infância” funciona como uma espécie de olhar retrospectivo, vividamente colorido, no qual sintetiza uma “Herança familiar”, um “Quintal de casa”, ou formação da identidade em “Ecos”:

me encontrar comigo é lembrar
daquela menininha de 5 anos
que queria descobrir o mundo
com os olhinhos bem atentos
gravado cada detalhe
do que lhe interessava
aquela menininha [...] (Andujas, 2025, p. 63).

Cabe destacar que, em sua feitura, a principal característica da poesia da autora é sua marca — ou opção desejada — pelos versos curtos e rápidos, quase sem pontuações, em grande maioria, construídos no formato de estrofe única (quando incluídas nas rápidas quebras de versos, sugerindo uma forma ritmada breve). Com uma exceção mais visível e demarcada, os dois poemas da seção “Ficções marítimas”, nas quais as experiências — uma viagem a Salvador — marcam certos relatos, de “Iemanjá, rainha do mar”, no qual os versos que, em dado momento, aludem a Dorival Caymmi (a famosa canção “Morena do mar”); em “Goiabeira” — o tom nostálgico do encontro e do reencontro — dá o tônus das experiências não-lineares, aquelas imaginadas ou rememoradas.

Em um livro conciso, a autora oferece uma escrita que fala de si, não como autoanulação, mas certo experimentalismo que se consolida em conteúdo. O próprio título, Tudo azul vividamente vermelho, aponta para algo simbólico: o azul pode ser associado à calma, certa serenidade, o que é contrastado com o vermelho, pois este se remete à paixão e ao sangue, dado à intensidade da vida.

***

Para voltar à introdução digressiva, embora indicativa, resgato novamente a contribuição de Tsvetáeva: segundo a crítica e poeta russa, o contemporâneo autêntico não é o atual cronológico, ou algo que se coloque como “disruptivo” propriamente porque agrada a muitos, mas o que permanece ativo e marca aquilo como sendo sempre o nosso. A obra verdadeiramente contemporânea, estendendo a ideia, é aquela que resiste à caducidade histórica, mantendo sua potência de sentido. Daí emerge a seguinte pergunta: como o lirismo de nossos dias será compreendido além do sentido de quem não abandona o movimento da inventividade?

Sem querer oferecer resposta precisa, apenas sublinho que uma certa e possível rejeição da arte contemporânea mostra, na esteira do argumento de Tsvetáeva, um sintoma de interrupção do processo criativo (mas a criação não é intocável por tal razão; antes o contrário). Além disso, cabe a qualquer poeta a escolha de rejeitar ou sofrer seu século, embora isso não possa, mesmo assim, efetivamente criar algo fora dele. As influências poéticas das quais Andujas por sua vez se nutre são contemporâneas (a epígrafe do livro, por exemplo, é da escritora Gloria Anzaldúa). 

Em suma, as influências e a poesia própria certamente fazem de seu lirismo, algo que se encontra nos versos como algo intimista; entretanto, se fazem notáveis as influências vez ou outra sublevando-se. Logo, não é demais afirmar que o critério analítico é menos quantitativo do que qualitativo da função crítica frente à criativa. O conteúdo poético do eu (lírico) não é recurso formal de inovação por si, mas pode ser a partir dele a forma elaborada mais profundamente. Serve, antes, como experimentação, ou o estilo, ou algo congênere, para que uma poética de estreia — como o caso de Andujas — possa atingir uma consciência artística contemporânea; assimilar objetivamente as influências e fazer delas o material poético inventivo cada vez mais consolidado. O caminho lírico é de paciência e de autoconstrução diante de si. A autora demonstra consciência disso.


______
Tudo azul vividamente vermelho
Brenda Andujas
Patuá, 2025

Notas 

1 Exemplo dessa confusão, por sua vez, é o recente comentário que Alex Castro (cf. Castro, 2025) empreendeu sobre a forma romanesca de Aline Bei. Para ele, o principal traço distintivo da obra dessa escritora é a “coragem” de escrever sem ironia em uma época em que o cinismo impera na literatura contemporânea (sic!). O falso recurso de “escrever sem ironia” sequer pode ser considerado um peremptório estilo. Assim como a “imediatez” não serve como parâmetro de qualidade literária, acho plausível enfatizar que no contexto em que o mercado tomou posse dos produtores, dos receptores e da crítica, vale notar o papel contemporâneo de que outrora Tsvetáeva menciona; nessa linha, reside um outro e fundamental aspecto: os gritos e escritos de rejeição a autores consagrados (“Abaixo Pushkin!”, “Abaixo Shakespeare!”) — exemplos literais da autora — são explicados como conflitos geracionais, e não juízos estéticos reais. A “polêmica” disfarçada de crítica (sinônimo de louvação raquítica) é parte do conjunto do problema em que Alex Castro mesmo se insere.

Referências 

ANDUJAS, Brenda. Tudo azul vividamente vermelho. São Paulo: Patuá, 2025.
CASTRO, Alex. Aline Bei, uma escritora não-irônica que merece ser lida e ouvida. Disponível aqui. Acessado em: 15 de dez. 2025.
TSVETÁEVA, Marina. O poeta e o tempo. Tradução Aurora Fornoni Bernadini. Belo Horizonte: Âyiné, 2022.


*Wesley Sousa é doutorando em Filosofia pela UFMG. Membro da Associação Brasileira de Estética (ABRE), do grupo de pesquisa “Crítica & Dialética” (UFMG/CNPq) e do “Modos de presença nos fenômenos estéticos” (UFMG/CNPq).


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