E a culpa, de quem é?

Por Pedro Fernandes

A leitura, de Pablo Picasso

A revista Cult, de posse de dois assuntos - as vésperas de mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e da eleição da cidade argentina de Bueno Aires como a capital mundial do livro - volta à inquisidora pergunta: o que há de errado no Brasil que coloca os hermanos argentinos sob a posse de um título do tipo. Para isso, a revista deu-se ao trabalho de ouvir alguns nomes a fim de que eles apresentassem sua opinião acerca dessa situação. Colocando-me como um dos perguntados e como leitor e admirador da Cult é que redijo essa breve nota brevis.

O problema da leitura no Brasil é, sim, embora não pareça, um assunto sério, tão sério como as famigeradas questões econômicas que rodam todos dias nos jornais. Aproveito para antes dizer que as opiniões apresentadas na reportagem, em sua grande parte bem-intencionadas, faltam numa coisa: tirar o olho do próprio umbigo para olhar mais amplamente a questão. Uma delas, a de Reinaldo Moraes é a mais descabida. Como escritor e usuário da língua portuguesa falar que é o reduzido número de falantes do português o que nos coloca em pé de inferioridade ao espanhol me parece uma afronta. Falamos português, lemos em português, não precisamos de hablar para ler o acervo que temos. Quanto aos de fora, que busque as traduções, hoje tão já difundidas. Há livros, inclusive, que quando lançados em sua língua de origem também são lançados em simultâneo noutros países.

Somos poucos leitores por duas razões: uma, histórico-cultural. Vimos de uma formação em que as necessidades maiores à subsistência sempre foram colocadas antes de qualquer outra necessidade. Isso levou-nos a desenvolver uma importância superior a outros itens - comida, vestiário etc. - antes de consumo de bens intelectuais. Interesse esse que se agrava com a ascensão, por aqui, de um modo de vida em que o consumismo de bens materiais é uma necessidade maior que todas as outras necessidades. 

Dessa razão, emerge outra pobreza: a de políticas de incentivo à leitura. Fabricadas essas sempre ao calor da hora para cumprir uma rubrica de gabinete deste ou daquele governo e sem quaisquer seriedade ou continuidade. Alguns projetos conquistam grandes retornos, mas são descontinuados porque se acredita, ao que parece, que educação é uma coisa intermitente e não contínua, como deve ser. Essas políticas, muitas vezes apenas abrigadas no interesse interior das escolas se encontram com o acentuado desinteresse dos professores da rede básica de ensino pelo incentivo à leitura, visto que, este mesmo Estado interessa-se antes da aprendizagem pelo número e o retorno imediato da ação. Juntando essas duas razões com o entendimento de que somos um país de dimensões continentais fica evidente o fracasso da leitura nessas terras.

Uma única palavra resolve ambas as razões: incentivo. Falta-nos incentivo. Somente o incentivo - como são feitos com os bens materiais nos constante bombardeios de uma gama de meios de comunicação - é capaz de criar em nós a necessidade. A criação da necessidade leva-nos ao consumo. Sem isso, a grama do vizinho sempre será a mais verde.

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