Seis poemas de “Numa folha, leve e livre”, de António Ramos Rosa

Por Pedro Belo Clara

António Ramos Rosa. Foto: Nuno Ferreira Santos.


 
Lúcido rosto
de uma haste cálida
de frementes veias
tão meu como o espaço
em que vogava entre nuvens e árvores
 
Era uma folha que entre folhas flutuava
respirando a maresia viva
de um mar que estava longe e perto
e em voluptuosa leveza o peito abria-se
 
Que adolescência aérea partilhada
em júbilo fresquíssimo
com o deus dos elementos vivos
na sua glória actual embriagadamente efémera
como se nascêssemos continuamente
em transparente plenitude
 
 
***
 
 
Amar as palavras
é inventar o vento
através da noite
em pleno dia
 
Se desapareço
grão por entre grãos
é porque um deus adormece
como um astro imóvel
polvilhado de pólen
 
Onde estiver serei
o sono do amor
num claro jardim
e como se estivesse morto
as ervas hão-de romper
das minhas unhas verdes
e a minha boca terá
a ébria frescura
da plenitude do espaço
 
 
***
 
 
Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura
 
Aqui
no meu reduto
entre ramos de ar
entre a cintilante indolência da água
em ondas vagas
apaixonadamente lentas
 
Aqui
eu pertenço
ao centro da nudez
como uma gota de água
ao rés do solo
na sua imediata e nua felicidade
 
 
***
 
 
Em forma sabor e duração
em viva densidade harmoniosa
em que o silêncio perpassa na brancura
o fruto melodioso da tranquila hora
cintila em plenitude de presença
sem promessas sem pertencer a ninguém
e em redonda leveza todo em si se consuma
Não se dirige a alguém não requer palavras
não tem mistério algum e é indecifrável
na sua lenta nudez na sua límpida luz
Na sua vaga pureza uma antiguidade murmura
e é a surpresa de uma primeira vez
que se demora como um barco harmonioso
 
 
***
 
 
Alguns chamam-lhe pássaro ou peixe
é um prazer simples mas intenso
está à mão e a própria mão o modela
não se está no mundo
ou o mundo é o sossego de uma brisa
o ténue gorjeio de um pássaro
 
É doce e subtil o formigueiro
no interior do retesado dardo
com uma ponta redonda
e em que redonda e rescendente duração
flui
 
Até que
uma gota surge da sua fenda
e a boca bebe-a
como a essência salgada do universo
 
 
***
 
 
Um gesto que não veja a mais
mas só a lenta duração de uma calma energia
que inaugura a roseira voluptuosa
dentro do círculo branco do instante
 
Há sempre este momento
o resto pertence à morte
ou à cinza do irreparável quotidiano
não queiras ser mais do que a respiração redonda
quando o silêncio é um torso cintilante
e no peito o recebes como um felino suave
 
Tu vês apenas o que não é visão
o que em cada dia é uma sequência que foge
mas o desejo aspira à rosa da duração
que não é mais que a suspensão fictícia
da hora calma sobre uma página em que ela pousa
com a leveza de ser nada e a espessura de uma
possível integridade



Notas:
1 A edição aqui referida é a publicada pela Lua de Marfim (Abril de 2013)
 

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