Crime e castigo, Fiódor Dostoiévski

Por Pedro Fernandes



Shakespeare, Cervantes, Dante, Orwell, Hemingway... Grandes nomes da literatura que marcam os principais momentos da literatura universal. Entre estes nomes há muitos vazios, pertencentes a muitos outros de igual envergadura. E, claro, entre eles não pode deixar de se escrever o nome do russo Dostoiévski, autor de uma vasta obra, mas da qual se destacam ao menos três, digamos assim, mais lidas: Noites brancas, Os irmãos Karamazov e este que agora comentamos, Crime e castigo. Dos três, este último é sempre tido como uma carta de apresentação sobre sua obra, visto que, é um título que se inscreve no âmbito do que a crítica tem considerado como o da maturidade do escritor.

Crime e castigo foi publicado em 1866. No Brasil, a tradução direta do russo mais recomendada é apresentada na Coleção Leste, da Editora 34; Paulo Bezerra, sem dúvidas, um dos nomes mais significativos no exercício de apresentação da literatura russa no Brasil, o responsável pela versão em questão, chegou a ganhar o Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional de Melhor Tradução em 2002. A primeira edição é de 2001 e, agora em 2009, foi editada mais uma, a sexta.

Em linhas gerais, o livro é a história do estudante Raskólnikov, que, vendo-se na miséria, assassina uma velha usurária e não consegue livrar-se do peso do remorso. O leitor que lê esta sinopse dirá: sim, deve ser uma trama típica de assassinato e, posso escolher qualquer outro sobre crime para ler. Se a impressão que lhe vem é esta, desista de avançar com a ideia de qualquer outro livro sobre crime. Romance do gênero há muitos e, cada dia se publicam mais, mas esta tem uma série de elementos que a faz única e deverá, ao menos enquanto vida humana existir, ser a única. Sobretudo, porque ninguém conseguirá superar, por exemplo, a caracterização minuciosa da psicologia das personagens. Dostoiévski lhe pega pelo braço e leva-o ao centro gerador de todas as ações: a consciência. E, o melhor, não diz pelo que a consciência tem de dizer; simplesmente a acompanha em atuação. Por vezes, o leitor não despertará com uma lufada da respiração fatigada de Raskólnikov no seu pescoço e, em muitas situações, se sentirá perdido no torvelinho das tensões mentais a que estão submetidas as personagens.

Esclareçamos melhor as circunstâncias dessa sinopse, mas sem atrapalhar o leitor da experiência que deve ser a de ler a obra para compreender sobre o que aqui falamos. Sim, Raskólnikov é um estudante universitário pobre; mora num quartinho alugado a uma senhora que, dia após dia, mais compreende a necessidade de, para escapar, e alforriar os outros que vivam sob seu jugo (olhem a clara metonímia na relação patrão-empregado, a expropriação da força bruta deste último pelo primeiro), deve matar a velha, que, não apenas tem a pensão com quartos para gente como ele, mas cuida de uma loja de penhores. Para o estudante, a velha é tão somente uma peça inútil na engrenagem social e se grandes homens da história, como Cesar ou Napoleão, assassinos foram absolvidos pela história, por que não ele integrar essa estirpe?

Todo o desenvolvimento da trama, a partir de então, é um extenso percurso labiríntico conduzido dentro de fora da consciência de Raskólnikov e dos que estão mais próximos ou se achegam. Talvez, e essa é certamente a conclusão mais óbvia, portanto adequada para essa ocasião que quer ser apenas a de reverenciar a obra e instigar o leitor a lê-la, esta seja uma narrativa fundada a partir da pergunta, tão intrigante como seu enredo, o que se passa na cabeça de alguém quando mata outra pessoa? Não totalmente convencido de sua inocência, tampouco de que tenha praticado um crime perfeito, Raskólnikov é tomado por excesso de paranoias, medos, obsessões que o levará à beira da loucura, ou ao menos, não ser uma consciência comum. Lembra, de imediato, quando me refiro dessa maneira sobre o romance, o conto de Edgar Allan Poe, “O coração delator”. Segundo Dostoiévski ninguém permanece normal, por assim dizer, depois de assassinar uma pessoa. Assim, entre as cenas fundamentais da obra, está a do ataque de riso histérico do estudante em meio ao interrogatório da polícia e, claro, o extenso debate costurado entre os vários lugares de sua mente numa luta consigo mesmo.

Por fim, este é um romance que não se perde apenas no registro de um crime comum, mas uma reflexão sobre a luta do homem pela sua dignidade e contra as várias formas de tirania (isso está impresso em todas as relações milimetricamente desenhadas pelo escritor russo). Raskólnikov é quem buscará provar para si mesmo se o indivíduo pode se dar ao direito de ficar acima da moral, do bem e do mal, tal como o super-homem de Nietzsche. Enfim, é um romance que, depois das fundamentações teóricas construídas por Bakhtin, um dos melhores leitores de Dostoiévski de sempre, e de tantos outros nomes da crítica, além é claro da sua força magistral que, umas notas simples dessas não pode ter outra motivação se não a de convidar o leitor a este exercício: ler Crime e castigo.

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